sábado, fevereiro 25, 2012

Bilhete para Amália

Não nutro por ti qualquer desejo. Quando a vi com meus olhos pouco simpáticos, não palpitou o coração, não dilataram as pupilas e nem minhas mãos tremeram de pavor ou de excitação. Nada fiz.
Honestamente, sequer te olhei com olhos de malícia ou sorri esperando despertar-te paixões ou fantasias naquela atmosfera perigosa que é a família e seu ambiente intrincado e tenso que faz-nos suar como se a qualquer momento fôssemos pisar num espinho ou numa ferida aberta de outrem.
Nunca mirei tua pele e tampouco desejei, consciente ou em sonho, tocar tuas arestas ou teus cabelos procurando ceder ao impulso magno do descontrole. Portanto, não esconda-os nem tampe-os com milhões de fitas e mãos como se de mim brotasse um espírito torto. Hoje, sabe-se lá por qual motivo, gostei de saber que é alva como pluma a sua tez e tens os cabelos serenos como nuvens, apesar de nunca tê-los tomado às mechas e as revolvido nos meus lábios frígidos.
Saiba que jamais admirei tuas virtudes e jamais o farei. Em respeito a tudo o que se arquiteta com alguma razão no universo, proíbo-me de inclinar-me à curiosidade de teu colo ou ensaiar imaginar como seriam tuas carícias e teus olhos em repouso. Pois, lá dentro de cada um, reside a certeza de que você jamais será amada na proporção certa. E que para descrédito da humanidade não há um de nós que sacie o desejo que emudece tosco na tua carne. Para ti, eu transcorro como os carros de um sábado à tarde – lento, vazio, desimportante.
Então proíbo-me de dormir meu sono e preocupar-me com o teu. Proíbo-me de viver meus dias tentando encontrar-me com os teus. Proíbo-me de caminhar meus passos intencionando caminhar com os teus. Proíbo-me de viver minha vida desejando secretamente que ela fosse também a tua.


A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog - http://porleonardo.blogspot.com/.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Ira.




Hoje o homem precisava ter asas. Não digo isso para que ele as bata vigorosamente e exiba-as à liberdade que têm os anjos no céu e nas telas barrocas, mas para urrar como aves onde o som pouco se escuta e a raiva permanece acalmada pelo que há de imaterial e etéreo no hiato do mundo real: que é senão o vácuo da atmosfera ou o parágrafo secreto dos rabiscos de Caminha.

Eu, mais que nunca, orava a um ser qualquer, minimamente superior, que me desse a atenção dada aos políticos em seus protestos ou a uma personalidade com cem dólares na carteira e um rosto bonito, ou mesmo a que deram a Davi, quando este ergueu-se alto nos braços de desconhecidos e foi coroado rei sem muito porquê. Desejei, pela primeira vez em anos, que ao meu redor não houvesse o limite da minha natureza humana: essa criatura tão vangloriada em meus próprios discursos pela universidade, que a tantos infligiu bocejos e caras feias de desgosto e discordância. Naquele instante, sozinho e subjugado ao esquecimento de causa pobre e plural, venderia-me a um estranho se me surgissem - tal qual a Hermes - pés alados que me tirassem do caos quando me conviesse. Asas que ao menos me colocassem entre a beleza da arte do homem e o tédio mudo dos deuses: que fosse no Éden ou no limbo, que fosse na clareira de qualquer coisa, ou no próprio nada.

Na bolsa, nem mesmo uma caneta trazia comigo para desenhar às pressas minhas penas juvenis. Mas a tal divindade, "o espírito do nada", "o santo do invisível", enviou-me solidário, prontamente ao surgimento do meu falso pranto de ira, um cego precavido que usava um borsalino bege e uma camisa lilás. Cedeu-me seu lápis de ponta gasta e mal feita quando sacou-o do paletó ainda meio desconfiado, provavelmente ao sentir minha inquietação dentro do antigo ônibus de Santa Matilde. "Tome aqui, criança, vai te fazer bem." Uma porcaria de lápis - que o diabo me entregou como um afago de mãe, achando que eu fosse um moleque de seis anos entediado com a viagem. Mas, como acompanhado de um sorriso e uma expressão de curiosidade que minha prática em braile não conseguirá sanar nem dali a dois mil e trinta e três anos, aceitei calado, sem agradecer nem pedir licença.

Dê cá. Nunca gostei muito de cegos, nem mesmo quando eram meras personagens fugazes das tardes em que minha mãe me arrastava ao centro da cidade para estudar arte moderna. Para ser sincero, minha intenção era esquecê-lo lá e tomar-lhe o lápis aos meus propósitos. De fato, eu necessitava, como um remédio do coração ao cardíaco, borrar umas setecentas páginas com uma crônica do drama da minha vida, mesmo que isso custasse a confiança do velho desalumiado e ingênuo: o cego. Queria delinear a olhos vistos, sim, toda minha história, a qual agora, apesar de apossada, fazia-se feroz e traiçoeira, como se indomada por escolha própria, isto é, insubordinada feito órfã inserida numa família desacreditada pela infertilidade e despreparada pelos fracassos da vida, ou vice e versa. Mas não a culpo desse destino, foi o mundo - escultor de gerações - que a moldou assim.

Talvez fosse essa a explicação, penso aqui. Não é difícil acreditar que minha trajetória se sustentou por sorte. Sinto-a desacolhida desde sua discreta aurora, a qual nem mesmo com algumas centenas de vocábulos consigo resumir. E não uso da desculpa de que é complexa demais ou que de tão confusa seria perda de tempo narrá-la, isso nunca. Se me desse uns dez minutos de prosa, faria de ti, do desconhecido, do anônimo, do zé ninguém, os meus melhores e mais honrados amigos. Minha voz é sem pudor algum uma fonte de profecias e meus lábios, a raiz de muitas verdades; porém, sempre recordo de que me distancio do narcisismo - que de fato é mera insegurança - de dizer que sou deus de mim ou de ti. E prova dessa discussão é eu ter concluído depois de um sonho perturbado que minha mente conspira e conspirará contra minha tranqüilidade e o casamento entre uma alma de luz e um mistério-milagre que fez o que sou enfim.

Poderia assustá-lo com essa premissa, sem dúvida, e limitar-me a essa declaração. No entanto, preferi guardar a memória de minha dor um tanto mais fundo que uma lembrança ou um berro nas alturas da troposfera podem alcançar. Eu quis, e só dessa vez, ser ouvido, lido, recordado e discutido nas mesas de bar... porém, antes da glória, da romântica importância que nem sei se virão, precisava receber minha catarse de mãos beijadas.

Conversando com amigos, descobri que ofereciam-na a preços altíssimos em consultórios, divãs e o diabo a quatro. E tudo isso a exatos três quarteirões da minha casa. Eu compreendo, resignado, sério, sem sarcasmo, - te juro! - que custa caro saber das dores do outro. Decorei das reflexões de minha mãe os argumentos que apontam a responsabilidade que é vender diretrizes teóricas e duvidosíssimas com o objetivo de fazer alguém pouco mais feliz da vida. Sei do charlatanismo embutido nos remédios de etiqueta preta e na entidade misteriosa que nomeiam 'Academia'. Sei do quão perigoso é ir longe demais, atrás de uma dica que atalhe uma vida de angústias. Sei de tudo o que perpassa o universo medíocre dos intelectuais, da razão e dos que acham que a detêm.

Meu veneno, portanto, foi saber que eles tinham minhas respostas prontas; mas que, antagonicamente, se fortaleciam por dominar um idioma, uma escrita, uma sintaxe que, embora exatamente iguais às que eu e meus problemas praticávamos entre nós no jogo de tentar desembolar o fio do telefone, soa artificial, estrangeira, ininteligível... E não duvido também que esse seja, por fim, o propósito desses vendedores de solução. Talvez só assim, vestindo essas roupas de brechó com cheiro de guardado, usando tais óculos com setecentos graus acima e adorando deterministas, existencialistas e lavadeiras, eles se alimentem das próprias gargalhadas e dos descontroles alheios.

