sexta-feira, abril 30, 2010

Do dever pátrio e outras coisas mais.


Já irrompiam imponentes do firmamento algumas flechas delgadas quando, impiedosamente, se apresentaram as tantas onomatopéias do rádio-relógio. A face refletia em tom amargo exatamente o que liam os orbes preguiçosos: 7:00 AM - consideravelmente cedo perante a alteração de sua rotina após a revolução promovida pelos educadores do estado que agora vagueavam sua manhã sem pudor. Pôs-se de pé em igual medida dos olhos e ensaiou preparar-se para o compromisso: os três representantes das forças armadas ainda sorriam em sua mente e davam as instruções para o processo de inserção de cabeça para baixo (!), isto é, seria incluído no grupo de fuzileiros e arrebatados ao vácuo os sonhos, a Ciência, o nobel e os louros da glória.

Moveu-se, enfim, após avaliar as tantas restrições impostas àqueles que fugiam ao compromisso pátrio. Mas o desejo do instante era o de adotar um nome mais simples, quiçá indígena, pois diziam as más línguas que os ocupantes da alta hierarquia louvavam os "milicos" de nome impronunciável e estes encabeçavam as convocações do ano vigente. Ciente disso, a passos soturnos, discurso praguejante, localizou a Junta Militar do município - uma casa de arquitetura moderna, jardins de samambaias descuidadas, uma árvore vítima do açoite do outono e a pintura quebradiça - para tão logo as peripécias do destino se anunciarem presentes. A fila, que se estendia por alguns metros, era composta de cavalheiros memoráveis; músculos salientes, semblantes corajosos, poucas palavras e rudeza gêmea ao touro seduzido por rubro lenço. O jovem, capaz de difundir pessimismo pela imagem desgostosa, adentrou a olhos baixos o cômodo mal cheiroso e intercedeu com exímia delicadeza a funcionária com seu nariz torcido, da qual escapou um 'pois não' sem réplica audível: o moço de braços finos e dedos longos encontrava-se imóvel diante de uma fotografia ilustrativa de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac - Olavo Bilac, aos minimalistas - além do título em fonte expressiva de patrono do exército pregada a uma parede sebosa, oposta à entrada estreita.

Se fosses tu um leitor atento, notaria que a razão de tamanho espanto encontra-se no texto anterior, cujo enredo distorce a realidade do parnaso (agora patrono) além de sugerir uma vingança de gerações de letras. Olavo, assistindo à nova etapa dada a sua vida, muito ousada até, tramou malícias, aliou-se ao destino e deu partida a uma sucessão de perversões e tormentas ao indivíduo que o exaltou em artigo não muito importante à contemporaneidade.
Duas ou três interjeções se seguiram da distração pela foto, e um choque, talvez o mais aborrecedor deles, no ombro o despertou da divagação onírica do momento:

__ Por favor, apresente em ordem de importância a documentação exigida para efetuação de seu alistamento.

A última palavra pesara como pesou a Bilac em outra circunstância; a mulher pareceu ainda exceder o valor da retórica, porém o jovem ignorou a ênfase e destemido empunhou furtivamente a tarifa última dos débitos de água, a cartilha que o impedia de ser um indigente e duas pequenas fotos recém-reveladas - as quais pareciam retratar o pavor inerente ao propósito da fotografia, um horror. As mãos, úmidas de suor causado pelo nervosismo, sacudiam os papéis em ritmo intenso. A brisa do bolor seguia em contra-dança para em seguida ilustrar um sorriso que se fez nos lábios rosados e assimétricos da militar, que pareceu ter notado algo suficientemente discreto na situação.

A dama-soldado de testa ampla, nariz aquilino, retidão e bondade de espírito não hesitou em preencher com invejável destreza a ficha cadastral padrão que poria o quase homem na rede de cidadãos aptos a servir o país em guerras sem propósito. Havia chances de escapar a essa tarefa, claro, contudo os três representantes das forças armadas, em seu rapel holográfico fajuto, ainda o convidavam para aquela missão absurda, quase desumana.

