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quarta-feira, maio 21, 2025

Dezessete horas (ou Bilhete para a senhorita C)


"— Você deve ser a última pessoa no mundo que ainda diz essas coisas às mulheres. — Sorria, divertida, olhando-me como se fosse um bicho estranho. — Que breguices você diz, Ricardito!

— O pior não é dizer. O pior é que as sinto. São verdade. Você me transformou num personagem de telenovela. Eu nunca disse essas coisas a ninguém."

—  Travessuras da Menina Má (2006) por Mario Vargas Llosa (p. 127)


Era madrugada  dessas desperdiçadas e toscas  quando bateu-me à porta a bailarina. Embora atravessada por amores múltiplos, escolheu-me em um sopro de sorte e acaso, fazendo-me o garoto que encontra o bilhete premiado ou o mítico palito de picolé. Jamais saberei decerto se era merecedor de todo aquele desejo ou se era apenas zombaria de mais um perverso capítulo da minha biografia. No choque de dois drinques, sofá de bares e batom, prendi-me em sua teia de Faraday em um misto de eletricidade e magnetismo, ora capturado, ora apunhalado pelos ferais olhos verdes que me mediam e atravessavam tal qual um predador calculando o momento certo de atacar a presa, ingenuamente sem saber que todos os momentos eram certos, avenidas inteiras de lábios, ombros e perfumes. 

No cartaz do teatro, seu rosto contrastava com a imaginária e pacífica Nova Iorque ao fundo. As sombras — mímicas de corpos — delineavam a coreografia que me impediu de saber quem era ela nas silhuetas-mil detrás das cortinas. Dentro do meu peito, um leve terror vendo no escuro a sua vida de pura potência. Mares croatas, Barcelona, arranha-céus e, no dedo, uma solitária safira, signo de fidelidade e amor eterno. Na corda bamba da conversa, um voto de confiança. Os dedos entrelaçados e os olhos em perfeita sincronia como se mantidos por um fio invisível que não os deixavam desencontrar no desvio da cena, sem ponto de fuga ou garçom no horizonte. "Veja-me que te vejo também". Porém tua dança era dança de sombras. Ainda que eu quisesse saber mais e tudo de ti, nos palcos ou ao meu lado, eu teria apenas tênue fragmento, pistas de um mistério insolúvel, crônica ao invés de novela, ensaio ao invés de espetáculo, palavra ao invés de sinfonia.

No entardecer, uma chuva fina de primavera nos molhou de mansinho. Na soleira de casa, as roupas um pouco úmidas deixavam-na como um reflexo natural da chegada. A colônia soprada pelo movimento de pendurar o casaco me lançou uma dica do sabor da tua pele, que reclamava do frio e do ar ligeiro que soprava do teto. "Deixa que eu te ajudo." De novo os olhos de lince me olhavam de baixo para cima, lábios semiabertos, uma súplica para minhas inquietudes. O caminhar cuidadoso e felino disfarçava os pés delicados que dançavam sem querer dançar. As pontas dos pés marcavam o tempo de uma música mais sutil que meus ouvidos ansiosos poderiam ouvir. Embora seja esforço infrutífero, minha mente até agora tenta aprisionar uma ou outra lembrança das tuas palavras, mas esse enredo é daqueles vitorianos que não permitem reprise. Cada peça é um universo dentro de si, não haveria roteiro no mundo que fosse capaz de sustentar essa colisão de infindável energia. Tudo é somente uma memória monolítica sem direção. Vetor sem sentido, pulsão de vida e arte. 

Não nego que, para mim, escrever seja parte de um ato reminiscente. Um reflexo criativo de alegrias e tristezas, e, portanto, jamais ousaria tentar lhe explicar a natureza dessa história. Mas arrisco-me a dizer que nosso encontro foi como um microcosmo de amor num espaço de horas. A dança, o gozo, o riso, o banho e a ceia todos juntos no que os físicos chamariam de singularidade. Um mergulho profundo na dilatação relativística do tempo para ver nossas tantas possíveis vidas passarem diante dos nossos olhos como uma lição de deixar ir, deixar passar e se entregar a uma gratidão difícil de exercitar quando se há tanto e muito mais para viver. Ancorado ao teu horizonte de eventos, eu brigava com a possibilidade de entrar naquela unidade heterodoxa de tempo (e espaço) para encontrar-me em uma nova e talvez mais triste realidade - a minha própria sem você. Astro novo na vastidão do teu universo, eu tentava ensaiar a gravidade de outro par, gravitando para vencer satélites certamente mais antigos e certamente maiores do que eu, que iriam clamar-te de volta como um brinquedo infantil precisa voltar ao dono, uma boneca tão bela que me dói nas têmporas só de lembrar. História, apesar de tudo, pesa. Aventuras, nem tanto. São pedagógicas, sim, mas leves como penas ziguezagueando no ar. Passam longe das luas de Júpiter, são Perséiades esperançosas no céu de verão. Mágicas, como tu dissera, ainda recuperando o fôlego. Mas naturalmente fugazes. Cíclicas e de órbitas obtusas, quase excêntricas.

Foi difícil dormir naquela noite, e mais difícil ainda nas outras tantas que se seguiram. Embora eu seja econômico nos afetos, sei enxergar de onde brota no solo a nascente, o olho d'agua espiando a minha alma delicadamente vulnerável e desavisada. Em hora de despedida, em um bilhete escrito às pressas no encarte de um disco, a bailarina das sombras deixou um convite, um punhal espetado junto a um sorriso provocador, um giro pensativo dos dedos entre os cabelos me chamando para perto. Um desejo multissensorial de que uma vez mais — quem sabe no largo das incertezas — a grande maçã iria nos agraciar com uma mordida mais, um novo pecado, uma nova dança na sala de estar. Apesar das dezessete horas terem se esgotado como apressados grãos de areia na ampulheta, vivemos também dezessete vidas, dezessete motivos, cinco quintessenciais, doze um pouco mais impróprios do que eu poderia apontar no papel. 

Em tempo, fantasias são como faróis para um navegante. E navios são como promessas de vida para um náufrago como eu.