Eles sabiam que lá no meu verbalismo, onde nenhuma ressonância consegue enxergar, jazia minha doença. Ela penetrava bem fundo na minha covardia, minha fraqueza, e punha em evidência a vulgaridade "daquelas lá" comprimida num sorriso falso; espelhava sem medo suas caras imaculadas e projetava a gritos inauditos e duplicados sua revolta contra meu desejo por sua dualidade, de mantê-las sob meus cuidados num ato egoísta e irracional. Eu tinha as chaves para libertá-las, mas sabia que minha consciência - adoradora da posse - preferia mantê-las embrulhadas numa concepção miniaturizada do mundo. Onde pudesse cuidar e manter em sigilo por mais tempo até que o tempo soprasse-as para longe.

E meu pai, ao fundo, profetiza orgulhoso de si aquela experiência enxerida de velho sábio e coisa e tal. Talvez ele guarde suas reflexões não verbalizadas no bolso da camisa que nunca usou, como se não sentisse vontade alguma de encontrar e resolver sua existência. E, no verso da história, vejo-me na época certa de perdoar o mundo dos males impostos a todos fortuitamente. Mas nunca fui muito de perdoar, nunca fui muito de muita coisa, para ser franco... nem de viver como meu pai, assim desse jeito, sem muito pensar no seu "Eu".

Enfim, para chegar em casa, depois de descer exausto e com chuva do Santa Matilde, disputei a marquise dos tais consultórios com seis ou sete alunas do Padre José sob forte chuva. Tinha de fugir dali, óbvio, então apertei o passo para atravessar os três quarteirões. E ainda assim, balançando as chaves do apartamento, cruzei as ruas agarrado à minha quase finada coragem, como se a sensação de estar me aproximando do meu ninho remediasse a pressão do medo de falhar, de entregar-me por doze mil a alguém que se senta atrás de mim, sem fitar meus olhos, e me diz algumas "verdades absolutas" anotadas por um viciado num domingo perdido no tempo.

De frente à porta de casa, esperei que ela reconhecesse meus passos contra o assoalho. Sempre subia o único lance de escadas reproduzindo a 5ª de Beethoven, tsc. Nada de resposta. Agitei novamente as chaves e só assim vi o número 12 sumir da minha frente e aquela criatura assustadora e ao mesmo tempo doce me saudar com uma cara de sono e sua outra metade me ler dos pés à cabeça. Essa cena sempre será um "mudo" na minha história, como se eu não tivesse como entender tal estranha mecânica.

Como se previsse meu coma lúcido, ela me passou o telefone sem fio e uma outra voz me ditou o número, que disquei sem muito pensar. Antes, num ato de desespero, tentei encontrar naquela penumbra uma caneta para esboçar minha expectativa de resolver tudo ao voar alto e expulsar minha perturbação somente com um grito de ira. Tinha tempo e legítima esperança de que funcionaria. Mas do outro lado da linha alguém com uma voz anasalada e impaciente saudava-me com um "alô". Sem o mínimo controle, pus-me a tagarelar para o outro lado:

___ Dra. Rosali ? - por um momento eu duvidei que estava falando com um humano - Qual o melhor horário para consulta ? Amanhã ? Ótimo. Sei onde estão, moro a três quadras do edifício. Passar bem.




A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu bloghttp://porleonardo.blogspot.com/.

terça-feira, novembro 22, 2011

Meu Lema.



Estava muito claro que aqueles resmungos indiretos eram todos para mim. Giselda balbuciava uns trocentos maldizeres e lançava aquele olhar torto na minha direção para ver como eu reagia à sua cerimônia de querer me inclinar às suas vontades. Usava de todas as estratégias juvenis – e enquanto ateava fogo no quarto, rolava também a calçada e se jogava nua do vigésimo andar: um verdadeiro festival de falsas ameaças. Eu, macaco velho que sou, por mais compaixão que mentisse com olhos protraídos de atenção e vida, não fazia valer as pirraças daquela quase-dama projetada para carnavais nos quais talvez nem vivo estarei. Não, não, comigo o buraco é mais embaixo, e esse tal partido de feminismo por conveniência não se acolhe bem na minha consciência; em verdade, nunca se acolheu, nem mesmo quando era uma criança subordinada e desacreditada dos motivos que a televisão a cores tinha pra nós.


Meu pai, que era bom exemplo dessa máxima, sustentou até seu último suspiro aquela mania boba de ordenar que minha mãe “fizesse isso” ou “arrumasse aquilo”; e era só pelo prazer descartável de tê-la nas rédeas, presa à sua corte, que seu ego gerava natimorta qualquer esperança de que algum dia gestos de amor fossem dominantes no nosso sobrado na desperdiçada Alameda das Acácias, número 3. Tudo isso para manter viva, como sempre fora com meus avós, bisavós e outros vós, a tradição do patriarca absoluto – palavra que para eles era sinônimo de monarca e que por vezes esbarrava nos ofícios de tal.


E foi nesse reinado de Luís não sei das quantas que passou tempo suficiente para que o respeito de toda a família recaísse sobre sua pouco expressiva existência e se diluísse no partir de Sebastião de Sant’anna, no dia 15 de fevereiro de 94: sem chuva, sem flores, sem música e sem qualquer significância de dia póstumo - nada. De fato, concordo que não existem bons dias para morrer, ou sequer um dia certo para abandonar tudo e entregar-se para o Divino, mas o pilar da integridade familiar que antes era teso e inabalável tombou e foi enterrado junto de papai no gélido granito da marmoraria do Lucinho, e de lá, até os dias de hoje, não saiu mais.


Minha irmã, engajada daqui e de lá com uns intelectuais desvairados, enviesou para as tônicas da arte e da preguiça e perdeu-se com ela mesma num apartamento do subúrbio de um subúrbio brasileiro; Clarisse, minha esposa, reatou um amor duvidoso com a capital e refez as malas para Lima; e Sandra, a governanta que me trocou as fraldas e serviu-me o jantar do casamento, se mandou para os confins da terra com meu cunhado Oswaldo, de casamento marcado com Ana Beatriz; um grande filho da puta.


Sei o que dirá, mas só sei porque por aqui não há quem não diga. É um familiazinha medíocre os Sant’anna, gentinha que não vale a merda que põe no prato, um bando de sem vergonhas aninhados na mesma casa... Vá, eu compreendo, ora ! Essa mesma franqueza de falar o que dá na bucha é que faz as boas maneiras das donzelas de Fundo Céu - é o normal nessas bandas de cá ! E Giselda estava lá, quimérica, tentando fazer da história dos meus antepassados um registro superficial e transponível. Até que eu explicasse a carga que repousava nos meus ombros e os olhos do meu pai lá no infinito projetando memórias de minha infância, decerto ela me deixaria para recorrer aos seus outros. E eu sabia, desde muito tempo, que não eram poucos.


Cá pra nós, uns até me acompanhavam como amigos no bilhar, críquete e golfe australiano, e de tanto relatarem suas más criações ao lado da tal ‘moça do Santiago’ – pai bebum e já finado da minha moçinha – relacionei logo a Giselda e matei a charada que discordava da minha inocência quase adolescente de pureza ia até os dezenove.

___ Vamos, Ricardo, vamos de uma vez ! Se aceitar meu pedido prometo não lhe pedir mais nada que ataque seu bolso ou sua dignidade. Não sei se você me entendeu bem: eu disse Caribe !


Entusiasmada com seu próprio ar de locutora, ela sabia que jogava bem. Essas promessas que unem “nunca” ou “sempre” a uma concessão qualquer são sem dúvidas as mais vantajosas; e essa, apesar dos pesares, mexeu com minhas estribeiras. E, não sei como, ela sabia das minhas finanças. Sabia tintim por tintim de cada trambique, seja com os vendedores de coca na fronteira ou com a validação dos cassinos; o baralho, os impostos e meus negócios caribenhos pendentes: absolutamente tudo. E, não satisfeita, chantageava com maldade para me arrancar toda espécie de regalia. Sapatos caros, máquinas fotográficas, jóias, brinquinhos de ouro e uns outros cacarecos moderninhos que eu não sabia bem pra quê. Também, não ousava jogar a culpa em ninguém que não em mim. Cada espirro, cada palavra, cada gesto, por menor formalismo que parecessem conter, foram minhas criações, tinha meu dedo ali de um jeito ou de outro. E Giselda, minha criatura esculpida num exemplo de mundo perverso, tinha a quem puxar. Ela era o retrato mais fiel, a ilustração mais exata do que havia de verdadeiro nos recheios humanos – era a verdade em ferida aberta simplesmente.