Ao pé da folha de cadastro, junto ao espaço destinado ao emissor, vinha impresso o nome do reservista em fonte de homenagem aos míopes e em ordem de arquivo, ou seja, com o sobrenome seguido do vocativo ordinário. Naquele caso, o LAMOUNIER, denso e confuso, e o ARTHUR berravam num tom aquático de verde para a redatora escrivã. Ela fixou a vista sobre o conjunto das letras - o que fez o garoto suspeitar de analfabetismo funcional - porém, no instante em que concluía a reflexão sobre o sobrenome destacado, a dama-soldado bradou com toda a energia e regionalismo:

__ Ó, você é parente do tenente ! Ô, tenente Almir, vem cá ver !

Jamais entendi decerto o que os livros queriam dizer quando descreviam o arrepiar dos pêlos da nuca; mas neste episódio, principalmente após derrubar a cadeira em que me sentava e causar um estrondo colossal, me chocar com todos os candidatos que ansiosamente aguardavam o término do preenchimento da lista e bater em retirada daquele lugar após conhecimento do vínculo com o tal tenente, obtive todos os recursos para traduzir o fato em palavras. A comicidade existe, claro, porém eu temi pela Ciência e pelo exame médico que um amigo, supostamente selecionado no mesmo processo, vivenciou em traumas e sequelas psicológicas. Toques e falta de pudor era algo comum no consultório da afamada médica Rose, sobre a qual eu imaginava ombros largos, voz grave ressonante e masculinidade superior à de qualquer pugilista tri-campeão mundial. Me sobrara tempo de perambular pela região para me certificar de que eles não procuravam por mim, e não o faziam.

Também não pense, leitor que contorce e ri, que me distraí quanto ao culpado desta coincidência; pois o Sr. Bilac não me escapa do próximo escárnio. Confesso também que sinto-me agora como uma garota presunçosa que conheço, a qual de tão avessa aos escribas nacionais tapou os ouvidos (e também os olhos) ao que é arte e conceito aqui nascidos. E se pudesse dissolver sua condecoração, oh Príncipe dos poetas, saiba que o faria agora.

quarta-feira, abril 21, 2010

O parnaso desafiador.

O esforço herculano de se criar a mais bela e perfeita ordem poética, e de encantar a dama-corte com métrica, lirismo e rimas admiráveis, fez da trindade parnasiana o símbolo nacional da pompa e vaidade inerentes à literatura. O nome do ícone, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac - Olavo Bilac aos minimalistas -, não sugestiona por completo a razão pela qual evidencio o "Príncipe dos poetas" aqui, sobretudo por caracterizar falta grave no cumprimento da lei neoliberal que prevê um modelo intenso de incondicional e enérgica concorrência, tal qual dita o modelo capitalista. Mas sigamos com o aristocrata das letras, pois este já se mostra impaciente e um tanto aborrecido.

Era costume bárbaro da época - transição dos séculos XIX e XX - haver entre os nobres escritores uma espécie de rivalidade abstrata. Aquele que saisse vitorioso dos desafios adquiria a principal fonte de propulsão sócio-política dos personagens da época, isto é, se o indivíduo publicasse a obra de maior valor crítico era imediatamente condecorado com a projeção mídica e os louros da glória pública. Com nosso querido amigo Bilac a realidade do tinteiro não foi diferente. Envolveu-se em centenas de batalhas "sangrentas", conquistou prêmios, modestas recompensas, invejáveis títulos, e tão logo mostrou-se co-autor de um movimento gerador das mais intensas discussões intelectuais: o Parnasianismo.

Contudo, ao visualizar a expressão deformada de espanto das faces que me lêem atentas, considero coerente o questionamento do leitor ao levantar a problemática: "Mas que diabos está dizendo? Fugiu ao foco, aposentou a ferramenta reflexiva, filosofia não mais há, degenerou as boas frases..." - mas alto lá, detentor de orbes amuados, deixe que me explique em seguimento do enredo.

Das ocorrências mais comuns em território fluminense, aquela que causava maior sublevação entre os habitantes era o surgimento de forasteiros de aparência hostil e sinistra. Eles logo se retiravam após duas ou três noites em hotéis de alta classe dos bairros meridionais da capital, e levavam todos a crer em movimentações bancárias de porte colossal. Porém nenhum ser que se mostrava amante da vida ousava se aproximar daquelas figuras obscuras e cheias de mistério, exceto um, aliás, uma, e era Amélia de Oliveira, irmã de um certo poeta e amor palpitante do "Príncipe".
O estrangeiro do qual Amélia se aproximara havia chegado à cidade há pouquíssimos dias, e alegou à dama que um inconveniente ocorrera e suas economias se haviam desaparecido. Ela se dispôs prontamente a auxiliá-lo na busca por um abrigo, pois em sua casa estava sujeita a reprovações do irmão, sempre bem-humorado, e do pai, que, apesar de nem sempre se encontrar na cidade, mantinha olhos indiretos sobre a moça.