Até breve, 

A.

sexta-feira, março 07, 2025

Rio Doce

20/07/17 • 14:38

Usei a própria ponte que entrecortava teus vales como apoio para escrever esse bilhete. A letra miúda que agora transcrevo eu usei para economizar espaço no único papel que sobrou no bolso: um pequeno envelope miúdo, já envelhecido pelos oito anos que nos separam daquele dia. No verso, a fraca tinta azul denuncia meu medo de perfurar com a ponta da esferográfica minha chance de fotografar aquele momento com palavras, na falta de luz.

Lembro-me que foi como uma pintura suja nosso primeiro encontro. Como um pincel mergulhado em um indistinguível godê de aquarela, nem eu e nem você íamos muito bem. Tons escuros, águas túrbidas e desarmônicas. De ti, só conhecia os afluentes, vênulas e arteríolas, brejos e riachos, pequenos braços dispersos no globo, trechos que alimentam teu pulso, tua força majestosa que atravessa estados, nutre oceanos, talha caminhos. Nos meses que antecederam minha não solicitada visita, via-o pela TV, que, a bem da verdade, anestesiava o que acontecia na crueza da tua verdade. Era como se abafassem meus ouvidos com as mãos apertadas contras as têmporas, isolando-me no silêncio das vinte outras pessoas que me acompanhavam naquela jornada. Havia ali uma conversa telepática, um fragmento de luto pelo teu fluxo que, resistindo, ainda agoniza(va) calado a correnteza cor de lama. Em uma cicatriz diferente daquela que se fecha, pude ver o duro golpe que desferiu o progresso e seus intrincados e nefastos nós de morte. Portanto, meu caminhar naquela ponte era como um cortejo sobre o próprio caixão, uma dor que nem sei decerto descrever. Minha mágoa, por tradição, me pediu a caneta e eu só soube obedecer.

Enquanto eu procurava um cantinho discreto para esse registro, um casal de aves cruzou o céu, cantarolando alguma melodia para quem quer que as ouvisse, maritaquinhas alegres se amontoavam nas embaúbas e outras árvores mais corajosas que se prendiam à margem. Suas conversas familiares enchiam o ar com um paradoxo de beleza e dor. Parecia uma lição, um recado sutil para os ouvidos que - há muito convertidos - já não precisavam daquele sermão. Seu canto, seu apelo quiçá, eram como notas abafadas pelo vapor dos fornos, motores a combustão e explosões que separavam aquele santuário da realidade. Se eu pudesse, seria eu o teu maior eco para o mundo, para além da pequena bolha que se formava ali, o silêncio do grupo, as aves procurando respostas, os peixes buscando ar.

Saiba que não quero aqui achar muito prazer nas palavras. Não quero correr o risco do cinismo da dor. Apesar disso, eu sei que você vai encontrar tua cura, vai cicatrizar as feridas e de nós não guardará mágoa. Vai crescer nossos alimentos, cuidar da nossa gente e sorrir de novo um dia. Um tempo em que talvez eu não esteja aqui pra te ver renascido sob o cuidado de mamãe Oxum. Mas sei que virá. Por isso rogo para que teu leito se cubra de verde, que tua pressa de chegar no Atlântico seja tão grande quanto o cuidado com cada fragmento de vida que te habita, habitou e habitará. Cada minúscula célula que te chama de casa, cada grão que alimenta as nossas crianças, cada filhote e sua mãe matando a sede na ribeira.

Viva o Rio Doce e sua história milenar. Viva sua beleza imortal de uma pintura inabalável. Lamento cada gota maculada que um dia pousou no teu leito e espero ansioso um dia poder me banhar nas tuas águas.

 

-A

terça-feira, maio 01, 2012

Torres em desatino.



Deitei só por 56 anos. Qual fosse o meu esforço ou minha dedicação, nem puta, nem dama, nem bicha, nem homem aceitava meu dinheiro. Se ostentasse meus carinhos e meus luxos - que não eram poucos em vista da condição das pessoas da cidade - essas regalias eram moeda morta para os “negócios da vida” e não valia a pena declará-los assim, sem ter uma oferta maior que cobrisse as propriedades materiais de um abonado. Mesmo que apenas minha nítida invalidez de mil rugas e sobras de pele explicasse o insucesso na caça pelo sexo, confesso-lhe que nem quando jovem, à aurora de meus dias, quando era nada mais que um poço de vitalidade e hormônios, fui bem sucedido na odisséia que é acordar sob a luz dos cinematográficos raios de sol perfurando e queimando quatro pernas, quatro braços e duas caras saciadas de prazer e humores. Ah, o hedonismo hollywoodiano ! Quisera eu sentar-me numa daquelas cadeiras de diretor e fazer das mil e uma traquinagens da baixeza cênica uma só obra de arte ! Naquelas colossais telas tudo é tão natural, tão escorregadio e próximo de nós ! Mas aqui no "carne e osso" não, o universo tem de ser maquiado demais para ser apresentado ao público. E compreendo que hoje faz-se isso não para causar espanto ou traumas às nossas frágeis fantasias, mas pelo fato de a menor das concretudes ou o mais sutil aperitivo da realidade serem capazes de arrebatar otimismo e fé do mais resignado e leal apóstolo.


Mas nem tudo são flores. E se pudesse, caro Simão, interromperia aqui minha catarse, pois ao fim desse registro endereçado a ti, que fora por tantos anos o meu único apoio, não desejo que seja dito das minhas palavras nada mais que uma simples anedota sexual de um fracassado amoroso sem esposa, filhos, família ou apego. Saiba, que se submeti teus olhos à humilhação da minha face é porque confio minha degeneração aos teus julgamentos; e que também delego ao teu aclamado e inabalável caráter as sentenças que mereço e você bem sabe. E faço isso porque na multidão dos meus não há esclarecimento ou sensibilidade para entender-me. Aqui sou apenas entulho, e por vezes um entulho comparado a animais da mais repugnante estirpe. Sou porco para as crianças, hiena para os companheiros de trabalho, pombo e gambá aos transeuntes. E os gambás, apesar de tudo, são como eu: injustiçados pela mãe-natureza, que assina suas perversões com o título de obra de arte divina e acha que ninguém vai se incomodar com isso. 


