quarta-feira, fevereiro 11, 2026

Valentia

"Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Há o caminhar um descaminho, um arrastar-se 
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único e extraordinário turbilhão.
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?"


—  Do Desejo: VII (1992) por Hilda Hilst (p. 22)


Não sei dizer se ainda posso escrever sobre amor. Não sei responder se é com a vinda da idade, a passagem inexorável do tempo, que a arte e o entendimento desse sentimento vão se curando assim, tal qual carne de charque, vinho de adega ou bourbon. Não sei se a tentativa de explicar o amor, dominá-lo, descrevê-lo numa equação cartesiana capturaria sua essência e me ajudaria a viver mais e melhor com o mundo. Aliás, não falo só de amor, falo de qualquer emoção, da mais virtuosa à mais abjeta; as vergonhas e os prazeres, os pudores e os fervores, tudo. 

Mas uma coisa é escrever, outra coisa é me impedir de sentir. E eu amo. Amo assim cada vez mais. Amo sem que eu me preencha de medo, amo esperando mais, cada batida acelerada do coração, os olhos fixos, o combustível mais ancestral que já se documentou. Amo porque sou, e seja por ser ou por amar, faço-me aqui contigo, vivo, incinerante chama de esperança que acende as alegrias e te toma pelas mãos assim de pronto, sem tempo para entender ou refletir. E peço que venha, se aconchegue sem hesitar. Amo com a pura intenção de amar. E que seja agora, o meu melhor amor, o mais puro desejo, sem que nada pareça incorreto ou egoísta. Eu amo através, além, amo ao redor. Amo o presente, mas amo tanto quanto o passado e quero que tragas o teu contigo, que chegue de malas prontas, cheias, que despeje tudo na cama, sem ordem, que monte o teu próprio mosaico na minha tela. Com tuas roupas, tuas jóias, tuas dores e teu desejo. Quero o teu amor na chave mais complexa que tenha em ti, e que em cada tempestade a gente se faça porto seguro e eu te mostre que nada, absolutamente nada, é mais forte que esse sentimento. Quero o teu amor múltiplo, diverso, amalgamado em tudo o que te cerca; do solo que te nutriu, até cada semente que plantaste, cada colheita que fizeste.

E mesmo que seja o mais fugaz, quero teu amor de partilha, amor que transborda pela tampa, derrama a perder de vista. Começo, meio e fim. Amor que perpassa os passados, as histórias de outro tempo, até laçar na distraída curva um par de pessoas, as histórias que ouvi dizer. Falar de amor puro é entender a natureza desprendida das fronteiras de um sentimento, saber deixá-lo crescer para além de uma soma e alcançar operações que superam a dureza da mente, os venenos da posse e a cegueira da alma. Saber que da partilha brota o tempero da vida, onde sempre haverá um antes e, se fores sábio, terá em ti o depois e talvez todos os outros mais que venham desse encontro. Meu amor nasce no que te cerca, como gravidade que te puxa ao centro, orbitando a tua beleza e a de tudo que te compõe assim no palco do mundo.

E se acaso um dia quiser entender, se algum dia esse mistério te tirar o sono, saiba que quero-te como és, não como te projetam. Quero-te feliz, aninhada na tua essência, onde eu seja não molde, mas testemunha da tua forma. Que eu seja não teu tutor, mas ouvinte. Que eu possa então entender que amar não é escolha de um indivíduo, mas uma chance que o universo nos dá para ser mais e melhor. De modo que sigo, ainda que inadvertido dos perigos do mundo, valente e alegre. Cortando caminho por entre as afiadas lâminas de ser um grito isolado num universo cada vez maior e mais silencioso. Que meu eco então reverbere na tua alma como essa única e solitária carta de amor.


-A

 

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