Desenhando os mais variados caminhos a fim de reconhecer algum generoso conhecido que cedesse teto ao mais novo amigo, Amélia passava pela principal via da metrópole quando divisou um sobrado intimidador e seissentista - dezoito janelas que sorriam aos admiradores nas ruas, duas portas avermelhadas que separavam a saída dos empregados e pintura de alvidez recente. Esta vista engatilhou a lembrança de um baile que a moça um dia fora, embora lhe falhasse a razão da comemoração e o vestido de gala usado para valsar com bons partidos. Resolveu bater à porta e arrancou do companheiro um grito de dor após puxar seu pulso com ansiedade.

_ Sr. Olavo ! Há alguém em casa ? - toc, toc; sua mão doera como nunca - Sr. Olav-- !

Um homem de postura ereta, retidão de espírito e nariz adunco aparecera no vão da pesada porta. Apresentava traços caricatos, ora finos, ora grossos, um par de lentes arredondadas e olhar pesaroso, cansado. Levou a mão à cabeça e desferiu com movimento suave um golpe em seu chapéu de côco, o qual caiu na palma de sua mão com igual rapidez:

_ Olá, D. Amélia, que trazes tu aqui a essa hora do dia com sujeito desconhecido em sua companhia ? - Bilac se aproveitava do descuido do estranho para analisá-lo por completo: vestimenta de alfaiate, sapatos lustrados, bengala inglesa e chapéu arredondado. Um símbolo de requinte e nobreza. Contudo nosso Príncipe sentia uma violenta corrosão transitar por todas as suas vísceras, bradando hinos de amor. Um ciúme ácido, amargo e indiscreto o desconfortava.

A dama de enfeitados cabelos ensaiou responder à pergunta de Olavo com uma flexão vagarosa dos lábios, quando, interrompida com um toque denso de seu cortejador, silenciou-se para ouvir o monólogo diplomático:

_ Boa tarde, Sr. Bilac, sou Carlos Inácio Unaí Mendes , crítico literário, cronista, romancista e poeta. Resido atualmente em São Paulo e represento o núcleo de imprensa jornalística do tablóide Brasiliense; gostaria de lhe apresentar algumas obras e de passar a tarde em sua companhia, pois tenho completa noção de sua autoridade cultural perante a nação.

O poeta se assemelhava a uma estátua após o último verbete do sujeito desconhecido. Seu último ato, involuntário inclusive, foi o de arriscar um "sim" em baixo tom de voz, virar as costas aos visitantes e chocar a porta contra a armação que datava de dois séculos atrás. Ele conhecia até bem demais Carlos Inácio, e este homem, embora desconhecesse o fato, foi a razão de centenas de noites insones e tentativas secretas de superação bordando versos simétricos, aluviando rimas, garimpando técnicas e arquitetando estilos.

O Senhor Bilac, como era também chamado pelos moradores das redondezas, escolheu um horário deveras incoerente para adentrar seu escritório úmido e empregnado pelo cheiro intoxicante do trabalho das traças. Sentou-se calmamente na cadeira confeccionada por seu avô, ainda a pensar na reação dos visitantes que deixara na porta de sua enorme fortaleza. Aquele móvel no qual se sentava resguardava a memória de suas primeiras empreitadas literárias: as cartas de amor, os bilhetes de aviso e até mesmo o requerimento para os inconvenientes que o perseguiam na época do colégio. O corpo desfacelando aos miúdos, dirigiu-se ao armário rústico e tomou para si o tinteiro junto à pena; retornou à mesa e, com um leve suspiro, pousou a pena que ainda teve tempo suficiente para gotejar e manchar o papiro amarelado e de qualidade questionável. O Príncipe ignorou seu descuido para pôr, sob uma invejável caligrafia, os dizeres "O Parnaso Desafiador", com um dedicatória provocadora no envelope preparado ao correio, uma vez que o texto seria dirigido ao Sr. Unaí Mendes.

No espaço dedicado à data, Olavo precisou de uma recordação. Olhou para o calendário torto da parede e divisou a concretização da dicotomia da Vingança: o dia, domingo, e o correio não viria buscar nada que ele se propusesse a criar.

segunda-feira, abril 12, 2010

O lirismo condicional.