Para ser-lhe sincero, meu amigo, o que busco expondo-me além do que reflete a carne  é uma resposta cabível para aquele que desfruta da solidão como ela realmente gosta de se manifestar; aquela secura profunda das vísceras, o coração alto latejante e o sangue borbulhando sem ter vazão. Aquela que traz à tona os detalhes esquecidos e faz de nós - hiperativos ou controlados - uma só morada para o antagonismo de sensações e alvo para o bombardeio ininterrupto das tv's a cabo. A qualquer momento me verei comprando pilhas e pilhas de aparelhos de musculação, pagando seiscentas prestações e torcendo para que o moço do cartão de crédito não me leve a uma dessas delegacias de devedores compulsivos e me tome até as calças...


É que muito cedo, ainda na inércia de minha identidade mental, acabrunhei-me sem muito notar. Amenizei minha existência como se a tivesse programado a transcorrer de modo econômico, sem exigir de mim energia, paciência ou perícia para guiá-la; pra que não precisasse tomar nas mãos as rédeas do livre arbítrio e ter de dominar feras e acalmar as aflorações que produzem o êxtase e o deslumbramento da vida. Aprendi com a preguiça dos meus dias a idolatrar a simplicidade e a ser feliz com ela; aprendi a lambuzar-me de sabores neutros e me salgar num tempero sem muito gosto; nem azedo, nem salgado, nem ácido, nem abrasivo.


No início era fabuloso. Diferente de meus colegas de classe - conflitantes, filosóficos e errantes - eu não sofria abalos. Era mudo, evitava perspectivas atraentes e pensava pouco além da minha próxima refeição. O objetivo era que minha estada nesse mundico e corpo fátuos não servisse de mártir como as de Petersen e Huxley o fizeram a meia dúzia de gerações. Diferente deles eu não testava meus limites ou a minha natureza; tampouco questionava meus encargos e nunca aguardava um tanto mais dessa chance de aqui estar. Sendo ainda mais prático, minha ambição era como viver descendo uma ladeira, já que “pra baixo todo santo devia ajudar” e comigo não havia de ser diferente; e não era mesmo.


Ironicamente, eu observava a todos um tanto apavorado. Me perturbava imaginar-me divagando como eles sobre meu papel no berço do mundo e todos os anais que a filosofia moderna reservava para a existência de um homem. O que quero dizer é que não me sobrava tempo para compreender a razão, apenas para aceitar e executar, como um funcionário de uma fábrica qualquer daqui do centro da cidade. Se você ousa parar para refletir demais sobre o que está fazendo, três, quatro parafusos se perdem e você prejudica toda a linha de produção - quando não é demitido e vai viver de migalhas nos subúrbios asquerosos de Madalena feito Sandro e Valter que se atracaram por causa de mulher e hoje estão vendendo desentupidor de fogão e cortadores de unha no centro pra pagar o almoço. E é exatamente isso o que não quero que aconteça: só a hipótese de prejudicar os demais com uma egoísta cabeça pensante, que mais parece possuir vida própria, já me faz passar mal e embrulha o estômago.


E quando digo que não entendo tais ilustres masoquistas é porque neles não vejo lógica alguma. Espremem-se e castigam-se feito laranjas para retirar a última gota do caldo que lhes resta. E propositalmente brincam com a dor, dançam sobre a navalha do desconhecido e da sanidade. Se pendem para um lado e caem, não retornam jamais: invalidam-se. E triste é o fim de um pensador; ser de coragem cuja função é degustar, amar e descrever os venenos mais sutis que nem química ou fantasia sabem formular. São viajantes que vagam na completa escuridão e levam na bagagem uma frágil esperança de achar um ligeiro feixe de luz. Encaram feras por esporte e põem suas vidas em risco por um ideal que nem mesmo sabem se existe para obter algum resultado.


A cada reflexão, um motivo a menos para ficar vivo lhes é apresentado. A cada novo postulado, uma aproximação do acaso da luz e do azar da boa saúde. Ah, se me pertencessem as horas de ócio desses intelectualóides ! Eu investiria melhor em festas e sonos pesados que os envergonharia por terem desperdiçado tanta vida em um labirinto sabidamente sem saída. Hoje, depois de tanto tempo, eu creio que tais criaturas se dispõem a entrar nele apenas pelo desafio que reside nessa cretinice, porque buscar saber de si e das tuas faculdades só culmina numa morte lenta e dolorosa: em sofrimento.


Mas em meio a essa jogatina de azar que é a vida dessas pessoas, vi, que sem qualquer exceção, todos têm amor absoluto. Não falo de amor com letra maiúscula e aquela interpretação rica de parábolas e boas intenções dos livros infantis e da bíblia sagrada (que eles me perdoem). Quero dizer que a mesma paixão que sustentava antes a problemática vida daqueles metidos da metafísica, palestrantes de auto-exploração estratégica, seminários de filosofia socrática, hermenêutica e poética se modificou em uma paixão fulminante pelo próprio ser. Que a mesma paixão com que buscavam suas mais escabrosas justificativas e enfrentavam seus monstros mais temíveis tornou-se uma necessidade de completude refletida em seu semelhante. O "outro" era, então, a manifestação, a resposta objetiva dos questionamentos de um. E a partilha desse outro era a forma mais tenaz de gerar sua resolução.


E aí se entregavam às putas, às damas, às bichas e aos homens, que de braços abertos recebiam com candura os desvairados para acertar-lhes as idéias e sorver deles um pouco dos desatinos e se embebedar das virtudes da confusão e da loucura que jamais haviam experimentado. Descubro, depois de velho, que esse era o maior dos luxos. Esse era o começo da minha compreensão da crueza das existências; que não bastava acumular e não se entregar à correnteza nobre do deslumbramento, mas precisava me municiar de desequilíbrios e perambular pelas mentes e pelos corpos.