___ Eu já disse que isso não dará em nada, Giselda. Além do quê, nesse período não há quase turista algum ! Meu bem, os tempos mudaram ! Mudaram pra valer. – eu tentei ser cordial, fiz minhas caras de coitado, ofereci uma dose de whisky e tentei um cafuné que ela pouco apreciou empurrando meu punho com uma raiva dissimulada ou uma esquiva. Foi fatal.


___ Pois fique então com tuas putas, Ricardo! Leve-as com você para conhecer o mundo, gaste tudo com aquelas sanguessugas e depois pague-as para largarem-no como um coitado num hotel asqueroso com uma xícara de café e sem um tostão furado no bolso. Se é a elas que você demonstra gratidão, deixe como está.


Vi essa cena como encarei Lígia nos olhos em sua adolescência difícil. Foi, das minhas filhas, a mais hermética e sentimental, a que mais intensamente marcou-me na pele. Era vulgar, melindrosa e decidida demais para estar no tempo e na posição em que estava. E partiu só, como tinha de ser. Dela, não tive mais notícias; talvez tivesse trocado seu nome, pintado o cabelo ou feito um rosto novo. E eu senti naquele dia, que de todos os seres humanos eu era o mais impotente; que para permanecer sozinho eu só precisei amar o indivíduo ao qual dei parte da vida. Ou melhor: de quem cuidei, a quem protegi eu só recebi silêncio e indiferença.


E vi essa cena reproduzir-se tal qual na fatídica noite de setembro. Minha moçinha fazia o papel de Lígia, e eu, um tanto menos grisalho que agora, assistia a tudo meio apavorado na noite em que por fim decretaram minha solidão - sem minha assinatura, meu consentimento, meu aval.


Giselda, em cima do mesmo banquinho de madeira em que minha mãe nos punha todos de castigo, colhia do armário todos os vestidos que comprei, todos os colares, todos os livros, todas as cartas e presentinhos... Colocava-os um a um numa mala maior que ela própria, sem o menor sinal de pressa - arrumando com esmero suas coisinhas - como que fazendo-me remoer sua partida lentamente. Parecia apreciar o veneno penetrando aos poucos, célula a célula: ácido, corrosivo, torturante.


Eu fingia desconhecer, mas estava claro que era a sensação de estar só encharcando-me mais uma vez. Em verdade, eu dava à luz o remorso de uma geração inteira. Sentia pesar em mim o monstro infinito que é o cárcere de si próprio sobre a consciência. Assistia inerte a vida transitar nas memórias e no semblante decepcionado de meu pai, que por sua vez azedava por desgosto ao ver-me retirar do paletó dois bilhetes com o logotipo da empresa de táxi aéreo. Naquele instante, eu desperdiçava todos os esforços de seis mil homens por uma coisa simples: medo. E entregava definitivamente as rédeas àquele projeto de mulher. Mas mal sabia ela que lá nas "ilhas bonitas" eu não era tão querido assim como pensava.


___ Faça suas malas, meu amor. Partimos pela manhã.


domingo, outubro 23, 2011

Modernismo.


Para Giselda.



Você precisava ter visto a minha cara e meus lábios roídos quando os apelidinhos foram trocados para ganhar meus ouvidos. Uma intimidade tão oleosa que passou por todos nós lubrificada sem precedentes com aquele disfarce de carinho sóbrio que pôs meu formalismo metido à besta à forra.

Apelidinhos tão sutilmente arquitetados que interpor-me como macho dominante figuraria patético para qualquer teórico de psicologia conjugal de doutrina conservadora ou machista. Apelidinhos que eu esmagava entre os dedos e levava à boca para mastigar com o canto dos dentes pra não deixar ninguém ver; pois eram lá palavras grandes e se me escapassem dos lábios poderia dar na vista e me entregar aos juízes do jogo - seus pais. Eu, de fato, era um vocabulofágico enrustido, se é que essa porra existe.

Mas fiz-me, então, sério na sua vista. Dobrei as rugas, desfiz o mau humor e guardei-o fundo em meu semblante dissimulado. Esse era o procedimento padrão de quem tem suas muitas amantes. Era assim que eu lhe contava mentiras; era assim que eu a enlevava nos meus nós cegos e boas lorotas de "estou cansado", "reunião com os executivos", "é o perfume da Inácia, a pegajosa esposa do Corrêa que não me larga" etc., etc. Disse estar tudo bem com aquilo, que não tinha nada demais em acariciar mentalmente outro que não eu. Afinal, de relacionamentos modernos eu era uma verdadeira fartura, e dar motivo para esse falatório de futuro prodigioso e votos de castidade no palco da igreja vai acabar em hipocrisia - ah, verdade, hipo-crisia, sei lá, foda-se.

Tudo era deveras rápido, e eu já me acostumara com o ritmo. Beijava-se agora numa razão e quando se falava em proporção já o casal ofegava com cara de demente nos travesseiros alugados de um quarto calorento com os fluidos esbranquiçados melando os lençóis e pentelhos. Tinha-se que dominar o pique para não ficar só. Trocando em miúdos, moderno é sinônimo de simples, de resumido, encurtado, amputado, direto. Moderno é suscinto, específico, viável e pontual. E o que não é moderno agrada alguns poucos inseguros e despreparados; agrada uns desvalidos e incapacitados. Agrada os fanhos, os gagos, os descontínuos e os médiuns; agrada os crentes, os eunucos e os velhos impotentes. Agradava a mim, que não era nada disso, mas só agora percebo que esqueci de incluir os apaixonados e dependentes químicos. Esqueci de citar os homicidas passionais, os maridos violentos e as almas corrompidas; esqueci dos grisalhos abonados, dos bê-eme-dablios da vida, os depressivos, os escrivães e papais de primeira viagem. Esqueci de incluir-me dando uma surra nos cães sedentos, querendo te possuir com as línguas ensebadas de cerveja barata e torresminho. Esqueci de incluir esses putos e tarados, loucos para trepar com sua pele serena, alva e intocada de dar dó; pele que, um dia, e foi só, eriçou com meus beijos inexperientes e virginais. Esqueci de citar os apelidinhos maldosos e sua cumplicidade inviolável, em cuja brincadeira eu jamais hei de ser integrante - que, de pensar, tem efeito purgante, embrulha o estômago, faz passar mal. Esqueci de citar que os meus são todos importados dos amores que eu julgo belos, que é pra trazer sorte e não ter erro na hora do "vamo vê". Esqueci de citar que como capitão eu declaro essa guerra perdida. Ou você, por meus temores, dividida.

Mas, pensando bem, agora é certo que o que não é moderno agrada uns muitos frouxos. Uns frouxos de meia tigela que mal conseguem competir com eles mesmos. Perdem em tempo, em força, em masculinidade, e vivem se encontrando com desculpas de que "sou mais feliz assim", "vivo de forma mais serena e próxima da justiça e da moral" e por aí se estende. Ah, porra nenhuma, o que vocês querem são uns bons analgésicos para a cabeça, um whisky doze anos para levantar o astral e botar pra quebrar com umas vadias. Usar desses dotes que o dinheiro permite e chantagear umas bocetas de mente fraca, levá-las para o quarto e dar de presente uma pernoite num motel de luxo à beira da estrada. Vocês só não querem acreditar que o mundo é mau e nem elas querem crer que um dia já houve alguém a pensar num ser humano ideal.Vocês deveriam ter vergonha disso, ou ao menos desistir de tentar salvar o mundo da luxúria. É uma verdadeira disputa de ideais. De um lado eu quero a fantasia e do outro eu quero a concretude.