Nesta manhã incolor e gelada (lê-se inquietante e depressiva), nenhum motivo tenho eu para pôr em papel ou em teclados aquelas anedotas frouxas e triviais que, apesar de tamanha insignificância inerente ao leitor, consigo maquiar com extensos e líricos parágrafos, além de viciar o diabo crítico pela naturalidade e recorrência das tolices tais. E foi nesta mesma manhã, especificamente no momento em que quase me sufocava no denso travesseiro de penas, que me ocorreu uma idéia (uma iluminação, como apontaria um Visconde peculiar), não semelhante apenas àquelas fixas e perturbadoras idéias, mas singela, proveitosa.

Tudo foi extremamente dinâmico; fato que tão logo me levou a suspeitar de que minha mente estivesse ansiosa por me transportar o pensamento reluzente, e sem hesitar prossegui com a reflexão involuntária - e digo involuntária pela circunstância em que estava inserido: sufocado, sonolento e, por assim dizer, amordaçado por um cobertor também muito pesado. Pensei em chamar por ajuda, mas minha avó jamais ouviria meus clamores com os ruídos ensurdecedores da lavadoura em estágio de centrifugação.

_ Certo, mente tola e hostil, você venceu seu próprio dono e merece os devidos galardões. Que queres tu depois de tão admirável triunfo ?

Em resposta, ou em absoluto silêncio, uma espécie rústica de apresentação de slides iniciou-se em meu delírio, e as lâminas projetadas em que julgo ser meu lobo frontal esboçavam fontes enormes de artigos que já se esvaíam da memória. Mas logo um padrão se estabelecia naquelas imagens, com vigor não só comparável ao de um alterofilista, e este apresentava-me em formato de denúncia minhas tantas técnicas de seduzir olhos indistintos - envergonhei-me prontamente, óbvio. O título daquele boletim pessoal de ocorrência trazia no título três malditas palavras : "O lirismo condicional" - das quais retirei propositalmente o que encabeça o presente artigo. E como também já lhe garanti a ausência de motivos pelos quais escreveria a anedota, leitor jurídico, não me açoita a responsabilidade de lhe conceder contos 'machadianos' memoráveis. E sigo.

A mente despertou por susto, e me parecera que a máquina terminara o estágio de centrifugação. Uma chance: "Vó!", e desta vez me certifiquei da realidade por um beliscão próximo ao ombro. Cuidadosa como sempre fora, veio como uma mãe ao detectar perigo acerca da prole, e trazia consigo uma xícara de café quente e um pão de aspecto novo.

_ Tome, Arthur, trouxe-lhe uma xícara de lirismo e um belo pão condicional, para que abandone de uma vez por todas estas conveniências literárias e saturadas de desarmonia. Ademais, três ou quatro comentam e lêem seus devaneios, e isto é suficiente para assumir uma postura de respeito e largar mão deste sentimentalismo juvenil imperfeito.

Suponho ter caído da cama, e a mente fazia escarninho de meu estado - maldita. Minha avó desaparecera do quarto, e de modo indelicado degluti toda a xícara junto do pão e, com onírico bem estar, sorri debilmente para acordar sob o efeito do tímido e caloroso sol.


sexta-feira, março 19, 2010

Da cobiça declarada.


Posso observar agora, - e não que tenha me inclinado ao esquecimento ou leiguice em tempos pretéritos - que a tal cobiça, dita também pecado capital sob aspectos religiosos, era, para o cão que lhe escreve tamanhas heresias, um estigma notável e triste, o qual se mostra agora capaz de levá-lo à ruína em menor tempo do que aquele gasto por uma partícula alfa ao iniciar sua parábola lenta e caricata de encontro ao chão. Mas quero lhe apresentar durante estes períodos longos e confusos, leitor de amargos olhos, uma espécie de cobiça que afugentou em definitivo o ser que pôde captar em meu semblante rugoso o esclarecido desapontamento por certa citação inconveniente, a qual aqui também o será. Avalie:

Em ocasiões semelhantes àquelas que leitores mais fiéis idenficariam (textos anteriores), esforçava-se a moça para manter-se em pose vantajosa, isto é, preservar nos olhos do menino encantado a herança mais característica da Escola Romântica. Para tanto, quase imediatamente ao encontro, pusera-se ela em uma torre intimidadora e inalcançável, para fazer-lhe (digo, fazer-me) contemplá-la em níveis inferiores e desgostosos junto do tom imaculado da pele que se fez em um açoite faminto e esguio.