Eu agora deixo de ser um Torres e passo a ser Ana, Valentina, Samuel e Jasmim.  Agora eu passo a ser muitos num mesmo percurso, buscando reencontrar-me com o prazer da vida e do amor próprio para receber o que hoje me completará nas mal vistas noites de Quito e das casas de Madame Desiré. Agora me declaro um cidadão do mundo, despossado de meu auto-controle. Nu.

terça-feira, novembro 22, 2011

Meu Lema.



Estava muito claro que aqueles resmungos indiretos eram todos para mim. Giselda balbuciava uns trocentos maldizeres e lançava aquele olhar torto na minha direção para ver como eu reagia à sua cerimônia de querer me inclinar às suas vontades. Usava de todas as estratégias juvenis – e enquanto ateava fogo no quarto, rolava também a calçada e se jogava nua do vigésimo andar: um verdadeiro festival de falsas ameaças. Eu, macaco velho que sou, por mais compaixão que mentisse com olhos protraídos de atenção e vida, não fazia valer as pirraças daquela quase-dama projetada para carnavais nos quais talvez nem vivo estarei. Não, não, comigo o buraco é mais embaixo, e esse tal partido de feminismo por conveniência não se acolhe bem na minha consciência; em verdade, nunca se acolheu, nem mesmo quando era uma criança subordinada e desacreditada dos motivos que a televisão a cores tinha pra nós.


Meu pai, que era bom exemplo dessa máxima, sustentou até seu último suspiro aquela mania boba de ordenar que minha mãe “fizesse isso” ou “arrumasse aquilo”; e era só pelo prazer descartável de tê-la nas rédeas, presa à sua corte, que seu ego gerava natimorta qualquer esperança de que algum dia gestos de amor fossem dominantes no nosso sobrado na desperdiçada Alameda das Acácias, número 3. Tudo isso para manter viva, como sempre fora com meus avós, bisavós e outros vós, a tradição do patriarca absoluto – palavra que para eles era sinônimo de monarca e que por vezes esbarrava nos ofícios de tal.


E foi nesse reinado de Luís não sei das quantas que passou tempo suficiente para que o respeito de toda a família recaísse sobre sua pouco expressiva existência e se diluísse no partir de Sebastião de Sant’anna, no dia 15 de fevereiro de 94: sem chuva, sem flores, sem música e sem qualquer significância de dia póstumo - nada. De fato, concordo que não existem bons dias para morrer, ou sequer um dia certo para abandonar tudo e entregar-se para o Divino, mas o pilar da integridade familiar que antes era teso e inabalável tombou e foi enterrado junto de papai no gélido granito da marmoraria do Lucinho, e de lá, até os dias de hoje, não saiu mais.


Minha irmã, engajada daqui e de lá com uns intelectuais desvairados, enviesou para as tônicas da arte e da preguiça e perdeu-se com ela mesma num apartamento do subúrbio de um subúrbio brasileiro; Clarisse, minha esposa, reatou um amor duvidoso com a capital e refez as malas para Lima; e Sandra, a governanta que me trocou as fraldas e serviu-me o jantar do casamento, se mandou para os confins da terra com meu cunhado Oswaldo, de casamento marcado com Ana Beatriz; um grande filho da puta.


Sei o que dirá, mas só sei porque por aqui não há quem não diga. É um familiazinha medíocre os Sant’anna, gentinha que não vale a merda que põe no prato, um bando de sem vergonhas aninhados na mesma casa... Vá, eu compreendo, ora ! Essa mesma franqueza de falar o que dá na bucha é que faz as boas maneiras das donzelas de Fundo Céu - é o normal nessas bandas de cá ! E Giselda estava lá, quimérica, tentando fazer da história dos meus antepassados um registro superficial e transponível. Até que eu explicasse a carga que repousava nos meus ombros e os olhos do meu pai lá no infinito projetando memórias de minha infância, decerto ela me deixaria para recorrer aos seus outros. E eu sabia, desde muito tempo, que não eram poucos.


Cá pra nós, uns até me acompanhavam como amigos no bilhar, críquete e golfe australiano, e de tanto relatarem suas más criações ao lado da tal ‘moça do Santiago’ – pai bebum e já finado da minha moçinha – relacionei logo a Giselda e matei a charada que discordava da minha inocência quase adolescente de pureza ia até os dezenove.

___ Vamos, Ricardo, vamos de uma vez ! Se aceitar meu pedido prometo não lhe pedir mais nada que ataque seu bolso ou sua dignidade. Não sei se você me entendeu bem: eu disse Caribe !


Entusiasmada com seu próprio ar de locutora, ela sabia que jogava bem. Essas promessas que unem “nunca” ou “sempre” a uma concessão qualquer são sem dúvidas as mais vantajosas; e essa, apesar dos pesares, mexeu com minhas estribeiras. E, não sei como, ela sabia das minhas finanças. Sabia tintim por tintim de cada trambique, seja com os vendedores de coca na fronteira ou com a validação dos cassinos; o baralho, os impostos e meus negócios caribenhos pendentes: absolutamente tudo. E, não satisfeita, chantageava com maldade para me arrancar toda espécie de regalia. Sapatos caros, máquinas fotográficas, jóias, brinquinhos de ouro e uns outros cacarecos moderninhos que eu não sabia bem pra quê. Também, não ousava jogar a culpa em ninguém que não em mim. Cada espirro, cada palavra, cada gesto, por menor formalismo que parecessem conter, foram minhas criações, tinha meu dedo ali de um jeito ou de outro. E Giselda, minha criatura esculpida num exemplo de mundo perverso, tinha a quem puxar. Ela era o retrato mais fiel, a ilustração mais exata do que havia de verdadeiro nos recheios humanos – era a verdade em ferida aberta simplesmente.


___ Eu já disse que isso não dará em nada, Giselda. Além do quê, nesse período não há quase turista algum ! Meu bem, os tempos mudaram ! Mudaram pra valer. – eu tentei ser cordial, fiz minhas caras de coitado, ofereci uma dose de whisky e tentei um cafuné que ela pouco apreciou empurrando meu punho com uma raiva dissimulada ou uma esquiva. Foi fatal.


