"Lembra-te que há um querer dolorosoE de fastio a que chamam de amor.E outro de tulipas e de espelhosLicencioso, indigno, a que chamam desejo.Há o caminhar um descaminho, um arrastar-seEm direção aos ventos, aos açoitesE um único e extraordinário turbilhão.Por que me queres sempre nos espelhosNaquele descaminhar, no pó dos impossíveisSe só me quero viva nas tuas veias?"
Não sei dizer se
ainda posso escrever sobre amor. Não sei responder se é com a vinda da idade, a
passagem inexorável do tempo, que a arte e o entendimento desse sentimento vão
se curando assim, tal qual carne de charque, vinho de adega ou bourbon. Não sei
se a tentativa de explicar o amor, dominá-lo, descrevê-lo numa equação
cartesiana capturaria sua essência e me ajudaria a viver mais e melhor com o
mundo. Aliás, não falo só de amor, falo de qualquer emoção, da mais virtuosa à
mais abjeta; as vergonhas e os prazeres, os pudores e os fervores, tudo.
Mas uma coisa é
escrever, outra coisa é me impedir de sentir. E eu amo. Amo assim cada vez
mais. Amo sem que eu me preencha de medo, amo esperando mais, cada batida
acelerada do coração, os olhos fixos, o combustível mais ancestral que já se
documentou. Amo porque sou, e seja por ser ou por amar, faço-me aqui contigo,
vivo, incinerante chama de esperança que acende as alegrias e te toma pelas
mãos assim de pronto, sem tempo para entender ou refletir. E peço que venha, se
aconchegue sem hesitar. Amo com a pura intenção de amar. E que seja agora, o
meu melhor amor, o mais puro desejo, sem que nada pareça incorreto ou egoísta.
Eu amo através, além, amo ao redor. Amo o presente, mas amo tanto quanto o
passado e quero que tragas o teu contigo, que chegue de malas prontas, cheias,
que despeje tudo na cama, sem ordem, que monte o teu próprio mosaico na minha
tela. Com tuas roupas, tuas jóias, tuas dores e teu desejo. Quero o teu amor na
chave mais complexa que tenha em ti, e que em cada tempestade a gente se faça
porto seguro e eu te mostre que nada, absolutamente nada, é mais forte que esse
sentimento. Quero o teu amor múltiplo, diverso, amalgamado em tudo o que te
cerca; do solo que te nutriu, até cada semente que plantaste, cada colheita que
fizeste.
E mesmo que seja o
mais fugaz, quero teu amor de partilha, amor que transborda pela tampa, derrama
a perder de vista. Começo, meio e fim. Amor que perpassa os passados, as
histórias de outro tempo, até laçar na distraída curva um par de pessoas, as
histórias que ouvi dizer. Falar de amor puro é entender a natureza desprendida
das fronteiras de um sentimento, saber deixá-lo crescer para além de uma soma e
alcançar operações que superam a dureza da mente, os venenos da posse e a
cegueira da alma. Saber que da partilha brota o tempero da vida, onde sempre
haverá um antes e, se fores sábio, terá em ti o depois e talvez todos os outros
mais que venham desse encontro. Meu amor nasce no que te cerca, como gravidade
que te puxa ao centro, orbitando a tua beleza e a de tudo que te compõe assim
no palco do mundo.
E se acaso um dia quiser entender, se algum dia esse mistério te tirar o sono, saiba que quero-te como és, não como te projetam. Quero-te feliz, aninhada na tua essência, onde eu seja não molde, mas testemunha da tua forma. Que eu seja não teu tutor, mas ouvinte. Que eu possa então entender que amar não é escolha de um indivíduo, mas uma chance que o universo nos dá para ser mais e melhor. De modo que sigo, ainda que inadvertido dos perigos do mundo, valente e alegre. Cortando caminho por entre as afiadas lâminas de ser um grito isolado num universo cada vez maior e mais silencioso. Que meu eco então reverbere na tua alma como essa única e solitária carta de amor.
-A