E foi no desenrolar do diálogo desesperado e diário a que submetia a dama - esta sempre se ausentava poucos minutos após minha interjeição gentil - que anunciou-me, suponho que com grande ingenuidade, a interferência de um personagem terceiro ainda sem figuração: um cortejador (e peço-lhe que verifique o significado de tal verbete em seu suporte linguístico vitalício, pois o mesmo reaparecerá em meus registros banais).

E em consideração ao que nomeei meu ponto-chave, lanço o desafio: Se através de olhar analítico e imediato uma dama for capaz de ver-se sob cobiça declarada de um cavalheiro, dou-lhe minha fé embrulhada em adornos de servidão, pois meu rosto se desfez em calor, em fúria e em unidades de mudanças fisiológicas, e a moça, serena e cautelosa, virou-se à porta e despediu-se com um sorriso como qualquer outro. O fim.

terça-feira, março 16, 2010

A fantasia 'bela' dos desavisados.


Nestas súbitas divagações que nos tomam parte e meia do tempo, encontrei-me vez ou outra em esquinas acinzentadas, cabisbaixo e torpe, a avaliar os vértices da verdade doída que sobrepuja fantasias anteriores - vide De meu pecado faço crime. Elucidado a esse respeito, assinalava em alguns instantes periódicos as forças motrizes que me conduziam ao sono terno da ilusão sem causa, e, projétil ansioso por sair do artefato assassino, me atraíam a deitar no véu onírico e cobriam-me a cabeça após cerrar os pés aflitos, famintos por caminhar !

Quando chegou ao conhecimento dos presentes tamanha indiscrição, os mesmos puseram-se a sintetizar idéias e a buscar, em suas veias socráticas e platônicas, uma maneira pouco elaborada de me presentear com a verdade absoluta e conferir aos meus ouvidos um negativismo saudável, o qual me faria retornar à integridade cognitiva e enviar para um ambiente de inércia aquela distração deletéria. Naturalmente não o fiz, e por este triste, e talvez feliz, motivo, recorro aos olhos públicos para definir o julgamento da noite passada, para espantar de minha mente confusa os fantasmas dos laços amorosos juvenis, para tentar ouvir um eco de sentimento do grito que silencio por nada ter a clamar.

A dama agora se distrai com outros textos, com outros sons que não minha voz apressada e ressonante, e a fantasia bela dos desavisados soa com uma frase estridente e fria, carregada de naturalidade e doçura, anunciando, aos berros, as agradáveis circunstâncias de um amor - talvez pelo tempo que perdi naquelas esquinas cinzentas a esperar meu vigor psíquico exaltar-se - correspondido.

Ausente em forças, leitor que ri e contorce, choquei a cabeça contra o banco desconfortável e pus-me a realizar sobre cadeias carbônicas e geometrias moleculares, mas estas divertiam-se com minha derrota e agrupavam-se em forma de palavras e nomes perturbadores. A fuga mais prática era alimentar o deboche da Ciência, e nesta prática insana concebi minha moléstia e o escárnio do mundo: um horror em desatino. Adeus, saprófita de entranhas, adeus.

terça-feira, março 09, 2010

De meu pecado faço crime.


Das variedades de pecados e crimes que me ocorrem agora, destacam-se os inconstitucionais, os telepáticos, os sutis, concretos, passionais e até mesmo ilógicos. Mas saiba tu, saprófita de regulares períodos, que as tais categorias dispostas acima não alimentam sequer a circunstância em que me encontrava a planejar aquele pecado/crime que, teoricamente, me faria inocente pelo silêncio e capaz de conduzir tudo ao rigor do pensamento, da idéia.

E eis que agora me encontro em um dilema doloroso, o qual me faz hesitar entre confessar as mais sujas e inescrupulosas maldades que cometi nesta úmida e murcha tarde e esconder de ti a anedota de maior significado a meu cálido e expressivo ser. Contudo, apesar de haver tempo além do que pode mensurar para que eu me decida, prontificarei-me a uma alternativa, e contarei em criptografada mensagem o que de tão errado fiz:

Foi no retorno para casa, após exatas quatro horas de dedicação e construção de felicidade duvidosa, que dei-me a refletir sobre os que me acompanhavam no trajeto, isto é, naquele caixote móvel, extenso e ruidoso havia também seres que, como eu, se flagelavam arduamente para dar cor e impulso a uma vida de aspecto penoso e sofrido. Mas dentre aquelas faces pálidas de cansaço e solidão amarga, se contrastava uma de cor viva e salpicada de pigmentos rosados nas bochechas, a qual vez ou outra se arriscava a lançar-me certa atenção, ainda que apenas eu a bombardeasse com monólogos apressados e desconexos, e saturasse o que restava de desconfortável e inquietante silêncio entre 'nós'.