___ Pois fique então com tuas putas, Ricardo! Leve-as com você para conhecer o mundo, gaste tudo com aquelas sanguessugas e depois pague-as para largarem-no como um coitado num hotel asqueroso com uma xícara de café e sem um tostão furado no bolso. Se é a elas que você demonstra gratidão, deixe como está.


Vi essa cena como encarei Lígia nos olhos em sua adolescência difícil. Foi, das minhas filhas, a mais hermética e sentimental, a que mais intensamente marcou-me na pele. Era vulgar, melindrosa e decidida demais para estar no tempo e na posição em que estava. E partiu só, como tinha de ser. Dela, não tive mais notícias; talvez tivesse trocado seu nome, pintado o cabelo ou feito um rosto novo. E eu senti naquele dia, que de todos os seres humanos eu era o mais impotente; que para permanecer sozinho eu só precisei amar o indivíduo ao qual dei parte da vida. Ou melhor: de quem cuidei, a quem protegi eu só recebi silêncio e indiferença.


E vi essa cena reproduzir-se tal qual na fatídica noite de setembro. Minha moçinha fazia o papel de Lígia, e eu, um tanto menos grisalho que agora, assistia a tudo meio apavorado na noite em que por fim decretaram minha solidão - sem minha assinatura, meu consentimento, meu aval.


Giselda, em cima do mesmo banquinho de madeira em que minha mãe nos punha todos de castigo, colhia do armário todos os vestidos que comprei, todos os colares, todos os livros, todas as cartas e presentinhos... Colocava-os um a um numa mala maior que ela própria, sem o menor sinal de pressa - arrumando com esmero suas coisinhas - como que fazendo-me remoer sua partida lentamente. Parecia apreciar o veneno penetrando aos poucos, célula a célula: ácido, corrosivo, torturante.


Eu fingia desconhecer, mas estava claro que era a sensação de estar só encharcando-me mais uma vez. Em verdade, eu dava à luz o remorso de uma geração inteira. Sentia pesar em mim o monstro infinito que é o cárcere de si próprio sobre a consciência. Assistia inerte a vida transitar nas memórias e no semblante decepcionado de meu pai, que por sua vez azedava por desgosto ao ver-me retirar do paletó dois bilhetes com o logotipo da empresa de táxi aéreo. Naquele instante, eu desperdiçava todos os esforços de seis mil homens por uma coisa simples: medo. E entregava definitivamente as rédeas àquele projeto de mulher. Mas mal sabia ela que lá nas "ilhas bonitas" eu não era tão querido assim como pensava.


___ Faça suas malas, meu amor. Partimos pela manhã.


quarta-feira, agosto 24, 2011

Cartas ao nosso anonimato.





18-07-86 - Hospital



Querida,


hoje eu resolvi deixar tudo assim, disperso, incoerente, caótico. Como de fato não vivo dia por dia com intensidade alguma, não importa se o dezesseis está antes do três ou se julho - no meu calendário - antecede maio. As coisas não precisam de uma cronologia adequada; deixa-se ir assim, sem pudor, e dane-se. É, tudo o que eu mais desejo é dizer isso para o mundo. A minha amargura é tamanha que mesmo as palavras simples me doem ao sair: obrigado, perdão e com licença se aposentaram há tempos do meu vocabulário. Me comunico em urros mal-humorados e ai de quem não entender.

Tudo está virado. Logo eu, tão falante, tão seguro! Por enquanto, só a vida em ficção, nosso amor platônico e aquele filme do Coppola que põem pra passar aqui têm me feito completo. Apostei em estrelas de mentira, em sóis distantes demais e perdi. Foi a beleza sedutora que me enganou, não você.


Saiba que não é questão de suicídio, desistência ou falta de vontade. Já não há mais motivos e eu não vejo utilidade nessas fugas permanentes. Ainda mais na idade em que estou, sinto-me em absoluto sono, cansaço e invalidez - não tenho energia para cartas de despedida e tiros no peito como o biruta do Vargas. Poderia ser um cadáver, que não saberia. Poderia ser um defunto e todos me abraçariam, trariam flores e me olhariam como homem digno. E falo isso porque a morte traz dignidade junto das desgraças: "Oh, puxa, André foi um homem e tanto!"; "Ah, que falta nos fará o Papa!" e por aí vai. A morte, por assim dizer, banaliza o coração pulsante e ri de qualquer um que ouse desafiá-la. Mas também traz boas coisas, apesar de meu limite há séculos já ter ido para o espaço e não ter como resgatá-lo dessa órbita inalcançável.


Agora percebo como é fugaz a nossa importância. Um tiro seco em peito aberto que me abriu os olhos para a concretude desconjuntada do mundo. Estar aqui ou deixar meu corpo desfalecer feito quebra-cabeça é uma ambigüidade abusada. Estando presente, já era pura ausência e - preto no branco - minha ausência não era notada. Grande coisa essa morbidez sádica. De toda maneira, tinha de estar lá, sempre postado como bom homem.



Eu realmente não sei o que devo fazer. Era, segundo minha lei, para tudo estar em seu devido lugar, pois, assim, a hesitação de deixar esse espaço e essas verdades não viria à tona. A certeza de criar e destruir é o que move os homens; e me move também. Ter a decência de me fazer como for - quadrado, retângulo ou linha - e, se insatisfeito estiver, botar-me em qualquer saco plástico e recomeçar até que alguém recicle: isso é viver com as chances e os azares. Contudo, essa prática é pouco corrente entre os meus e o fato é que lixo não retorna para a superfície; sedimenta e morre enviesado em seus próprios percalços até sumir; quando some. Mas não dá. Ser finito e irrecuperável é o humano. E eu, sem minha bússola, não sou nada mais que um itinerante. Minha dificuldade, para fins de comprovação, é ser comum e alimentar essa colônia mal sucedida de formiguinhas bem adestradas. Minha indigestão começa ao respirar o produto do trabalho alheio e ter a quem fazer considerações; ter de agradecer de olhos baixos e respeitosos as enfermeiras mal pagas e os cuidadores preguiçosos até que seus egos fartos inflem e me espremam contra as paredes elásticas até que essas se arrebentem.