Pra mim, você é exatamente o que eu reprimo, Giselda, uma mente fraca, uma porcaria de mente fraca. Vendida e talhada para ser nos meus olhos só um amontoado de "pecados" silenciados pela dissimulação e pelo desejo que nutro pela tua carne. Pra mim, você é minha dualidade, meu conflito, minha indecisão.

Um seco adeus,

Vasquez.


N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem. Ele publica suas obras em seu blog http://alissonaffonso.blogspot.com/

sábado, outubro 22, 2011

Ser eles.


Era como que um sentimento de não caber em mim. Uma necessidade de expandir minha existência aos níveis mais críticos e poder extrapolar a individualidade que deus nos impôs sabe-se lá com que propósito. A bem da verdade, eu não era suficiente para aqueles braços finos, o corpo esguio e a tez falsamente perolada. Eu era um desperdício naqueles traços repetitivos, sólidos e imutáveis. Eu desejava outras faces, outra formas, outras fortunas.

Minha vontade maior era prescrutar o íntimo das mentes, perversas ou serenas, e provar da fonte os segredos mais intempestivos de cada ser humano. Fazer-me saber dos temores, dos pudores e dos limites; controlar os passos e mudar destinos; fazer, por assim dizer, a vida à minha semelhança e deleitar do desespero que é perder-se na inconsequência de outro alguém.

Minha vontade era aproximar-me do sexualismo dos familiares, poder ouvir suas preces inauditas e as maldições infundadas que a inveja traz. Queria guardar de cada um seu amor próprio, suas carícias de frente ao espelho e a admiração a olhos vivos das geometrias dos corpos desnudos. Eu anseava provar dos toques, inventar paixões e alavancar adultérios. Pôr as damas nos cabarés e as putas em minha casa; ora jantar com cães, ora passear encoleirado a eles numa travessa movimentada de Buenos Aires.

Eu queria mesmo era ter tempo para ser o mundo; mudar de país, mudar os papéis, ser um escultor falido, médico e bombeiro; ter uma doença crônica, uma identidade nova, uma conta gorda nas Bahamas e pilotar um iate nos fins de semana. Queria viver às migalhas, abraçar um bom litro de cachaça e queimar a garganta com um alívio tão instintivo quanto pode ser o sono. Queria pisar descalço as grandes avenidas, viver de agricultura ou vender bugigangas a quem houvesse de achar ali qualquer importância.

Minha vontade era de amar todos os idiomas, misturá-los ao acaso e com eles fazer discursos de aniversário ininteligíveis. Eu queria poder amar muitos, quiçá todos, pois assim por todos seria também amado e no mundo não faltaria sentimento à mais baixa, suja e demente das criaturas. Queria ser aquele a pedir desculpas, mas também o orgulhoso, pedante e inculto. Queria trazer de volta aos meus dias a infância, e tão logo ela me aborrecesse, experimentaria a velhice que tanto me contém hoje. E ai do hipócrita que erguer-se num púlpito para condenar-me bruxo, pois já estive em sua mente e dela sei que saem impulsos luxuriosos e a fera acorrentada do ser humano temperado à mais falsa civilidade.

Eu queria que nossa existência fosse uma permuta constante, que nos permitisse experiências novas a cada manhã; que nos colocasse a mesa do café em uma casa nova, com um patriarca autoritário e uma irmã viciada; o jantar com um cineasta russo mal humorado e o desjejum ao lado de um filósofo contemporâneo surdo.

Eu queria poder ter uma arma, um pote de cocaína e um fundo de ajuda e caridade.

Eu queria ser eles. E só isso me bastaria as ideias.

Eu queria ser. E só. Mas as leis que regem nossa humilde existência nos limitam a um único caminho; e o meu despontou no fim, lá longe onde deus descansa.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Metástase.



Que eu fosse então seu brinquedo de estar, sua criança subordinada ou seu velho escravo sexagenário. Porque talvez só assim, mulher, na intrínseca dependência, eu aceite, enfim, calado, seus desvios e indiferenças, seus sadismos e perversões de fêmea adúltera. Sei que és a minha pequena incongruência de lados opostos que um dia se tocam no infinito e voltam a se desencontrar, mas é preciso aninhar isso, fazer algum sentido.

Sabe, chéri, você não é tão boa dona como se diz em noites regadas de álcool e infâmias; para tanto, vi que botou para os pobres o vestido carmim que comprei nas medidas erradas e por causa desse desnecessário capricho burguês - forjado a duras penas em Fundo Céu de uns tempos pra cá - desceu ao ralo meu suor disciplinado do posto-à-mesa e mesmerizou impúbere as juras secas do meu amor prosaico. E se ainda sorri imisciva exibindo essas indeléveis formas de alguém para quem o tempo decidiu não passar, se pra você é glorificante manter os grisalhos detrás do recorte das orelhas, ponha-se aqui em meu lugar que essa eu quero ver!


Realmente não sei o que é pior, Giselda, mas assumo que te olhar daqui da cama, cuspindo na pia e fazendo gargarejos enquanto ri, dói-me mais na alma que na vista; e cobrir-me a cabeça com o cobertor não resolve em nada, porque te conheço na mente ao desejo e te remonto quando convém; despida ou adornada com o bolerinho da mamãe, não importa. Conheço-te a cada centímetro de pele-neve, pele-atrevida ou em disfarces mil.

Bem capaz de eu ainda te deixar, mas enquanto o dia não vem e as palavras do discurso me fugirem aos lábios, vou enternecendo-a em amor barato e outras formas de chispar contigo para Samoa, Paris ou Viena, que é o que sonho - você bem sabe - desde a aula de geografia fatídica em que você me melou os panos. Balançava-se entre as minhas canetas parecendo inocente, criativa, contudo pronunciava já menina os caninos safados que transmutavam o anjo em cão e o cão em moça. Por mim, casávamos ali mesmo. O Mestre, como já caía bem em uma túnica, faria os votos e as bençãos. Você, entraria com a Vera dependurada nos ombros e eu colheria os feijõezinhos nos copos com algodão para montar seu bouquet. É bem verdade que os pimpolhos ficariam como araras num protesto, mas na escola secundária nunca foi hábito cultivarem nem mesmo os vaidosos lírios das literaturas aclamadas - por isso eles tinham de entender e fazer bonito no coro nupcial !

Eu sei que dirá que é insolúvel, oblíquo demais para válvulas de escape ou outras Clarices para comportar minhas expectativas. Também não tiro-lhe razão! Tanto já lhe provei que macho mesmo homem nenhum pode ser, e que hora ou outra uma mulher chega para tomar-lhe o que resta: e você chegou para mim. É sempre assim e o alazão está domado, embobece, morre. Todos morrem.

E tais cenas, assim logo de manhã, de você se emperequetando toda, já me furtam a força do trabalho para que eu a recupere só à noite - horário de suas abluções para encontrar Pedro Juán. Soube que ele tirou sorte grande no cassino Alvorada e você junto dele posando para jornais e revistas de estrelas. Por aqui, eu e meu rum amargoso comemoramos felizes a promoção de ajudante de almoxarifado, que renderá uns tostões a mais para os cigarros e as diálises.

Se eu bem quisesse desgraçar tudo para minha felicidade e vingança, denunciava-o por conta das sonegações que você me noticia e metia-lhe uns cem anos num cubículo fedido - com ratos e baratas disputando o almoço. Mas não, subtrair seus sorrisos é um crime insustentável para meu cotidiano e eu não seria capaz de conviver com a culpa que é seu pranto. Se bem que agora, com sua mãe defunta e as contas por pagar, tenho certeza de que viria correndo quando se visse desamparada e sem dinheiro para vestidos caros e noites de luxo nos "plazas" e "pallaces" da vida. É a luta pela sobrevivência, meu amor, e não tiro-lhe razão!

Se bem que há muitos meios de continuar respirando que fogem dessa perspectiva darwinista de que o egoísmo é mais afiado e venenoso que as presas da víbora mais assassina. Se bem que há outros meios de conduzir a vida que fogem dessa perspectiva neandertal de comer, foder e "comprar". Mas você faz pouco caso - acha que é tolice, que estou caducando - e me põe aqui a te esperar com o abajour queimado e uma pizza velha crescendo fungos na geladeira.