Confesso que isto se seguiu por apenas dois dias, e é sabido que não se pode chamar de dia o que se limita a uma dezena escassa de minutos famintos e pontuais - sim, eu rezava para que o tempo se perdesse nas perigosas curvas que fazia o apressado motorista, com tensão só não comparada àquela do médico estagiário de um hospital regional qualquer, na realização de uma cirurgia cardíaca. E foi neste devaneio infantil de ter mais e mais dezenas de minutos com a tal face em contraste, que, talvez por estupidez inócua, me senti tocado por um pensamento com teor humorístico ímpar: E se um pneu implodisse ? E se um temporal não permitisse que prosseguíssemos com a viagem ? E se levados fôssemos para um dimensão atemporal ? E se iniciasse uma chuva aterrorizante que nos obrigasse a dividir um grupo de lugares ? - eu em meu respectivo canto esquerdo, naturalmente.

Veja, portanto, leitor amado, que de meu pecado fiz crime, e acusado por ele seria feliz absolutamente.

sexta-feira, março 05, 2010

Ensaio da insensatez.

"Não faz mesmo muito tempo que me decidi a respeito destas inúmeras tentativas de tornar vivo o gosto pela escrita", repetiriam em uníssono os que me ouvem sussurrar planos através de paredes surdas. Naturalmente, congregar simpatizantes dos suspiros desgostosos foi uma de minhas primeiras prioridades - mas basta, deixemos de lado este aspecto comercialista e pouco artístico para que possamos acessar a real razão desta 'empreitada' de letras mil !

E foi sem espera ou aviso prévio, sem ética ou timidez, que acometeu-me hoje tamanha alegria; muito semelhante ao sabor artificial de uma tenda encrustada por estacas e seus astros de pouca luz. E mesmo sem lá estar, mesmo distante daquele núcleo inacessível de suposta felicidade, poderia inferir que tal colosso reservava poucos sorrisos e acrobatas andarilhos sem perspectivas de muito sucesso, vez que há muito os ali presentes não ensaiavam arquear gargalhadas ou remexer-se por fôlego inalcançável.
Mas me justifico agora pela insensatez que instalei no que encabeça este frenesi literário, digníssimo leitor, e segue para sua degustação: tão suntuosa se mostrou esta jubilação que hesitei em dar-lhe o prazer dos relatos de minhas pupilas em dilatação e de um raciocínio desfigurado e trôpego - contudo sugiro que não se incomode por desconhecimento tamanho, visto que para tão banal e imaturo enredo já tens demasiadas críticas venenosas em punho ofensivo.

Hoje alimento idéias, e o faço com estas que se mostram como corpos d'água se ramificando, amadurecendo, virando-se, revirando-se, se desencontrando, reencontrando... ao fim de seu percurso, cortejam o temeroso mar, este representado pelo emaranhado periódico que doo a ti; adornado, claro, por minhas tão negativas reminiscências. Cuida-te, ser humano.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Título desinencial.

Não sei decerto se faz três ou quatro meses que imaculada encontra-se minha caneta de escrita, mas faz também tempo que dei-me ao luxo dos meios contemporâneos para publicar as tais tolices, tais que compartilho de modo solidário com o paciente e insólito leitor de entranhas: talvez um acerto, que seja !

Dói-me o esquecimento de bons títulos, - clássicos, naturais, fascinantes - logo eu, o detentor (e ostentador) de belas palavras de ênfase estética e demais atributos de estilo, por ora tão inúteis, tão impotentes a um título ! Um mero título ! Mas falta não mais me faz, pois agora agradeço ao esforço relutante daquela senhora de crespo e acinzentado pêlo, a qual suou romanticamente para fazer reverberar a sintaxe em meu âmago. Se não me falha a memória, seu passo primário foi simples, depois deu-se composto até atingir o desinencial - "ora essa, mas ele não se anuncia como os anteriores!". A lógica é necessária, pálido e desafortunado leitor, e quero que a saque deste depósito de virtudes e a empunhe por ligeiro instante, já que hei de dar partida ao monólogo enfadonho a que submeto sua triste, e talvez enérgica, alma.