Pois vá, minha querida Anônima. Trabalhe, ganhe, doe, lute. Seu pó, para sua infelicidade, não terá essas etiquetas, mas asseguro-lhe que – se sair daqui com o sorriso estampado e o termo de alta - isso não a impedirá de ser pó. Um pó de gente, que não fala nem se apresenta. Só descansa. Descansa suas conquistas e revive seus fracassos. Deixa-os borbulhando na memória dos teus e depois de digerido se torna vaguidão. Pois assim, fracasso por fracasso, tudo se molda como deve ser - infértil e fétido até que definha e os vermes da idéia vêm se alimentar. Roem cada camada e adentram pouco a pouco o arcabouço da intimidade. Te ferem e maculam até que não importe a vaidade para você tapar com as mãos o que te enrubesce as bochechas gordas. E assim é a dinâmica polvorosa que passa desapercebida nos nossos dias.


Disse-me um senhor daqui do hospital que o homem não foi feito para derrota. Tsc, quanta petulância. Talvez esse homem que pôs tanto significado numa frase de efeito não tenha enfrentado essas cadeiras dos infernos e a dor dessas agulhas filhas da puta que me picam de segundo em segundo. É assim o dia inteiro, meu bem, remédio atrás de remédio, e analgésicos que não acabam mais.


E é assim também que o dia termina: não há mais nada a se fazer. Eu não me suporto como antes, minha pele está horrível e minha voz já não disfarça as dores contidas. Os olhos marejados começam a gotejar no assoalho e, na minha pouca roupa, já vejo meus ossos cutucando a costura velha a ponto de rasgarem-lhe aos pedaços. E enquanto isso, tenho de ficar de olhos fechados, porque o trem passa rápido e ruidoso acima de nós. Imagino daqui de longe uns meninos olhando maravihados pela janela, uns adultos dormindo um sono perturbado. Sacoleiros, escritores e desempregados disputando um espaço na estação. Roqueiros de bermuda, com camisetas suadas, concorrem a prioridade com grávidas que estão a um passo de explodir em quem estiver por perto. Jornais populistas resumem o fim de semana na segunda-feira de futebol e menininhas vaidosas retocam o batom vermelho em lábios ressecados. Suas unhas, mal feitas; o chão, podre e imundo; e o ar, cianótico feito só, me sufocando e instilando veneno. Todos juntos para me compor estatelado nesse leito fedido. Os hospitais, sem dúvidas, são moradas provisórias daqueles cujo destino é o inferno; como que um aperitivo de toda a podridão e os excessos sulfurosos que lá se encontram. Os bons homens, esses de vida exemplar e conduta impecável, certamente morreram sós em camas aquecidas ou nos braços e afagos das esposas - foram felizes para o ‘céu’.


Acontece que aqui é ordem atrás de ordem: "Feche a porta, não tente entrar." Acelere de novo a maca: lá vamos nós. A claridade e as ferragens entrecortando o silêncio fazem a trilha sonora. Isso aqui nunca foi santuário de coisa alguma. E de novo: "Feche a porta; não tente sair, senhor. Na próxima estação tem cabos e fios de alta tensão. Será um instante breve: um choque. Se acabou sua viagem: fique atrás da linha amarela ou dentro do saco preto. Lá atrás."


Dê seu adeus e, se não tiver, dê a partida e lá vamos nós outra vez.

Já me cansei de mandar cartas à prefeitura para desviar a linha férrea que passa aqui atrás da minha ala de internação. Se não chegam até o gabinete do todo-poderoso, terei de ficar reclamando contigo por meio de quinze parágrafos e tal.


Tenho que dormir agora por causa do jejum restrito dos exames de amanhã. Tomara que sirvam aquelas bisnagas na hora do lanche porque suspeito que a sopa esteja estragada desde o final de semana. Se cuida e até sexta-feira.


Com amor, de seu eterno André.





A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog http://porleonardo.blogspot.com/.

sexta-feira, março 19, 2010

Da cobiça declarada.


Posso observar agora, - e não que tenha me inclinado ao esquecimento ou leiguice em tempos pretéritos - que a tal cobiça, dita também pecado capital sob aspectos religiosos, era, para o cão que lhe escreve tamanhas heresias, um estigma notável e triste, o qual se mostra agora capaz de levá-lo à ruína em menor tempo do que aquele gasto por uma partícula alfa ao iniciar sua parábola lenta e caricata de encontro ao chão. Mas quero lhe apresentar durante estes períodos longos e confusos, leitor de amargos olhos, uma espécie de cobiça que afugentou em definitivo o ser que pôde captar em meu semblante rugoso o esclarecido desapontamento por certa citação inconveniente, a qual aqui também o será. Avalie:

Em ocasiões semelhantes àquelas que leitores mais fiéis idenficariam (textos anteriores), esforçava-se a moça para manter-se em pose vantajosa, isto é, preservar nos olhos do menino encantado a herança mais característica da Escola Romântica. Para tanto, quase imediatamente ao encontro, pusera-se ela em uma torre intimidadora e inalcançável, para fazer-lhe (digo, fazer-me) contemplá-la em níveis inferiores e desgostosos junto do tom imaculado da pele que se fez em um açoite faminto e esguio.

E foi no desenrolar do diálogo desesperado e diário a que submetia a dama - esta sempre se ausentava poucos minutos após minha interjeição gentil - que anunciou-me, suponho que com grande ingenuidade, a interferência de um personagem terceiro ainda sem figuração: um cortejador (e peço-lhe que verifique o significado de tal verbete em seu suporte linguístico vitalício, pois o mesmo reaparecerá em meus registros banais).

E em consideração ao que nomeei meu ponto-chave, lanço o desafio: Se através de olhar analítico e imediato uma dama for capaz de ver-se sob cobiça declarada de um cavalheiro, dou-lhe minha fé embrulhada em adornos de servidão, pois meu rosto se desfez em calor, em fúria e em unidades de mudanças fisiológicas, e a moça, serena e cautelosa, virou-se à porta e despediu-se com um sorriso como qualquer outro. O fim.

terça-feira, março 16, 2010

A fantasia 'bela' dos desavisados.


Nestas súbitas divagações que nos tomam parte e meia do tempo, encontrei-me vez ou outra em esquinas acinzentadas, cabisbaixo e torpe, a avaliar os vértices da verdade doída que sobrepuja fantasias anteriores - vide De meu pecado faço crime. Elucidado a esse respeito, assinalava em alguns instantes periódicos as forças motrizes que me conduziam ao sono terno da ilusão sem causa, e, projétil ansioso por sair do artefato assassino, me atraíam a deitar no véu onírico e cobriam-me a cabeça após cerrar os pés aflitos, famintos por caminhar !

Quando chegou ao conhecimento dos presentes tamanha indiscrição, os mesmos puseram-se a sintetizar idéias e a buscar, em suas veias socráticas e platônicas, uma maneira pouco elaborada de me presentear com a verdade absoluta e conferir aos meus ouvidos um negativismo saudável, o qual me faria retornar à integridade cognitiva e enviar para um ambiente de inércia aquela distração deletéria. Naturalmente não o fiz, e por este triste, e talvez feliz, motivo, recorro aos olhos públicos para definir o julgamento da noite passada, para espantar de minha mente confusa os fantasmas dos laços amorosos juvenis, para tentar ouvir um eco de sentimento do grito que silencio por nada ter a clamar.

A dama agora se distrai com outros textos, com outros sons que não minha voz apressada e ressonante, e a fantasia bela dos desavisados soa com uma frase estridente e fria, carregada de naturalidade e doçura, anunciando, aos berros, as agradáveis circunstâncias de um amor - talvez pelo tempo que perdi naquelas esquinas cinzentas a esperar meu vigor psíquico exaltar-se - correspondido.

Ausente em forças, leitor que ri e contorce, choquei a cabeça contra o banco desconfortável e pus-me a realizar sobre cadeias carbônicas e geometrias moleculares, mas estas divertiam-se com minha derrota e agrupavam-se em forma de palavras e nomes perturbadores. A fuga mais prática era alimentar o deboche da Ciência, e nesta prática insana concebi minha moléstia e o escárnio do mundo: um horror em desatino. Adeus, saprófita de entranhas, adeus.

domingo, outubro 25, 2009

Mediocridade Equitativa e Categórica.


Interessante - mas não próximo ao grau dos números - é contemplar estas reviravoltas casuais e irônicas que empreende o módulo social; atônito e apressado, mantive-me estático a perceber-me frente à superfície refletora dos medos e, não menos essencial, da face.

O espelho plano, segundo a professora de olhos fugazes e corpo dotado de flatulências, reflete virtualmente o que se encontra no plano real, mas eu, tolo aluno da extremidade direita da classe, era incapaz de assim ver, e tentei erguer o dedo lentamente para discordar do conceito estabelecido àquela senhora nos tempos acadêmicos - "Professora, tentou realizar na prática o que pediu a seu mestre que lhe explicasse ?", predizia eu em pensamentos. Presumo que não, e, ignorância vaidosa dos tempos atuais, a moça aderiu à triste filosofia, e o diabo que me lê também o faria se restrito fosse o acesso a este incondicional artigo, o qual surgiu a partir de um desprezível aborrecimento somado ao dever diário de pensar nos seres que ainda sobrevivem através das prosas medíocres redigidas por um estúpido humano (sim, um humano!) - contudo saiba tu, detetive de entranhas, que não há um único indivíduo que tenha sua linha da vida ligada às minhas orações mal colocadas, mas treino, maldito dia que chegará como cavalo em galope apressado, para o idealizado momento em que sentar-me-ei trás de uma máquina de escrever para dar segmento a contos e variáveis projetos literários, uma lástima estética !

Assumo antitética a última construção, mas sugiro que a tome como otimista, senhora (?), afinal, lástimas estéticas possuem lá seu encanto misterioso, extremamente subliminares eu diria, que apenas traduzidos poderiam ser pelo proferidor maldito de tais, mas não fujamos do regente geral, pois ele me atingiu, raio que parte ao meio o jacarandá adulto (rio-me, pois me veio à mente certo trocadilho), com certa brutalidade e rudeza.

A referida mediocridade, embora me falhe à memória sua real composição e propósito, mostra-se no mais familiar ambiente, aquele que dou-me ao luxo de frequentar diariamente, e o qual enfatizo adornado, a não dizer saturado, de hipócritas de variadas classes e intensidades : a escola. Em iguais doses, o teor equitativo representa belo balanceamento de necessidades, pois, como dizia já o senhor medonho que dispõe a língua ao contemplador de sua fotografia, tudo é relativo, e a necessidade da senhora que aceitou como certa a escassez da utilidade do espelho plano era manter-se simples e enviar ao lixo consciente a possibilidade de refletir sobre a ciência que agora, mais do que nunca, dizia-se conhecedora. Uma medíocre conhecedora, naturalmente. E dói-me ver categórica essa iniciativa, que, discreta e sagaz, abrupta e sigilosa, corrói os moldes mais belos do que poderia ser a profusão incontrolável dos valores e dos méritos mais desejáveis, além de ser futuramente responsável pela herança digna da nobreza conceitual - uma dádiva, em resumo !

Ababelado estou, confesso, com o núcleo e razão da escrita, mas como também diria a categórica e equitativa sutileza de outra mestra, que de medíocre passou distante, há determinadas oportunidades que tornam-se únicas e, por este mesmo motivo, apresentam mais expressivo valor, ao passo que outras, de variadas formas nos vêm possíveis e talvez não possuam tão considerável mensuração, e isso se reflete - voltam-me as memórias do maldito e subestimado espelho plano - em tal prosa, que ensinou a ti, caso tenha absorvido a mensagem real que dispus-me a transmitir, o erro cometido e a inutilidade da introspecção, que esconde e prolonga o que não lhe desperta interesse, senão a curiosidade instintiva do gato ao muro (vide Adiado.).