Ah, meu amor, onde foi que você começou a se perder mesmo ? Volto dia por dia para desvendar o mistério que é sua liberdade e nada faz sentido algum. Quanto mais me amou, Giselda, mais intensamente privou meus mimos e se desfez em flor; despetalando e involuindo sutilmente até minguar. Dói-me assim no peito. Finca, macera, roça e espeta, mas sigo esperando que você retorne às dezoito como outrora, trazendo meus biscoitos de polvilho e o café amargo da mercearia do seu primo Tristán; esperando que você desperte desse coma lúcido, peça desculpas por qualquer motivo e me embriague com aqueles beijos chorosos e soluçantes que só você sabe. Talvez seja mesmo uma utopia sem fundamento, mas aquele professor de geografia, com seu bigode seboso e barba por fazer, nos disse que os grandes fatos memoráveis nasceram de sonhos, embora tenha deixado os exemplos para a aula seguinte e tirado licença para não mais voltar. De toda forma ele devia ter alguma noção do que nos dissera - eu espero. Também não estou querendo aqui me justificar usando palavras de outros alguéns, portanto não me censure nessa exibição de sentimento senil e tampouco me obrigue a pedir o Zé para redigir essas coisas.

Aqui na firma estamos sempre muito ocupados com as metas e nos pedem favores o tempo todo. E se nos pegam debruçados sobre esse caderninho contando histórias de amores fracassados, ai, seremos mandados para a rua e terei de viver com as migalhas de papai. Deus me livre.





N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem

quarta-feira, agosto 24, 2011

Cartas ao nosso anonimato.





18-07-86 - Hospital



Querida,


hoje eu resolvi deixar tudo assim, disperso, incoerente, caótico. Como de fato não vivo dia por dia com intensidade alguma, não importa se o dezesseis está antes do três ou se julho - no meu calendário - antecede maio. As coisas não precisam de uma cronologia adequada; deixa-se ir assim, sem pudor, e dane-se. É, tudo o que eu mais desejo é dizer isso para o mundo. A minha amargura é tamanha que mesmo as palavras simples me doem ao sair: obrigado, perdão e com licença se aposentaram há tempos do meu vocabulário. Me comunico em urros mal-humorados e ai de quem não entender.

Tudo está virado. Logo eu, tão falante, tão seguro! Por enquanto, só a vida em ficção, nosso amor platônico e aquele filme do Coppola que põem pra passar aqui têm me feito completo. Apostei em estrelas de mentira, em sóis distantes demais e perdi. Foi a beleza sedutora que me enganou, não você.


Saiba que não é questão de suicídio, desistência ou falta de vontade. Já não há mais motivos e eu não vejo utilidade nessas fugas permanentes. Ainda mais na idade em que estou, sinto-me em absoluto sono, cansaço e invalidez - não tenho energia para cartas de despedida e tiros no peito como o biruta do Vargas. Poderia ser um cadáver, que não saberia. Poderia ser um defunto e todos me abraçariam, trariam flores e me olhariam como homem digno. E falo isso porque a morte traz dignidade junto das desgraças: "Oh, puxa, André foi um homem e tanto!"; "Ah, que falta nos fará o Papa!" e por aí vai. A morte, por assim dizer, banaliza o coração pulsante e ri de qualquer um que ouse desafiá-la. Mas também traz boas coisas, apesar de meu limite há séculos já ter ido para o espaço e não ter como resgatá-lo dessa órbita inalcançável.


Agora percebo como é fugaz a nossa importância. Um tiro seco em peito aberto que me abriu os olhos para a concretude desconjuntada do mundo. Estar aqui ou deixar meu corpo desfalecer feito quebra-cabeça é uma ambigüidade abusada. Estando presente, já era pura ausência e - preto no branco - minha ausência não era notada. Grande coisa essa morbidez sádica. De toda maneira, tinha de estar lá, sempre postado como bom homem.



Eu realmente não sei o que devo fazer. Era, segundo minha lei, para tudo estar em seu devido lugar, pois, assim, a hesitação de deixar esse espaço e essas verdades não viria à tona. A certeza de criar e destruir é o que move os homens; e me move também. Ter a decência de me fazer como for - quadrado, retângulo ou linha - e, se insatisfeito estiver, botar-me em qualquer saco plástico e recomeçar até que alguém recicle: isso é viver com as chances e os azares. Contudo, essa prática é pouco corrente entre os meus e o fato é que lixo não retorna para a superfície; sedimenta e morre enviesado em seus próprios percalços até sumir; quando some. Mas não dá. Ser finito e irrecuperável é o humano. E eu, sem minha bússola, não sou nada mais que um itinerante. Minha dificuldade, para fins de comprovação, é ser comum e alimentar essa colônia mal sucedida de formiguinhas bem adestradas. Minha indigestão começa ao respirar o produto do trabalho alheio e ter a quem fazer considerações; ter de agradecer de olhos baixos e respeitosos as enfermeiras mal pagas e os cuidadores preguiçosos até que seus egos fartos inflem e me espremam contra as paredes elásticas até que essas se arrebentem.


Pois vá, minha querida Anônima. Trabalhe, ganhe, doe, lute. Seu pó, para sua infelicidade, não terá essas etiquetas, mas asseguro-lhe que – se sair daqui com o sorriso estampado e o termo de alta - isso não a impedirá de ser pó. Um pó de gente, que não fala nem se apresenta. Só descansa. Descansa suas conquistas e revive seus fracassos. Deixa-os borbulhando na memória dos teus e depois de digerido se torna vaguidão. Pois assim, fracasso por fracasso, tudo se molda como deve ser - infértil e fétido até que definha e os vermes da idéia vêm se alimentar. Roem cada camada e adentram pouco a pouco o arcabouço da intimidade. Te ferem e maculam até que não importe a vaidade para você tapar com as mãos o que te enrubesce as bochechas gordas. E assim é a dinâmica polvorosa que passa desapercebida nos nossos dias.


Disse-me um senhor daqui do hospital que o homem não foi feito para derrota. Tsc, quanta petulância. Talvez esse homem que pôs tanto significado numa frase de efeito não tenha enfrentado essas cadeiras dos infernos e a dor dessas agulhas filhas da puta que me picam de segundo em segundo. É assim o dia inteiro, meu bem, remédio atrás de remédio, e analgésicos que não acabam mais.


E é assim também que o dia termina: não há mais nada a se fazer. Eu não me suporto como antes, minha pele está horrível e minha voz já não disfarça as dores contidas. Os olhos marejados começam a gotejar no assoalho e, na minha pouca roupa, já vejo meus ossos cutucando a costura velha a ponto de rasgarem-lhe aos pedaços. E enquanto isso, tenho de ficar de olhos fechados, porque o trem passa rápido e ruidoso acima de nós. Imagino daqui de longe uns meninos olhando maravihados pela janela, uns adultos dormindo um sono perturbado. Sacoleiros, escritores e desempregados disputando um espaço na estação. Roqueiros de bermuda, com camisetas suadas, concorrem a prioridade com grávidas que estão a um passo de explodir em quem estiver por perto. Jornais populistas resumem o fim de semana na segunda-feira de futebol e menininhas vaidosas retocam o batom vermelho em lábios ressecados. Suas unhas, mal feitas; o chão, podre e imundo; e o ar, cianótico feito só, me sufocando e instilando veneno. Todos juntos para me compor estatelado nesse leito fedido. Os hospitais, sem dúvidas, são moradas provisórias daqueles cujo destino é o inferno; como que um aperitivo de toda a podridão e os excessos sulfurosos que lá se encontram. Os bons homens, esses de vida exemplar e conduta impecável, certamente morreram sós em camas aquecidas ou nos braços e afagos das esposas - foram felizes para o ‘céu’.


Acontece que aqui é ordem atrás de ordem: "Feche a porta, não tente entrar." Acelere de novo a maca: lá vamos nós. A claridade e as ferragens entrecortando o silêncio fazem a trilha sonora. Isso aqui nunca foi santuário de coisa alguma. E de novo: "Feche a porta; não tente sair, senhor. Na próxima estação tem cabos e fios de alta tensão. Será um instante breve: um choque. Se acabou sua viagem: fique atrás da linha amarela ou dentro do saco preto. Lá atrás."


