quinta-feira, outubro 01, 2026

Versos apologéticos em defesa de todos os santos


 

"E, quando a tempestade passar, na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver. Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou. Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou. Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia."

Kafka à beira-mar (2002) por Haruki Murakami,p. 4, Prólogo - Um menino chamado Corvo.



        Tudo é linguagem. Sexo, beijo, café, cafuné e oração. Cada carinho, cuidado, abraço e canção. Rogamos a Deus na mesma medida a carne, o pecado e cada possível, ínfima ideia de salvação. Que criaturas estranhas somos nós, que, ao avesso dos bichos, trocamos a nota só e miúda, pio mansinho de canário da terra, por uma centena de milhares de formas de dizer o exato mesmo verbo, o exato mesmo desejo. E quase que por capricho mesquinho fazemo-nos Babel ambulante, bilhões e bilhões de intérpretes atrapalhados, incapazes de encontrar caminho do meio, ouvir, entender, abrir a campina, a roda de história, a poesia, a piada ou a diplomacia. E ocultamos tudo. Fazemos sombra, disfarçamos o indisfarçável de nós mesmos, desdizemos tudo o que nos denuncia, mesmo sem sermos culpados de nada, na completa ausência de risco ou remorso. No final, é só teimosia. Somos poço de medo, sempre secos de doçura, sempre molhados de dor. Falamos pelo negativo, pelo não dizer, e deixamos escapar como que um objeto que salta das mãos, palavras dos lábios, e tentamos pegar no ar, desajeitados, constrangidos, toscamente encenando um segredo que vai desde o encontro na cozinha até o divã. Mas até os azulejos da moça que mora ao lado sabem. Todo mundo sabe, todo mundo.

        Somos desassossegados atores de nós mesmos, somos diretores, roteiristas e agentes. Queremos absolutamente tudo. A audiência, a fama, a sorte, a virtude. Queremos tudo que não seja a morte e a nudez dos pensamentos. Alcovitamos cada pedacinho que sobra de nós, cortamos atalhos, prometemos a esse e aquele, pulamos as ondas, amarramos apertado nos dedos as figas, empilhamos aos santos mais que ocupados as dívidas. Prometemos até o tutano dos ossos para ter de volta os objetos perdidos e até o enlace. E eles se rolam de rir da nossa peleja, zombam do nosso horror, das miudezas que nos arrancam o sono, da nossa tosca e frágil humanidade. É tanta energia na busca da eterna alegria, de pirraçar a correnteza, de mover para trás o moinho da nossa própria história, que nos sobra pouco, bem pouquinho, para algo além de suspirar a ausência da solidão. Tudo isso para que, no final, a gente insista que a linguagem única é somente o amor. Mas eis que somos como os ianques iletrados que zombamos, ignorantes da imensidão do léxico que há além das toscas fronteiras que separam o raso do genuíno, do que o estrangeiro os ensina quase que sem querer, sem cobrar tostão. Porém não aprendemos muito mais do que o beabá, investigamos muito pouco o viver. E dizemos, juntos, mais uma vez: “Ah, esse ano eu peço, de São Jorge ao santo mais desocupado que habita o firmamento, pulo oitenta ondas, faço figa e até jejum, para que, ouvidos atentos, eu encontre na multidão alguém que entenda o meu francês.” 

        Excusez-moi, mademoiselle. ¿Quién fue quien te hizo sufrir tanto? Was macht dich glücklich? Настанет день, когда твоё сердце познает, что такое любовь.

E sigo.


-A

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