Rendo-me ao chamado afetivo, e encerro esta narrativa satisfeito com os resultados de minhas práticas reflexivas, podendo avaliar minha capacidade de externar a você, saprófita das letras, um seguro adeus.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Diálogo.


Nos últimos que levei, tais como seis ou sete minutos, desenvolvi uma habilidade inusitada de conduzir as conversas ao meu rigor, contornando assuntos evitáveis, inúteis, e até mesmo aqueles que remetem à intimidade - que se encaixam nos evitáveis e inúteis, perdoem-me.
Ambas as garotas, postadas em formação de 'L', a contar comigo, descreviam relacionamentos bizarros e inconformidades conjugais, e eu, tolo como sempre, interessado em assinalar erros e a não praticá-los à dama que me escolher futuramente: um adolescente estúpido. O tempo passado me doía a mente, e meu livro, cujo autor limenho me hipnotizava, estava apreendido na sala de aula, clamando com suas milhares de palavras meu nome - "Arthur, Arthur, onde está você?" - e as garotas a narrar seus malfeitos às escondidas, bem como faço em distorcer trecho e meio desta crônica.

Aliás, pauso a narrativa para contar uma sandice que ocorreu-me hoje: a crônica. Jamais me interessei por descrições pouco elaboradas e tentativas de familiarizar o leitor com o fato em si, contudo, não sei por qual motivo, hoje me entreguei a analisar o diálogo da tarde quente e confusa, mas voltemos.

Após o chamado incessante do livro - se quiseres lê-lo, fica o nome: "Tia Julia e o escrevinhador" - retornei à realidade dos que me falavam. Apesar dos olhos trêmulos, que sempre foram, mas nada desatentos, alternava alguns comentários válidos, os quais se encarregavam de convencer as moças da existência de meu interesse integral pelos namorados e cerimônias. Como já citei minha transição volúvel de assunto, dei um salto olímpico por cima dos cônjuges e planos, para aterrisar em um solo infértil das profissões, estas mostrando-se além do terceiro plano de vida e se perdendo nos cantos incolores das prioridades, a se juntar ao amor-próprio (olha quem dizes), pff.
Confesso que julgo sem propriedade, e diriam as más línguas que ando pior que tais senhoritas, mas ignoro os monólogos enfadonhos e sigo adiante para o título.
É certo que meus comentários tenham atraído bons frutos. Uma delas tomou-me pelo braço, inexpressiva, e pôs-se a lamentar uma vida que quisera eu um dia ter - não mais. Enfim, do restante o leitor deduz por si: um cheiro no pescoço e a nostalgia do passado, meia dúzia de elogios e.. não, nada de ósculo por hoje, apenas retornei ao meu carente livro e pus-me a desbravar a terra virgem da literatura (eu era o primeiro a alugar o livro na biblioteca, saudem-me!).

quarta-feira, agosto 05, 2009

Quando se esvai o provisório.

Certa vez, em uma reflexão despreocupada e deprimida, realizei uma determinação insignificante sobre os inúmeros simbolismos que perseguiam-me a cada mudança: espaço-tempo, naturalmente.
Atraiu-me a estrada estética da melancolia, adornada por belíssimos e característicos prantos vocalizados, máscaras infelizes, centelhas de compaixão e compreensão; era apropriada, ainda, por um viajante imóvel, limitado a observar a dimensão desprezível do trecho tortuoso em que se encontrava, e a cortejar o medo e a loucura em um único ato. Assim estava Nostalgia, com pouca bagagem e ânimo, apenas com a simples tarefa de entregar-se ao dono do local dominante, o Conde Melancólico, autor de imposições, controvérsias e ilusões, capaz de desintegrar relações e manipular seres de emoções.
Ali se destacava uma constante reação. Esta um pouco irônica e demasiadamente evitável, pois não significava um simples fado ao esquecimento, mas a perda completa do que me transportava ao prazer psicológico do retorno à origem, à essência, ao primitivo. Não pude conter as frias lágrimas que se apresentavam aos olhos, e tampouco me dar ao luxo de encontrar a alegria em algum exemplar humano dotado de tal; então, para que não dissimulasse o horror que se mostrava naquele som um dia tão belo, tão diário, tão gentil, deixei uma passageira compôr minha locomotiva de azar e amargura: a Srta. Ira. Evidentemente, não estava equivocado com a aparente simpatia da visitante, e logo senti-me confortavelmente feliz ao seu lado, servindo-a com minha hospitalidade e segredos imensuráveis.
Nem tão logo anoitecia, e percebi o fim da bela metáfora eufemizada. Ira foi capaz de trair-me em seu cíclico procedimento de perversão, e nada mais construí, desde então, até encontrar uma antiga leitora de tolices, que, por desamor, veio contar-me a boa nova: 'gosto de breguices em acúmulo'.
Há quem mencione a conveniência destas sucessões, e há quem se prenda ao enredo que propus ao título inconsistente. Cabe à crítica do leitor apontar o que lhe é mais lucrativo e agradável.

domingo, julho 26, 2009

Atônito - um primeiro parâmetro.

Se me incomoda tal fato, ainda que horrendo e possesso de repugnância, minh'alma se acalma em curtos segundos de auto-flagelação e mimetismo estúpido. Parece-me uma dança de moderadas receitas incoerentes, onde o produto final é, felizmente, um bem-estar de segurança invejável. Interessante é não sentir fundamento para a exposição de memórias tão vagas como as que lêem agora; tão desinteressantes que nos obrigam a desistir de uma leitura pesada e sem rumo, apenas por se tratar de uma prosa segmentada de subjetivas citações e aborrecimentos.


Gostaria de constituir um bom início para esta ferramenta, contudo, tristemente assumindo, creio que haverá uma uniformização a partir desta infeliz postagem: criando-se um desafio ao primeiro leitor que se aventurar nesta tolice, inclusive. Permito, portanto, como adiantamento, um conto de substancial beleza, cuja essência se equipara aos belos reclusos do século XVIII, ou de uma era de lúgubres tentativas de conquistas intelectuais. - um conto de impedir lágrimas e impulsionar decepções, se não é esta a minha tendência com relação aos poucos leitores que me vêem.