Dê seu adeus e, se não tiver, dê a partida e lá vamos nós outra vez.

Já me cansei de mandar cartas à prefeitura para desviar a linha férrea que passa aqui atrás da minha ala de internação. Se não chegam até o gabinete do todo-poderoso, terei de ficar reclamando contigo por meio de quinze parágrafos e tal.


Tenho que dormir agora por causa do jejum restrito dos exames de amanhã. Tomara que sirvam aquelas bisnagas na hora do lanche porque suspeito que a sopa esteja estragada desde o final de semana. Se cuida e até sexta-feira.


Com amor, de seu eterno André.





A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog http://porleonardo.blogspot.com/.

domingo, junho 26, 2011

Polígonos.


Não era definitivamente um bom dia. Se eu estava na loja de departamentos, debruçado sobre a estante de comédias românticas, logo após ter sido expulso da seção de brinquedos, algo estava indo muito mal; e era fato. Por efeito de registro, não me decidi sobre colocar a verdade absoluta, daquelas em carne viva, ou misturar qualquer mentira frouxa para me satisfazer o desejo de escrever sem pudores. Porém, pela atmosfera lúdica que nasce agora, valorizarei o mistério.


Tudo foi culpa da Giselda, pra variar, aquela doida. Dessa vez - e não que não seja hábito da moça - surpreendeu-me com um insulto novo e chamou-me "calhorda infantil". A vizinhança inteira de olhos arregalados ouviu; meio óbvio vindo daqueles enxeridos. Acontece que sempre fora do feitio de Giselda perder horas conversando com os burguesões de Fundo Céu para captar aqueles termos chulos e pomposos que só eles entendiam nas festas em que ela ousava comparecer sem convite e com o vestido decotado desviando atenções. Memorizava-os com maestria e guardava-os na ponta da língua para usar deliberadamente com qualquer um. Às vezes, até sem contexto usava-os, porém não fazia muita diferença quando falava comigo, já que não entendia muito bem senão pela agressividade no tom de voz. Mas, voltando a mim, como sempre trazia comigo na bolsa o pai dos burros (e isso eu não escondo ser), assim que ela forçou a porta nos meus pés relutantes em mantê-la sob meus cuidados, resgatei-o do fundo da bolsa daqueles tipos assim e li o tal termo suntuoso na cento e vinte e nove, coluna dois: "Cruzes, Gi, onde andou aprendendo essas coisas grosseiras?"Eu sabia de onde vinha, é claro, perguntei por etiqueta. Havia tempos eu a seguia depois do expediente para testemunhá-la dependurada no pescoço de Pedro Luís, o mulato de sotaque cubano, corpulento e charmoso sobre o qual, vez ou outra, ela criticava e lançava a língua venenosa. Era truque! Ele – centenas de vezes mais jovem e bem aparentado que eu - e seu terno que valia o meu salário a levavam para o esportivo que arranhava o motor para deleitarem da noite mais intensa de amor. Misturariam seus fluidos com a casualidade de uma torrada fria em cima da mesa e depois acabava para os dois e começava pra mim. Ela chorava, eu chorava e o ciclo reiniciaria com Pedro Juán, Vasquez e Andrei.



O infantil que ela pusera eu relevava, mas isso porque era tão comum ela me ver dessa forma, isto é, me ignorar como tal, que já não doía tanto quanto antes. Era tão incoerente aquela mulher que enjoava. Era tão petulante e altiva que desprezaria qualquer "bam-bam-bam" desses que aparecem de vez em sempre na porta dela atrás de você-sabe-o-quê. Era uma chatice descomunal ouvi-la tagarelar sobre os tantos namoricos que duravam três ou quatro dias. Eu fingia de desentendido, mas no fundo sabia que esse era o tempo exato para os idiotas conhecerem o que havia atrás daquele rostinho angelical, dissimulado e aquela boca desejosa. Linda, porém sádica – moralmente sádica! Eu, como bem dizem meus amigos da firma, não tenho lá o direito de relatar essa história. Não participo dela, como vê, ou pelo menos não no começo. Sou um coadjuvante que aspira figurar na mesa ao lado ou num erro irreparável de enquadramento. Sou a estrela dos esquecidos, o Nobel dos esperançosos e o gongo do perdedor. Mas sou alguma coisa, e isso já vale muito no universo de Giselda. Para ser sincero, tampouco sou eu quem está aqui escrevendo esse enxame de palavras difíceis. Para deixar tudo assim assim, chamei o Zé, que é letrado e fala bonito, porque a história que eu conto é coisa de gente mal amada que põe dor onde não tem.


Por fim, eu estava prestes a um desabamento. Minhas estruturas não mais suportavam a volubilidade recordista daquela mulher. Odiava-me na mesma proporção dos beijos que roubava quando me distraía. Lançava-me longe e depois laçava de volta para seu sofá antigo. Trocávamos carícias, deixava-me amá-la e depois arremessava a louça na minha direção, furiosa. No dia em que acertou de verdade e apaguei por um dia inteiro, as lagrimazinhas miúdas que me umedeciam as pestanas foram pouco a pouco me fazendo chorar também com as lágrimas dela. Foi uma graça vê-la pressionando a gaze encharcada contra minha testa que minava sangue: “Pablo, Pablito, meu amorzinho... volta ! E-eu não sei o que faria sem você comigo, benzinho.”


Voltei para ela. Mas desejei daí alguns meses que eu tivesse morrido ali mesmo. Um traumatismo qualquer que ferrasse meus miolos já ajudaria a atenuar o sofrimento que aquela maluca me causava. Perder-me, para ela, era ficar sem mimos; para mim, era a liberdade absoluta que eu negociava com meu coração a juros altíssimos em nossa infinita guerra cambial.


No dia em que tentei fugir, se não me falha a memória, dei com Giselda se enrolando com um garotinho de uns dezessete anos na rua da mamãe. Era um mocinho magro, de pele transparente e, de tão desajeitado, mal sabia o que fazer com aquele corpo interminável e farto. Doeram-me as vísceras quando passei do lado olhando-a gargalhar com os beijos da criança no pescoço. Ah! Isso fez-me lembrar dos tempos da escola secundarista quando a vi naquela multidão curiosa e tivemos nossa primeira conversa: um beijo sem saliva que fez brotar nos meus lábios seu batom arroxeado de menina rebelde. Linda e inadequada como mandava o protocolo. Fora ali meu primeiro passo errado, que decretei minha sentença, que decidi viver na ilicitude do amor moderno. Não preciso dizer que o trago de nostalgia concentrada arrebatou-me na manhã seguinte para seu colo impaciente. Afinal, vinte e dois anos de história não são para qualquer machão ou moleque que se vê em posição de querer alguma coisa com minha soberana. Tolos, todos eles. Merdas, todos eles e eu.


___ Pablo, eu não tenho o dia todo pra ficar acarinhando sua nuca e ouvindo mil soluços de criancinha! É bom crescer e pensar direitinho se vai voltar pra mamãezinha e me deixar nas mãos dos “trogloditas”. – eu os chamava assim mesmo sabendo que ela não sabia o que queria dizer, e me inquietava para poder soltar mais insultos que inauguravam mensalmente na firma. Era ótimo!


Todavia, a essa rotina de novos amantes eu me adaptava e moldava como podia, dava meus jeitos e também não ficava atrás. E foi com Clarice que acabei ressuscitando uma Giselda que julguei e condenei no quinto ano fundamental. Fui até ela numa segunda-feira de 36º tentar receber meu acerto, meus benefícios dos serviços de saúde e um “abono dor de cabeça”. O médico, até onde tinha conhecimento, era o cardiologista, mas fui saber mais tarde que esse era um tipo de doutor que não mexia com esses trambiques de amor, búzios ou voodoo – então me contentei com a aspirina.