Talvez deteste superestimação, ou mesmo o caráter volátil de meu estado cognitivo, ou tema a ti mesmo, desafiador maldito de meu dia-a-dia, e não mais me sinta confortável dentro deste léxico caótico. Mas o que testemunho sem denotações maiores é que torna escasso o pouco fluido que me resta, destrói minha já degenerada consciência, tão pura e hoje tão contaminada pelo conjunto mundano de práticas, diferentes até de minha caneta virtual, é claro, maculadas de ódio e ferrugem.

Decerto pensa, enquanto lê esta turbulência instantânea, sobre as causas que tomo para redigir o que interpreta tu injúria gratuita; mas assumo que aqui me encontro para transformar a desinência em gratidão, pois, mesmo que se esconda na timidez geométrica da ausência crítica, meus rascunhos são desafios em batalhas épicas por seu intacto ego desapercebido e taciturno, e ironicamente alegro-me por ser ao menos letrado. Dá-se aí um título, se quiseres fazê-lo agora.

Não sei se por conveniência ou falha mental, mas, ainda que se queira categorizar o fenômeno que me acomete por desnatural desânimo, - frieza de metal nu que aflige noturnas criaturas fantásticas - giros em eixos diversos me tornam confuso e pouco cerebral, registrando em pedra maciça encontros e desencontros com aflição letal.

Súbito e dramático final esse que me traz à lembrança tempos de tuberculosos versando sobre mármores quase polares os quais cortejavam o sereno frio de noites sem nome, sem símbolo e sem importância.
"O que fizeram de ti, dos Anjos ?" - por que não toma este como provisório, leitor de entranhas ?

segunda-feira, novembro 16, 2009

Para compor o ambiente.



'O som que tangia os ouvidos atentos dos presentes, ainda que de forma desgostosa, entrava em conflito com o estado emocional singelo daquele indivíduo de incauculável rudeza e aborrecimento. Estava sentado num ângulo disforme e antagônico ao aspecto uniforme e parnasianista do local e adornado com aquele natural descomprometimento com a aparência: um fato que dava um toque sutil a sua postura vulnerável - e fazia par com os hieróglifos indistinguíveis da circulação incessante de pessoas, a qual moldava caracóis e abstrações de uma criança feliz em receber gizes de cera e um papel (símbolo de alvidez), pobre papel. Não obstante, ao posicionar-se com decidida expectativa naquele canto vago e preenchido de mansidão - isolava-se daquela maneira súbita, e aguardava algo animador, surpreendente e incrível, mas apenas aguardava - confomou-se com a observação de uma dama - "ah, que diabos fazes aqui, senhora?" - a qual trajava um conjunto ilustre de indumentárias históricas e feitas, presumia ele, de acordo com o rigor da época. Evidentemente não ocorria-lhe o nome ou a composição psicológica daquele ser, pouco importava, a propósito, tampouco era de seu desejo tê-la por perto; afinal, conforme aprendera durante uma sucessão brutal de decepções sintéticas, seus amores devem encontrar-se num raio estrito da ausência de sentimento - ou algo perto disso: um horror derradeiro.'

Ao visualizar este composto de tolices, queria eu reduzir o tal papel a pó. Todavia, pressupondo pertencer a um sábio o bater do martelo, o toque da chama ou o destino de qualquer prosa, abstive-me de tal pensamento para voltar à tentativa de descrição do que não pude retratar na circunstância passada: a dama.
Sei que não é de teu interesse, leitor de entranhas, e com definitiva razão estás, mas creio ser direito de um escrevinhador tentar seduzí-lo com esta fábrica vitalícia de máscaras e disfarces, que, como resultado, traz à venda da inspiração e paciência por um vintém valorizado: o esforço das pálpebras tais. Sigamos.
Antes, valendo lembrar meu ato espontâneo em tomar parte do papel ocupado por equações estúpidas, tive a moça alva deitada sobre um banco de pés indecisos e declaradamente influenciados pela lei que nascera em uma ousada macieira e uma caixa encefálica de prestígio. Observei-a com temor: era esse padrão que me distanciava do pólo "ameaçador" (ao cônjuge, naturalmente) ou esnobe, algo que, nas duas dimensões, resultaria em olhos púrpura e em um sistema digestório em sentido contrário. Então a pequena, que não em tamanho, mas em expressividade e conveniência, tomou a si um instrumento de cordas; dizia eu que de todos eles era o mais acolhido pela sorte, vez que se instalava ao ouvidos e ao pescoço da ruiva sóbria, impaciente e disritmada, dona da voz pouco marcante e ecônomica em verbetes dissilábicos.

A ser sincero, como se esta fosse minha obrigação para com o saprófita infiel que me lê, desejei que aquele exemplar de beleza se arriscasse a ler esta estupidez; e por razão mais que comum, ou consequência, esta construção não se vê mais necessária, contudo ocupará um número preciso e modesto de pixels num blog confuso e alocado na página 66 do site de busca mais popular do mundo.
Chamam-me por ora. Despeço-me. Esqueço a dama, dirijo-me ao saguão de entrada: esta se perderá, como ocorre com todas elas, na imensidão do orbe infeliz, - "pensa Terra ?" - são meus olhos !

domingo, outubro 25, 2009

Mediocridade Equitativa e Categórica.


Interessante - mas não próximo ao grau dos números - é contemplar estas reviravoltas casuais e irônicas que empreende o módulo social; atônito e apressado, mantive-me estático a perceber-me frente à superfície refletora dos medos e, não menos essencial, da face.

O espelho plano, segundo a professora de olhos fugazes e corpo dotado de flatulências, reflete virtualmente o que se encontra no plano real, mas eu, tolo aluno da extremidade direita da classe, era incapaz de assim ver, e tentei erguer o dedo lentamente para discordar do conceito estabelecido àquela senhora nos tempos acadêmicos - "Professora, tentou realizar na prática o que pediu a seu mestre que lhe explicasse ?", predizia eu em pensamentos. Presumo que não, e, ignorância vaidosa dos tempos atuais, a moça aderiu à triste filosofia, e o diabo que me lê também o faria se restrito fosse o acesso a este incondicional artigo, o qual surgiu a partir de um desprezível aborrecimento somado ao dever diário de pensar nos seres que ainda sobrevivem através das prosas medíocres redigidas por um estúpido humano (sim, um humano!) - contudo saiba tu, detetive de entranhas, que não há um único indivíduo que tenha sua linha da vida ligada às minhas orações mal colocadas, mas treino, maldito dia que chegará como cavalo em galope apressado, para o idealizado momento em que sentar-me-ei trás de uma máquina de escrever para dar segmento a contos e variáveis projetos literários, uma lástima estética !

Assumo antitética a última construção, mas sugiro que a tome como otimista, senhora (?), afinal, lástimas estéticas possuem lá seu encanto misterioso, extremamente subliminares eu diria, que apenas traduzidos poderiam ser pelo proferidor maldito de tais, mas não fujamos do regente geral, pois ele me atingiu, raio que parte ao meio o jacarandá adulto (rio-me, pois me veio à mente certo trocadilho), com certa brutalidade e rudeza.

A referida mediocridade, embora me falhe à memória sua real composição e propósito, mostra-se no mais familiar ambiente, aquele que dou-me ao luxo de frequentar diariamente, e o qual enfatizo adornado, a não dizer saturado, de hipócritas de variadas classes e intensidades : a escola. Em iguais doses, o teor equitativo representa belo balanceamento de necessidades, pois, como dizia já o senhor medonho que dispõe a língua ao contemplador de sua fotografia, tudo é relativo, e a necessidade da senhora que aceitou como certa a escassez da utilidade do espelho plano era manter-se simples e enviar ao lixo consciente a possibilidade de refletir sobre a ciência que agora, mais do que nunca, dizia-se conhecedora. Uma medíocre conhecedora, naturalmente. E dói-me ver categórica essa iniciativa, que, discreta e sagaz, abrupta e sigilosa, corrói os moldes mais belos do que poderia ser a profusão incontrolável dos valores e dos méritos mais desejáveis, além de ser futuramente responsável pela herança digna da nobreza conceitual - uma dádiva, em resumo !

Ababelado estou, confesso, com o núcleo e razão da escrita, mas como também diria a categórica e equitativa sutileza de outra mestra, que de medíocre passou distante, há determinadas oportunidades que tornam-se únicas e, por este mesmo motivo, apresentam mais expressivo valor, ao passo que outras, de variadas formas nos vêm possíveis e talvez não possuam tão considerável mensuração, e isso se reflete - voltam-me as memórias do maldito e subestimado espelho plano - em tal prosa, que ensinou a ti, caso tenha absorvido a mensagem real que dispus-me a transmitir, o erro cometido e a inutilidade da introspecção, que esconde e prolonga o que não lhe desperta interesse, senão a curiosidade instintiva do gato ao muro (vide Adiado.).

Rendo-me ao chamado afetivo, e encerro esta narrativa satisfeito com os resultados de minhas práticas reflexivas, podendo avaliar minha capacidade de externar a você, saprófita das letras, um seguro adeus.