Entrei no apartamento do mesmo jeito de sempre, esperando ouvir uma voz masculina seguida de uma risada que escondia as mais perversas intenções. Gargalhadas que sinalizavam todos os desejos secretos, que expunham o impronunciável da mulher: a linguagem do corpo, as inclinações, o golpe do cabelo e a histeria estratégica de fêmea resoluta. Me interpus à porta de correr e vi-a ainda de lingerie rendada passando o lápis de olho que dei de presente com uns trocados do ônibus e divisei um vestido escuro dependurado na cabeceira da cama onde tanto nos amamos, digo, eu a amei.



__ Chéri – ela olhou-me atentamente pelo reflexo do espelho como se já soubesse da seriedade da situação - eu vim dizer ‘tchau’.


Era simples assim o pedido, a concessão, e eu sequer ensaiei antes como praticava nas minhas inúmeras juras de amor que aos trinta ainda me embaraçavam o estômago e faziam suar.


__ Está bem. Pode ir assim como está, Pablo, mando suas coisas para a casa de sua mãe pela manhã. Agora estou atrasada para conversas longas e choramingos insuportáveis. – ela reunia suas coisas com uma velocidade inacreditável e ia empurrando tudo para uma bolsa que devia caber só o batom e os chicletes de menta. Quanta indiferença havia nela! Talvez pensasse ser mais uma das minhas pirraças em que coubesse o adjetivo imaturo ou infantil; que em dois dias ou menos eu voltaria como cão domado; que em instantes eu me entregaria de novo à minha senhora de escravos.


__ Não. Eu não estou indo para a casa da mamãe, Giselda. Estou indo ficar com a Clarice.


A sobrancelha de fera ferida ergueu-se em reação e vi seus olhos analisarem-me centímetro por centímetro, medindo talvez a proporção de verdade por volume de ser. Isso acelerou meu coração, que preparava a isquemia, o edema, o derrame ou o piripaque que minha cachola não soube fazer no dia da panela que ela arremessara em mim. “Vamos, camarada”, eu pensava, “é agora que você pára de funcionar e faz o trabalho sujo.” Nada. Estava lá, batendo num ritmo controlado e intenso. Giselda agora se enfiava no vestido, desajeitada, e arrumava o chapéu enorme no topo da cabeça. Toda de preto, como jamais a vi antes.


__ Haha – uma risada triste e pouco entusiamada foi ouvida – minha mãe se foi, Pablito. Estou sozinha agora.


Meu sorriso amarelo se fez quase que imediatamente. Uma cachoeira de sensações veio me cobrindo a razão e solubilizando a determinação que acumulei antes de deixar minha casa. Mas eu não amava a tal Clarice; era um capricho de macho insatisfeito, enciumado e vingativo. Quiçá uma invenção ! Encontrei-a no bar onde costumava chorar mágoas – o bar do Raul. Lá tocavam uns sambas dos anos 30 que eu gostava de escutar e a cachaça era barata. Vi-a sentada e, frustrado com Giselda, lancei-me na jogatina perigosa. Ela não me trouxe as poucas alegrias que Giselda só em pensamento cuidava de me presentear, e aquele choramingo cinematográfico, sem lágrima ou funguinho, embora fosse o que fosse não deixava de me estremecer a decisão. Sozinha ! Fiz-me sério, arquitetanto na mente o sermão que tanto esperei para externar. “Ora, sua...! Vê como me sinto agora? Sempre do seu lado, sem qualquer reconhecimento ! Sempre como um carrapato, sugando sua energia, sua paciência... Giselda vou me embora já e lhe desejo solidão! Quero que conheça as tantas torturas que ninguém ousou lhe apresentar. Torturas que eu suportei por um amor doentio!”


Não saiu-me nada além de um suspiro. Tudo foi rápido demais. A aba do chapéu imenso acertou minha cabeça e recebi em seguida um beijo no rosto que provavelmente manchou-me as bochechas. O salto alto da minha dona ia marcando os degraus da escada até nada mais se ouvir. A porta do saguão de entrada bateu forte, como esperado, e o ronco do motor de Pedro Juán ecoou em todo o bairro. Era minha rendição. Ela sabia que quando voltasse eu estaria lá, assistindo a um filme qualquer recém comprado, esparramado no sofá seboso com um bilhetinho na mão.


Sempre fora assim, e não tem por que mudar.

sábado, junho 11, 2011

Parcimônia.






Era absoluto castigo vê-la perfurar o vento com aquela marcha pesada, rápida e tensa. Mostrando a raiva contida nos dentes enrijecidos e no ar de moça desatenta para o dia que a observava e suplicava atenção, Rosa era a gravidade e o próprio centro de tudo: era plena. No hall sustentado por colunas de isopor reciclado - confeccionada pelo laborioso síndico artista plástico -, roía as unhas até sangrar a carne, aguardando que o elevador de trezentos e tantos anos descesse do décimo quarto e viesse buscá-la para chegar ao terceiro.



Blam ! Abriu a porta do apartamento e logo bateu-a trás de si - dando aquele efeito heróico de saloons dos filmes de faroeste; estava entreaberta. Esperou que as pupilas se acostumassem àquele breu característico dos primeiros andares e inspirou lentamente os odores da sua morada como que querendo detectar o invasor traiçoeiro e parasítico das suas intimidades: farejava Sandro, o homem exalando aquele perfume cetônico nojento que ela mesma dera de presente. Custara pouco, sim, a essência, coisa das lojas de quinze pesos - para menos -, mas que valera o jantar a pão francês, os tocos de vela de citronela e o gás que acabara enquanto pré-aqueciam o forno antes do parabéns.

Fora ali, no santuário desorganizado e de paredes leitosas, que construiu seu mundo, suas lembranças sonoras, sua carga mais torturante de corações partidos e boleros sem par. Prescrutou com os olhos imensos a sombra e a silhueta de seu domínio, deixando o vento vindo da janela sem grades borboletear os cabelos desgrenhados a fim de sustentar sua pose de desleixo caprichado, vaidoso, ou qualquer coisa que as mulheres fazem para ficarem mais bonitas 'sem querer'. Rosa não o vira lá senão seu cheiro pairando feito pequenas plumas, digo, feito pequenas bolhas de sabão no ar. Se saísse para tentar achá-lo, não seria surpresa dar com o moço, a garrafa de cerveja quente e um mundaréu de cigarros apagados em torno e pela metade na escada imunda. Era um contraste de pura desgraça o saco de ossos, o trapo ignóbil que se tornou seu amor de instantes, de quase nada, dos minutos fugazes de inconsciência e tédio. Seu amor luxurioso e sujo, mas amor. Amor que, agora quiescente, lhe fervia os lábios desnudos e ruborizava a face desgostosa com sua podridão de ser. O que antes lhe era uma perfeita terapia, um afago aos dias difíceis pelos quais passava quase que 367 dias ao ano, transmutou em pesadelo e a assombrava com as lamúrias da carteira vazia e dos beijos que não mais recebia. Ela ? Beijar aquela boca porca de botecos sem higiene ? Beijar aquelas putas baratas, infectadas com o terror das ruas frias, com o vírus da besta, com o toque da carne ? Jamais !

Nem sequer lhe lançaria palavra. Só o olhar, que sua mãe ensinara ser mais pesado. Também, dizer-lhe que sentia-se incompleta, decepcionada... quanto eufemismo ! Ao único que sabia da sua condição, um bichano magricela e de educação dubitável, sobrou-lhe um veneno na tigela de atum que o levou para o outro lado do véu em minutos. Morreu agonizando, miando perdão pelos crimes não cometidos; e Rosa, que não se deu sequer ao trabalho de enterrá-lo no terreno baldio ao lado da construção cinquentenária, enrolou-o num jornal qualquer da semana anterior e o lançou com toda a indelicadeza que cuidava esconder na caçamba amarela e enferrujada da rua Tristán. Mal sabia ela que enfrentaria por dias a fio o cheiro da carne putrefata e dos vermes asqueirosos roendo o bichano, transformando-o em mosca, em sapo, em cobra e de novo em verme. O lixeiro só passava às quartas, quando passava; e era manhã de sexta quando o bicho se despediu com o coquetel do kit de química que roubara da dispensa de sua mãe. Isso tudo se somava à fúria de encarar aquele Sandro-quase-cadáver cuja saliva turva escorria débil no canto da boca. Estava lá, naquele pouco resolvido corredor onde a poeira encontrava ambiente propício para se estabelecer, reproduzir e colonizar. Lá, onde os esquecidos e desmoralizados achavam seu refúgio. Lá, onde o homem da sua vida renunciou seu posto para adorar as muitas rainhas que ninguém coroou. Mas ela, que nunca fora aristocrata de coração algum, resistia pouco a pouco, petit a petit, a abrir a boca, ignorar os bons ensinamentos de sua mãe e libertar seus mais petulantes demônios. Vomitaria sua dor inteira ali mesmo, cuspiria sua alma até que contaminasse a última célula de Sandro com o rancor mais sádico que escondia naquele sorriso doente de boa menina adestrada a resignar-se a tudo. Deixaria-o saborear, em seus instantes de lucidez, que eram raros, a dor e seu gosto amargo. Porque as coisas - dizia ela aos desavisados - são rápidas, se desprendem fácil e logo morrem. Renascem da frustração, fecundam o arrependimento e voltam a apodrecer.


Seu peito farto inflou um pouco mais na penumbra e a indisposição do estômago ajudou-a a regurgitar as palavras mais severas que lhe passaram à cabeça:

__ Verme asqueiroso, medíocre, não me apareça mais aqui ou lhe expulso feito cão arruaceiro ! Seu parasita ! Aproveitador ! - o manancial de lágrimas de Rosa já secara há um tempo e, embora quisesse pôr um pouco de sentimento naqueles insultos carregados de sotaque portenho tão suaves, tão previsíveis, o que lhe saiu foi uma voz trêmula que se aproximou de um gaguejo até engraçado.

Sentimento não havia de fato, se quiseres saber. Morrera com o intemperismo, lixiviado pelas lágrimas que não conteve e pelas tantas garrafas baratas de bebidas irreconhecíveis. Se fosse conhaque, tinha gosto de melancolia; se fosse gim, tinha sabor de fracasso; ou os dois. E, dê por onde dê, não era dela o fardo maior - pois superara sua tolice sem saber como ou porquê - mas dele, a quem dedicou seu frasco de melhor perfume, o vestido reservado para a mais aguardada festa de mentira e a maquiagem mais demorada que cansou até mesmo a penteadeira, cuja luz enfrequecera no dito dia. Era dessas lembranças que vinha a reação latente do coração já frágil, que pulsava manso em seu esforço comedido, econômico.


Rosa, prostrada ali - olhando-o gargalhar zombeteiro da sua tentativa de trazê-lo de volta aos braços aprazíveis onde tanto o acalentou - deixou rolar o último fragmento líquido do amor que ela desconhecia a origem.


__ Que suma, então, mulher ! Que feche-me a porta ! Que se entregue a outros tanto patifes aos quais está acostumada ! - Sandro ralhou para ecoar nos quatorze ramos daquela árvore de concreto.


A moça soube que havia dito isso quando ele terminou o discurso soltando um pigarreio alto; e testemunhou, embora não distinguisse palavra-carnívora por palavra-presa, a despedida fria de Sandro, que ainda dava risinhos por dentro para não deixar cair o cigarro Camel light que sempre fumava pelos cantos.


Aquela era a parte em que ela daria as costas para o moço e seguiria para casa atrás de seu café gelado e um livro seboso de um autor qualquer. Porém Rosa esquecera-se lá: não virou-se de costas, não soltou a pesada porta de metal e sequer desviou o olhar. Estava praticando o que sua mãe tanto prestou a ensinar: fulminar o olhar denso, imutável, inerte até a tortura ser deveras insuportável. Tinha de queimar-lhe a carne, até que ele voltasse. Mas isso servia para os ideais de sentimento, para as coisas verdadeiras que constam nos livros de Kawabata:

__ Que feche-me a porta ! Que feche-me a p-- ! - Sandro fez ecoar novamente seus berros naquele organismo séssil, mas dessa vez o som não chegou ao alto da escada: a porta fechara com um seco 'click' e a penumbra anoiteceu, acompanhando o compasso da melodia dos pratos quebrando no andar de cima.

quinta-feira, maio 19, 2011

Berro de cão mudo.


Cão, símile, meu santuário e súdito. Deitada com a cabeça zonza de tinto suave em seu peito virgem há e traz-me tanta alegria que o suspiro que eu emito é meu desencargo de paz, meu grunhido mais alto de prazer em sua forma bruta, secreta. Com minhas tantas fundamentais emoções, alma velha eu era só, e mais nada. Os odores que eu fazia exalarem das minhas dobras, articulações e de cada pontinho e segmento de pele tornou-se meu veneno a instilar minhas jogatinas de sedução e em ti fecundar sentimento, dependência - e eu conseguia.

Se movia-me arrastando os lábios, percorrendo e procurando seus braços magros e agudos, testemunhava uma selva de pelinhos erguerem-se atentos para meus próximos passos errantes, junto com arteriazinhas finas que se alongavam, esticavam e dilatavam: era o nascer de seu rubro excitar. Mais um a frente e eu era sua, mais um para trás, era meu - era nosso jogral particular das madrugadas insones. Despropositadamente, tropeçava em sua boca vermelha de tão doce e prendia-me entre seus joelhos que esmagavam-me como que negociando uma violência que pusesse à prova meu desejo; se já não bastassem aqueles bofetões às escuras ou os beliscões sem razão à espera do elevador cujos ruídos faziam hesitar o mais decidido suicida. Nosso ninho era uma absoluta desordem: fluidos, panos úmidos, gravatas (que para nós eram vendas), insegurança, dor e o infinito que populares nomeavam paixão.

Habituada a fazê-lo sempre após nosso ritual, levantei-me vestindo a camisola furta cor que tanto gostava de admirar; depois que senti o frio se apoderar das minhas extremidades e em seguida de todo o corpo, enrolei-me em um roupão de seda-vinho como das novelas nacionais. Mirava de pé a lua minguante pela persiana empoeirada - distraída, com cara e voz de criança - e a fumaça que partia preguiçosa de seu cigarro amentolado enchia o ambiente, criando uma dimensão sombria e de cômico terror barato.

__ Tsc, você aí deitado está me lembrando o Demétrio com aquelas filmagens indecentes. Está para existir menino mais bobo ! - odiava a minha voz quando ela ressoava por muito tempo sem réplica.

Você sabia bem disso. E era claro que tocar no nome de Demétrio seria torturar-te por mais alguns anos; contudo você manteve a pose de quem supera tabus e soprou a última baforada antes de apagar o filtro, deixando um sorriso escapar pré-maturo no canto da boca.

__ Eu não assisto às besteiras daquele moleque, Gabriela, você sabe. - declarava isso como se me contasse de um escândalo político qualquer que vira no jornal de sábado. - Posso apagar a luz ? Não gosto de me enxergar vulnerável como estou agora.

Você adorava essa palavra, justificava todas as suas angústias fantasiosas. As sobrancelhas arqueadas davam o tom antipático do discurso e eu não conseguia disfarçar a raiva infantil que nutria quando virou-se contra mim exibindo as costas nada musculosas e as costelas fracas que morriam nos quadris pontiagudos. Era sempre assim sua conduta: lembrava uma serpente. Ríspida, objetiva, letal. E dessa víbora que interpretavas, vi acender o abajur de seu criado e um oceano em projeção nascer devagarinho no seu corpo seminu. Hipnotizada, ali fiquei observando os peixinhos sem qualquer outro movimento, eram seus pensamentos mergulhando no universo que era você. Depois vi as estrelas-do-mar, as algas verdes desenhadas com pressa e aquela ciranda que girava cada vez mais rápido, te colorindo de azul, de amarelo, de sono e de verde-limão. Era lindo ao seu jeito, com aquela mansidão felina e ar de despreocupado.


__ Pare de me olhar com essa cara de horror, sua boba, está me dando arrepios.

Uma gargalhada seca seguiu-se e seu peito se encheu com um suspiro longo que o derrubou para o plano dos sonhos - dormira. E eu odiava quando adormecia no meio de uma quase-conversa.



N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem.