A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog - http://porleonardo.blogspot.com/.
De belas mentiras fazem-se os belos contos. De uma bela vida, cálida e possessa dão-se as fantasias inspiradoras.
sábado, fevereiro 25, 2012
Bilhete para Amália
A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog - http://porleonardo.blogspot.com/.
quinta-feira, janeiro 05, 2012
Ira.

terça-feira, novembro 22, 2011
Meu Lema.
Estava muito claro que aqueles resmungos indiretos eram todos para mim. Giselda balbuciava uns trocentos maldizeres e lançava aquele olhar torto na minha direção para ver como eu reagia à sua cerimônia de querer me inclinar às suas vontades. Usava de todas as estratégias juvenis – e enquanto ateava fogo no quarto, rolava também a calçada e se jogava nua do vigésimo andar: um verdadeiro festival de falsas ameaças. Eu, macaco velho que sou, por mais compaixão que mentisse com olhos protraídos de atenção e vida, não fazia valer as pirraças daquela quase-dama projetada para carnavais nos quais talvez nem vivo estarei. Não, não, comigo o buraco é mais embaixo, e esse tal partido de feminismo por conveniência não se acolhe bem na minha consciência; em verdade, nunca se acolheu, nem mesmo quando era uma criança subordinada e desacreditada dos motivos que a televisão a cores tinha pra nós.
Meu pai, que era bom exemplo dessa máxima, sustentou até seu último suspiro aquela mania boba de ordenar que minha mãe “fizesse isso” ou “arrumasse aquilo”; e era só pelo prazer descartável de tê-la nas rédeas, presa à sua corte, que seu ego gerava natimorta qualquer esperança de que algum dia gestos de amor fossem dominantes no nosso sobrado na desperdiçada Alameda das Acácias, número 3. Tudo isso para manter viva, como sempre fora com meus avós, bisavós e outros vós, a tradição do patriarca absoluto – palavra que para eles era sinônimo de monarca e que por vezes esbarrava nos ofícios de tal.
E foi nesse reinado de Luís não sei das quantas que passou tempo suficiente para que o respeito de toda a família recaísse sobre sua pouco expressiva existência e se diluísse no partir de Sebastião de Sant’anna, no dia 15 de fevereiro de 94: sem chuva, sem flores, sem música e sem qualquer significância de dia póstumo - nada. De fato, concordo que não existem bons dias para morrer, ou sequer um dia certo para abandonar tudo e entregar-se para o Divino, mas o pilar da integridade familiar que antes era teso e inabalável tombou e foi enterrado junto de papai no gélido granito da marmoraria do Lucinho, e de lá, até os dias de hoje, não saiu mais.
Minha irmã, engajada daqui e de lá com uns intelectuais desvairados, enviesou para as tônicas da arte e da preguiça e perdeu-se com ela mesma num apartamento do subúrbio de um subúrbio brasileiro; Clarisse, minha esposa, reatou um amor duvidoso com a capital e refez as malas para Lima; e Sandra, a governanta que me trocou as fraldas e serviu-me o jantar do casamento, se mandou para os confins da terra com meu cunhado Oswaldo, de casamento marcado com Ana Beatriz; um grande filho da puta.
Sei o que dirá, mas só sei porque por aqui não há quem não diga. É um familiazinha medíocre os Sant’anna, gentinha que não vale a merda que põe no prato, um bando de sem vergonhas aninhados na mesma casa... Vá, eu compreendo, ora ! Essa mesma franqueza de falar o que dá na bucha é que faz as boas maneiras das donzelas de Fundo Céu - é o normal nessas bandas de cá ! E Giselda estava lá, quimérica, tentando fazer da história dos meus antepassados um registro superficial e transponível. Até que eu explicasse a carga que repousava nos meus ombros e os olhos do meu pai lá no infinito projetando memórias de minha infância, decerto ela me deixaria para recorrer aos seus outros. E eu sabia, desde muito tempo, que não eram poucos.
Cá pra nós, uns até me acompanhavam como amigos no bilhar, críquete e golfe australiano, e de tanto relatarem suas más criações ao lado da tal ‘moça do Santiago’ – pai bebum e já finado da minha moçinha – relacionei logo a Giselda e matei a charada que discordava da minha inocência quase adolescente de pureza ia até os dezenove.
___ Vamos, Ricardo, vamos de uma vez ! Se aceitar meu pedido prometo não lhe pedir mais nada que ataque seu bolso ou sua dignidade. Não sei se você me entendeu bem: eu disse Caribe !
Entusiasmada com seu próprio ar de locutora, ela sabia que jogava bem. Essas promessas que unem “nunca” ou “sempre” a uma concessão qualquer são sem dúvidas as mais vantajosas; e essa, apesar dos pesares, mexeu com minhas estribeiras. E, não sei como, ela sabia das minhas finanças. Sabia tintim por tintim de cada trambique, seja com os vendedores de coca na fronteira ou com a validação dos cassinos; o baralho, os impostos e meus negócios caribenhos pendentes: absolutamente tudo. E, não satisfeita, chantageava com maldade para me arrancar toda espécie de regalia. Sapatos caros, máquinas fotográficas, jóias, brinquinhos de ouro e uns outros cacarecos moderninhos que eu não sabia bem pra quê. Também, não ousava jogar a culpa em ninguém que não em mim. Cada espirro, cada palavra, cada gesto, por menor formalismo que parecessem conter, foram minhas criações, tinha meu dedo ali de um jeito ou de outro. E Giselda, minha criatura esculpida num exemplo de mundo perverso, tinha a quem puxar. Ela era o retrato mais fiel, a ilustração mais exata do que havia de verdadeiro nos recheios humanos – era a verdade em ferida aberta simplesmente.
___ Eu já disse que isso não dará em nada, Giselda. Além do quê, nesse período não há quase turista algum ! Meu bem, os tempos mudaram ! Mudaram pra valer. – eu tentei ser cordial, fiz minhas caras de coitado, ofereci uma dose de whisky e tentei um cafuné que ela pouco apreciou empurrando meu punho com uma raiva dissimulada ou uma esquiva. Foi fatal.
___ Pois fique então com tuas putas, Ricardo! Leve-as com você para conhecer o mundo, gaste tudo com aquelas sanguessugas e depois pague-as para largarem-no como um coitado num hotel asqueroso com uma xícara de café e sem um tostão furado no bolso. Se é a elas que você demonstra gratidão, deixe como está.
Vi essa cena como encarei Lígia nos olhos em sua adolescência difícil. Foi, das minhas filhas, a mais hermética e sentimental, a que mais intensamente marcou-me na pele. Era vulgar, melindrosa e decidida demais para estar no tempo e na posição em que estava. E partiu só, como tinha de ser. Dela, não tive mais notícias; talvez tivesse trocado seu nome, pintado o cabelo ou feito um rosto novo. E eu senti naquele dia, que de todos os seres humanos eu era o mais impotente; que para permanecer sozinho eu só precisei amar o indivíduo ao qual dei parte da vida. Ou melhor: de quem cuidei, a quem protegi eu só recebi silêncio e indiferença.
E vi essa cena reproduzir-se tal qual na fatídica noite de setembro. Minha moçinha fazia o papel de Lígia, e eu, um tanto menos grisalho que agora, assistia a tudo meio apavorado na noite em que por fim decretaram minha solidão - sem minha assinatura, meu consentimento, meu aval.
Giselda, em cima do mesmo banquinho de madeira em que minha mãe nos punha todos de castigo, colhia do armário todos os vestidos que comprei, todos os colares, todos os livros, todas as cartas e presentinhos... Colocava-os um a um numa mala maior que ela própria, sem o menor sinal de pressa - arrumando com esmero suas coisinhas - como que fazendo-me remoer sua partida lentamente. Parecia apreciar o veneno penetrando aos poucos, célula a célula: ácido, corrosivo, torturante.
Eu fingia desconhecer, mas estava claro que era a sensação de estar só encharcando-me mais uma vez. Em verdade, eu dava à luz o remorso de uma geração inteira. Sentia pesar em mim o monstro infinito que é o cárcere de si próprio sobre a consciência. Assistia inerte a vida transitar nas memórias e no semblante decepcionado de meu pai, que por sua vez azedava por desgosto ao ver-me retirar do paletó dois bilhetes com o logotipo da empresa de táxi aéreo. Naquele instante, eu desperdiçava todos os esforços de seis mil homens por uma coisa simples: medo. E entregava definitivamente as rédeas àquele projeto de mulher. Mas mal sabia ela que lá nas "ilhas bonitas" eu não era tão querido assim como pensava.
___ Faça suas malas, meu amor. Partimos pela manhã.
domingo, outubro 23, 2011
Modernismo.

Tudo era deveras rápido, e eu já me acostumara com o ritmo. Beijava-se agora numa razão e quando se falava em proporção já o casal ofegava com cara de demente nos travesseiros alugados de um quarto calorento com os fluidos esbranquiçados melando os lençóis e pentelhos. Tinha-se que dominar o pique para não ficar só. Trocando em miúdos, moderno é sinônimo de simples, de resumido, encurtado, amputado, direto. Moderno é suscinto, específico, viável e pontual. E o que não é moderno agrada alguns poucos inseguros e despreparados; agrada uns desvalidos e incapacitados. Agrada os fanhos, os gagos, os descontínuos e os médiuns; agrada os crentes, os eunucos e os velhos impotentes. Agradava a mim, que não era nada disso, mas só agora percebo que esqueci de incluir os apaixonados e dependentes químicos. Esqueci de citar os homicidas passionais, os maridos violentos e as almas corrompidas; esqueci dos grisalhos abonados, dos bê-eme-dablios da vida, os depressivos, os escrivães e papais de primeira viagem. Esqueci de incluir-me dando uma surra nos cães sedentos, querendo te possuir com as línguas ensebadas de cerveja barata e torresminho. Esqueci de incluir esses putos e tarados, loucos para trepar com sua pele serena, alva e intocada de dar dó; pele que, um dia, e foi só, eriçou com meus beijos inexperientes e virginais. Esqueci de citar os apelidinhos maldosos e sua cumplicidade inviolável, em cuja brincadeira eu jamais hei de ser integrante - que, de pensar, tem efeito purgante, embrulha o estômago, faz passar mal. Esqueci de citar que os meus são todos importados dos amores que eu julgo belos, que é pra trazer sorte e não ter erro na hora do "vamo vê". Esqueci de citar que como capitão eu declaro essa guerra perdida. Ou você, por meus temores, dividida.
Mas, pensando bem, agora é certo que o que não é moderno agrada uns muitos frouxos. Uns frouxos de meia tigela que mal conseguem competir com eles mesmos. Perdem em tempo, em força, em masculinidade, e vivem se encontrando com desculpas de que "sou mais feliz assim", "vivo de forma mais serena e próxima da justiça e da moral" e por aí se estende. Ah, porra nenhuma, o que vocês querem são uns bons analgésicos para a cabeça, um whisky doze anos para levantar o astral e botar pra quebrar com umas vadias. Usar desses dotes que o dinheiro permite e chantagear umas bocetas de mente fraca, levá-las para o quarto e dar de presente uma pernoite num motel de luxo à beira da estrada. Vocês só não querem acreditar que o mundo é mau e nem elas querem crer que um dia já houve alguém a pensar num ser humano ideal.Vocês deveriam ter vergonha disso, ou ao menos desistir de tentar salvar o mundo da luxúria. É uma verdadeira disputa de ideais. De um lado eu quero a fantasia e do outro eu quero a concretude.
Pra mim, você é exatamente o que eu reprimo, Giselda, uma mente fraca, uma porcaria de mente fraca. Vendida e talhada para ser nos meus olhos só um amontoado de "pecados" silenciados pela dissimulação e pelo desejo que nutro pela tua carne. Pra mim, você é minha dualidade, meu conflito, minha indecisão.
sábado, outubro 22, 2011
Ser eles.
Minha vontade maior era prescrutar o íntimo das mentes, perversas ou serenas, e provar da fonte os segredos mais intempestivos de cada ser humano. Fazer-me saber dos temores, dos pudores e dos limites; controlar os passos e mudar destinos; fazer, por assim dizer, a vida à minha semelhança e deleitar do desespero que é perder-se na inconsequência de outro alguém.
Minha vontade era aproximar-me do sexualismo dos familiares, poder ouvir suas preces inauditas e as maldições infundadas que a inveja traz. Queria guardar de cada um seu amor próprio, suas carícias de frente ao espelho e a admiração a olhos vivos das geometrias dos corpos desnudos. Eu anseava provar dos toques, inventar paixões e alavancar adultérios. Pôr as damas nos cabarés e as putas em minha casa; ora jantar com cães, ora passear encoleirado a eles numa travessa movimentada de Buenos Aires.
Eu queria mesmo era ter tempo para ser o mundo; mudar de país, mudar os papéis, ser um escultor falido, médico e bombeiro; ter uma doença crônica, uma identidade nova, uma conta gorda nas Bahamas e pilotar um iate nos fins de semana. Queria viver às migalhas, abraçar um bom litro de cachaça e queimar a garganta com um alívio tão instintivo quanto pode ser o sono. Queria pisar descalço as grandes avenidas, viver de agricultura ou vender bugigangas a quem houvesse de achar ali qualquer importância.
Minha vontade era de amar todos os idiomas, misturá-los ao acaso e com eles fazer discursos de aniversário ininteligíveis. Eu queria poder amar muitos, quiçá todos, pois assim por todos seria também amado e no mundo não faltaria sentimento à mais baixa, suja e demente das criaturas. Queria ser aquele a pedir desculpas, mas também o orgulhoso, pedante e inculto. Queria trazer de volta aos meus dias a infância, e tão logo ela me aborrecesse, experimentaria a velhice que tanto me contém hoje. E ai do hipócrita que erguer-se num púlpito para condenar-me bruxo, pois já estive em sua mente e dela sei que saem impulsos luxuriosos e a fera acorrentada do ser humano temperado à mais falsa civilidade.
Eu queria que nossa existência fosse uma permuta constante, que nos permitisse experiências novas a cada manhã; que nos colocasse a mesa do café em uma casa nova, com um patriarca autoritário e uma irmã viciada; o jantar com um cineasta russo mal humorado e o desjejum ao lado de um filósofo contemporâneo surdo.
Eu queria poder ter uma arma, um pote de cocaína e um fundo de ajuda e caridade.
Eu queria ser eles. E só isso me bastaria as ideias.
Eu queria ser. E só. Mas as leis que regem nossa humilde existência nos limitam a um único caminho; e o meu despontou no fim, lá longe onde deus descansa.
sexta-feira, agosto 26, 2011
Metástase.
quarta-feira, agosto 24, 2011
Cartas ao nosso anonimato.

18-07-86 - Hospital
Querida,
hoje eu resolvi deixar tudo assim, disperso, incoerente, caótico. Como de fato não vivo dia por dia com intensidade alguma, não importa se o dezesseis está antes do três ou se julho - no meu calendário - antecede maio. As coisas não precisam de uma cronologia adequada; deixa-se ir assim, sem pudor, e dane-se. É, tudo o que eu mais desejo é dizer isso para o mundo. A minha amargura é tamanha que mesmo as palavras simples me doem ao sair: obrigado, perdão e com licença se aposentaram há tempos do meu vocabulário. Me comunico em urros mal-humorados e ai de quem não entender.
Tudo está virado. Logo eu, tão falante, tão seguro! Por enquanto, só a vida em ficção, nosso amor platônico e aquele filme do Coppola que põem pra passar aqui têm me feito completo. Apostei em estrelas de mentira, em sóis distantes demais e perdi. Foi a beleza sedutora que me enganou, não você.
Saiba que não é questão de suicídio, desistência ou falta de vontade. Já não há mais motivos e eu não vejo utilidade nessas fugas permanentes. Ainda mais na idade em que estou, sinto-me em absoluto sono, cansaço e invalidez - não tenho energia para cartas de despedida e tiros no peito como o biruta do Vargas. Poderia ser um cadáver, que não saberia. Poderia ser um defunto e todos me abraçariam, trariam flores e me olhariam como homem digno. E falo isso porque a morte traz dignidade junto das desgraças: "Oh, puxa, André foi um homem e tanto!"; "Ah, que falta nos fará o Papa!" e por aí vai. A morte, por assim dizer, banaliza o coração pulsante e ri de qualquer um que ouse desafiá-la. Mas também traz boas coisas, apesar de meu limite há séculos já ter ido para o espaço e não ter como resgatá-lo dessa órbita inalcançável.
Agora percebo como é fugaz a nossa importância. Um tiro seco em peito aberto que me abriu os olhos para a concretude desconjuntada do mundo. Estar aqui ou deixar meu corpo desfalecer feito quebra-cabeça é uma ambigüidade abusada. Estando presente, já era pura ausência e - preto no branco - minha ausência não era notada. Grande coisa essa morbidez sádica. De toda maneira, tinha de estar lá, sempre postado como bom homem.
Eu realmente não sei o que devo fazer. Era, segundo minha lei, para tudo estar em seu devido lugar, pois, assim, a hesitação de deixar esse espaço e essas verdades não viria à tona. A certeza de criar e destruir é o que move os homens; e me move também. Ter a decência de me fazer como for - quadrado, retângulo ou linha - e, se insatisfeito estiver, botar-me em qualquer saco plástico e recomeçar até que alguém recicle: isso é viver com as chances e os azares. Contudo, essa prática é pouco corrente entre os meus e o fato é que lixo não retorna para a superfície; sedimenta e morre enviesado em seus próprios percalços até sumir; quando some. Mas não dá. Ser finito e irrecuperável é o humano. E eu, sem minha bússola, não sou nada mais que um itinerante. Minha dificuldade, para fins de comprovação, é ser comum e alimentar essa colônia mal sucedida de formiguinhas bem adestradas. Minha indigestão começa ao respirar o produto do trabalho alheio e ter a quem fazer considerações; ter de agradecer de olhos baixos e respeitosos as enfermeiras mal pagas e os cuidadores preguiçosos até que seus egos fartos inflem e me espremam contra as paredes elásticas até que essas se arrebentem.
Pois vá, minha querida Anônima. Trabalhe, ganhe, doe, lute. Seu pó, para sua infelicidade, não terá essas etiquetas, mas asseguro-lhe que – se sair daqui com o sorriso estampado e o termo de alta - isso não a impedirá de ser pó. Um pó de gente, que não fala nem se apresenta. Só descansa. Descansa suas conquistas e revive seus fracassos. Deixa-os borbulhando na memória dos teus e depois de digerido se torna vaguidão. Pois assim, fracasso por fracasso, tudo se molda como deve ser - infértil e fétido até que definha e os vermes da idéia vêm se alimentar. Roem cada camada e adentram pouco a pouco o arcabouço da intimidade. Te ferem e maculam até que não importe a vaidade para você tapar com as mãos o que te enrubesce as bochechas gordas. E assim é a dinâmica polvorosa que passa desapercebida nos nossos dias.
Disse-me um senhor daqui do hospital que o homem não foi feito para derrota. Tsc, quanta petulância. Talvez esse homem que pôs tanto significado numa frase de efeito não tenha enfrentado essas cadeiras dos infernos e a dor dessas agulhas filhas da puta que me picam de segundo em segundo. É assim o dia inteiro, meu bem, remédio atrás de remédio, e analgésicos que não acabam mais.
E é assim também que o dia termina: não há mais nada a se fazer. Eu não me suporto como antes, minha pele está horrível e minha voz já não disfarça as dores contidas. Os olhos marejados começam a gotejar no assoalho e, na minha pouca roupa, já vejo meus ossos cutucando a costura velha a ponto de rasgarem-lhe aos pedaços. E enquanto isso, tenho de ficar de olhos fechados, porque o trem passa rápido e ruidoso acima de nós. Imagino daqui de longe uns meninos olhando maravihados pela janela, uns adultos dormindo um sono perturbado. Sacoleiros, escritores e desempregados disputando um espaço na estação. Roqueiros de bermuda, com camisetas suadas, concorrem a prioridade com grávidas que estão a um passo de explodir em quem estiver por perto. Jornais populistas resumem o fim de semana na segunda-feira de futebol e menininhas vaidosas retocam o batom vermelho em lábios ressecados. Suas unhas, mal feitas; o chão, podre e imundo; e o ar, cianótico feito só, me sufocando e instilando veneno. Todos juntos para me compor estatelado nesse leito fedido. Os hospitais, sem dúvidas, são moradas provisórias daqueles cujo destino é o inferno; como que um aperitivo de toda a podridão e os excessos sulfurosos que lá se encontram. Os bons homens, esses de vida exemplar e conduta impecável, certamente morreram sós em camas aquecidas ou nos braços e afagos das esposas - foram felizes para o ‘céu’.
Acontece que aqui é ordem atrás de ordem: "Feche a porta, não tente entrar." Acelere de novo a maca: lá vamos nós. A claridade e as ferragens entrecortando o silêncio fazem a trilha sonora. Isso aqui nunca foi santuário de coisa alguma. E de novo: "Feche a porta; não tente sair, senhor. Na próxima estação tem cabos e fios de alta tensão. Será um instante breve: um choque. Se acabou sua viagem: fique atrás da linha amarela ou dentro do saco preto. Lá atrás."
Dê seu adeus e, se não tiver, dê a partida e lá vamos nós outra vez.
Já me cansei de mandar cartas à prefeitura para desviar a linha férrea que passa aqui atrás da minha ala de internação. Se não chegam até o gabinete do todo-poderoso, terei de ficar reclamando contigo por meio de quinze parágrafos e tal.
Tenho que dormir agora por causa do jejum restrito dos exames de amanhã. Tomara que sirvam aquelas bisnagas na hora do lanche porque suspeito que a sopa esteja estragada desde o final de semana. Se cuida e até sexta-feira.
Com amor, de seu eterno André.
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domingo, junho 26, 2011
Polígonos.
Tudo foi culpa da Giselda, pra variar, aquela doida. Dessa vez - e não que não seja hábito da moça - surpreendeu-me com um insulto novo e chamou-me "calhorda infantil". A vizinhança inteira de olhos arregalados ouviu; meio óbvio vindo daqueles enxeridos. Acontece que sempre fora do feitio de Giselda perder horas conversando com os burguesões de Fundo Céu para captar aqueles termos chulos e pomposos que só eles entendiam nas festas em que ela ousava comparecer sem convite e com o vestido decotado desviando atenções. Memorizava-os com maestria e guardava-os na ponta da língua para usar deliberadamente com qualquer um. Às vezes, até sem contexto usava-os, porém não fazia muita diferença quando falava comigo, já que não entendia muito bem senão pela agressividade no tom de voz. Mas, voltando a mim, como sempre trazia comigo na bolsa o pai dos burros (e isso eu não escondo ser), assim que ela forçou a porta nos meus pés relutantes em mantê-la sob meus cuidados, resgatei-o do fundo da bolsa daqueles tipos assim e li o tal termo suntuoso na cento e vinte e nove, coluna dois: "Cruzes, Gi, onde andou aprendendo essas coisas grosseiras?"Eu sabia de onde vinha, é claro, perguntei por etiqueta. Havia tempos eu a seguia depois do expediente para testemunhá-la dependurada no pescoço de Pedro Luís, o mulato de sotaque cubano, corpulento e charmoso sobre o qual, vez ou outra, ela criticava e lançava a língua venenosa. Era truque! Ele – centenas de vezes mais jovem e bem aparentado que eu - e seu terno que valia o meu salário a levavam para o esportivo que arranhava o motor para deleitarem da noite mais intensa de amor. Misturariam seus fluidos com a casualidade de uma torrada fria em cima da mesa e depois acabava para os dois e começava pra mim. Ela chorava, eu chorava e o ciclo reiniciaria com Pedro Juán, Vasquez e Andrei.
O infantil que ela pusera eu relevava, mas isso porque era tão comum ela me ver dessa forma, isto é, me ignorar como tal, que já não doía tanto quanto antes. Era tão incoerente aquela mulher que enjoava. Era tão petulante e altiva que desprezaria qualquer "bam-bam-bam" desses que aparecem de vez em sempre na porta dela atrás de você-sabe-o-quê. Era uma chatice descomunal ouvi-la tagarelar sobre os tantos namoricos que duravam três ou quatro dias. Eu fingia de desentendido, mas no fundo sabia que esse era o tempo exato para os idiotas conhecerem o que havia atrás daquele rostinho angelical, dissimulado e aquela boca desejosa. Linda, porém sádica – moralmente sádica! Eu, como bem dizem meus amigos da firma, não tenho lá o direito de relatar essa história. Não participo dela, como vê, ou pelo menos não no começo. Sou um coadjuvante que aspira figurar na mesa ao lado ou num erro irreparável de enquadramento. Sou a estrela dos esquecidos, o Nobel dos esperançosos e o gongo do perdedor. Mas sou alguma coisa, e isso já vale muito no universo de Giselda. Para ser sincero, tampouco sou eu quem está aqui escrevendo esse enxame de palavras difíceis. Para deixar tudo assim assim, chamei o Zé, que é letrado e fala bonito, porque a história que eu conto é coisa de gente mal amada que põe dor onde não tem.
Por fim, eu estava prestes a um desabamento. Minhas estruturas não mais suportavam a volubilidade recordista daquela mulher. Odiava-me na mesma proporção dos beijos que roubava quando me distraía. Lançava-me longe e depois laçava de volta para seu sofá antigo. Trocávamos carícias, deixava-me amá-la e depois arremessava a louça na minha direção, furiosa. No dia em que acertou de verdade e apaguei por um dia inteiro, as lagrimazinhas miúdas que me umedeciam as pestanas foram pouco a pouco me fazendo chorar também com as lágrimas dela. Foi uma graça vê-la pressionando a gaze encharcada contra minha testa que minava sangue: “Pablo, Pablito, meu amorzinho... volta ! E-eu não sei o que faria sem você comigo, benzinho.”
Voltei para ela. Mas desejei daí alguns meses que eu tivesse morrido ali mesmo. Um traumatismo qualquer que ferrasse meus miolos já ajudaria a atenuar o sofrimento que aquela maluca me causava. Perder-me, para ela, era ficar sem mimos; para mim, era a liberdade absoluta que eu negociava com meu coração a juros altíssimos em nossa infinita guerra cambial.
No dia em que tentei fugir, se não me falha a memória, dei com Giselda se enrolando com um garotinho de uns dezessete anos na rua da mamãe. Era um mocinho magro, de pele transparente e, de tão desajeitado, mal sabia o que fazer com aquele corpo interminável e farto. Doeram-me as vísceras quando passei do lado olhando-a gargalhar com os beijos da criança no pescoço. Ah! Isso fez-me lembrar dos tempos da escola secundarista quando a vi naquela multidão curiosa e tivemos nossa primeira conversa: um beijo sem saliva que fez brotar nos meus lábios seu batom arroxeado de menina rebelde. Linda e inadequada como mandava o protocolo. Fora ali meu primeiro passo errado, que decretei minha sentença, que decidi viver na ilicitude do amor moderno. Não preciso dizer que o trago de nostalgia concentrada arrebatou-me na manhã seguinte para seu colo impaciente. Afinal, vinte e dois anos de história não são para qualquer machão ou moleque que se vê em posição de querer alguma coisa com minha soberana. Tolos, todos eles. Merdas, todos eles e eu.
___ Pablo, eu não tenho o dia todo pra ficar acarinhando sua nuca e ouvindo mil soluços de criancinha! É bom crescer e pensar direitinho se vai voltar pra mamãezinha e me deixar nas mãos dos “trogloditas”. – eu os chamava assim mesmo sabendo que ela não sabia o que queria dizer, e me inquietava para poder soltar mais insultos que inauguravam mensalmente na firma. Era ótimo!
Todavia, a essa rotina de novos amantes eu me adaptava e moldava como podia, dava meus jeitos e também não ficava atrás. E foi com Clarice que acabei ressuscitando uma Giselda que julguei e condenei no quinto ano fundamental. Fui até ela numa segunda-feira de 36º tentar receber meu acerto, meus benefícios dos serviços de saúde e um “abono dor de cabeça”. O médico, até onde tinha conhecimento, era o cardiologista, mas fui saber mais tarde que esse era um tipo de doutor que não mexia com esses trambiques de amor, búzios ou voodoo – então me contentei com a aspirina.
Entrei no apartamento do mesmo jeito de sempre, esperando ouvir uma voz masculina seguida de uma risada que escondia as mais perversas intenções. Gargalhadas que sinalizavam todos os desejos secretos, que expunham o impronunciável da mulher: a linguagem do corpo, as inclinações, o golpe do cabelo e a histeria estratégica de fêmea resoluta. Me interpus à porta de correr e vi-a ainda de lingerie rendada passando o lápis de olho que dei de presente com uns trocados do ônibus e divisei um vestido escuro dependurado na cabeceira da cama onde tanto nos amamos, digo, eu a amei.
__ Chéri – ela olhou-me atentamente pelo reflexo do espelho como se já soubesse da seriedade da situação - eu vim dizer ‘tchau’.
Era simples assim o pedido, a concessão, e eu sequer ensaiei antes como praticava nas minhas inúmeras juras de amor que aos trinta ainda me embaraçavam o estômago e faziam suar.
__ Está bem. Pode ir assim como está, Pablo, mando suas coisas para a casa de sua mãe pela manhã. Agora estou atrasada para conversas longas e choramingos insuportáveis. – ela reunia suas coisas com uma velocidade inacreditável e ia empurrando tudo para uma bolsa que devia caber só o batom e os chicletes de menta. Quanta indiferença havia nela! Talvez pensasse ser mais uma das minhas pirraças em que coubesse o adjetivo imaturo ou infantil; que em dois dias ou menos eu voltaria como cão domado; que em instantes eu me entregaria de novo à minha senhora de escravos.
__ Não. Eu não estou indo para a casa da mamãe, Giselda. Estou indo ficar com a Clarice.
A sobrancelha de fera ferida ergueu-se em reação e vi seus olhos analisarem-me centímetro por centímetro, medindo talvez a proporção de verdade por volume de ser. Isso acelerou meu coração, que preparava a isquemia, o edema, o derrame ou o piripaque que minha cachola não soube fazer no dia da panela que ela arremessara em mim. “Vamos, camarada”, eu pensava, “é agora que você pára de funcionar e faz o trabalho sujo.” Nada. Estava lá, batendo num ritmo controlado e intenso. Giselda agora se enfiava no vestido, desajeitada, e arrumava o chapéu enorme no topo da cabeça. Toda de preto, como jamais a vi antes.
__ Haha – uma risada triste e pouco entusiamada foi ouvida – minha mãe se foi, Pablito. Estou sozinha agora.
Meu sorriso amarelo se fez quase que imediatamente. Uma cachoeira de sensações veio me cobrindo a razão e solubilizando a determinação que acumulei antes de deixar minha casa. Mas eu não amava a tal Clarice; era um capricho de macho insatisfeito, enciumado e vingativo. Quiçá uma invenção ! Encontrei-a no bar onde costumava chorar mágoas – o bar do Raul. Lá tocavam uns sambas dos anos 30 que eu gostava de escutar e a cachaça era barata. Vi-a sentada e, frustrado com Giselda, lancei-me na jogatina perigosa. Ela não me trouxe as poucas alegrias que Giselda só em pensamento cuidava de me presentear, e aquele choramingo cinematográfico, sem lágrima ou funguinho, embora fosse o que fosse não deixava de me estremecer a decisão. Sozinha ! Fiz-me sério, arquitetanto na mente o sermão que tanto esperei para externar. “Ora, sua...! Vê como me sinto agora? Sempre do seu lado, sem qualquer reconhecimento ! Sempre como um carrapato, sugando sua energia, sua paciência... Giselda vou me embora já e lhe desejo solidão! Quero que conheça as tantas torturas que ninguém ousou lhe apresentar. Torturas que eu suportei por um amor doentio!”
Não saiu-me nada além de um suspiro. Tudo foi rápido demais. A aba do chapéu imenso acertou minha cabeça e recebi em seguida um beijo no rosto que provavelmente manchou-me as bochechas. O salto alto da minha dona ia marcando os degraus da escada até nada mais se ouvir. A porta do saguão de entrada bateu forte, como esperado, e o ronco do motor de Pedro Juán ecoou em todo o bairro. Era minha rendição. Ela sabia que quando voltasse eu estaria lá, assistindo a um filme qualquer recém comprado, esparramado no sofá seboso com um bilhetinho na mão.
Sempre fora assim, e não tem por que mudar.
sábado, junho 11, 2011
Parcimônia.

Blam ! Abriu a porta do apartamento e logo bateu-a trás de si - dando aquele efeito heróico de saloons dos filmes de faroeste; estava entreaberta. Esperou que as pupilas se acostumassem àquele breu característico dos primeiros andares e inspirou lentamente os odores da sua morada como que querendo detectar o invasor traiçoeiro e parasítico das suas intimidades: farejava Sandro, o homem exalando aquele perfume cetônico nojento que ela mesma dera de presente. Custara pouco, sim, a essência, coisa das lojas de quinze pesos - para menos -, mas que valera o jantar a pão francês, os tocos de vela de citronela e o gás que acabara enquanto pré-aqueciam o forno antes do parabéns.
Fora ali, no santuário desorganizado e de paredes leitosas, que construiu seu mundo, suas lembranças sonoras, sua carga mais torturante de corações partidos e boleros sem par. Prescrutou com os olhos imensos a sombra e a silhueta de seu domínio, deixando o vento vindo da janela sem grades borboletear os cabelos desgrenhados a fim de sustentar sua pose de desleixo caprichado, vaidoso, ou qualquer coisa que as mulheres fazem para ficarem mais bonitas 'sem querer'. Rosa não o vira lá senão seu cheiro pairando feito pequenas plumas, digo, feito pequenas bolhas de sabão no ar. Se saísse para tentar achá-lo, não seria surpresa dar com o moço, a garrafa de cerveja quente e um mundaréu de cigarros apagados em torno e pela metade na escada imunda. Era um contraste de pura desgraça o saco de ossos, o trapo ignóbil que se tornou seu amor de instantes, de quase nada, dos minutos fugazes de inconsciência e tédio. Seu amor luxurioso e sujo, mas amor. Amor que, agora quiescente, lhe fervia os lábios desnudos e ruborizava a face desgostosa com sua podridão de ser. O que antes lhe era uma perfeita terapia, um afago aos dias difíceis pelos quais passava quase que 367 dias ao ano, transmutou em pesadelo e a assombrava com as lamúrias da carteira vazia e dos beijos que não mais recebia. Ela ? Beijar aquela boca porca de botecos sem higiene ? Beijar aquelas putas baratas, infectadas com o terror das ruas frias, com o vírus da besta, com o toque da carne ? Jamais !
Nem sequer lhe lançaria palavra. Só o olhar, que sua mãe ensinara ser mais pesado. Também, dizer-lhe que sentia-se incompleta, decepcionada... quanto eufemismo ! Ao único que sabia da sua condição, um bichano magricela e de educação dubitável, sobrou-lhe um veneno na tigela de atum que o levou para o outro lado do véu em minutos. Morreu agonizando, miando perdão pelos crimes não cometidos; e Rosa, que não se deu sequer ao trabalho de enterrá-lo no terreno baldio ao lado da construção cinquentenária, enrolou-o num jornal qualquer da semana anterior e o lançou com toda a indelicadeza que cuidava esconder na caçamba amarela e enferrujada da rua Tristán. Mal sabia ela que enfrentaria por dias a fio o cheiro da carne putrefata e dos vermes asqueirosos roendo o bichano, transformando-o em mosca, em sapo, em cobra e de novo em verme. O lixeiro só passava às quartas, quando passava; e era manhã de sexta quando o bicho se despediu com o coquetel do kit de química que roubara da dispensa de sua mãe. Isso tudo se somava à fúria de encarar aquele Sandro-quase-cadáver cuja saliva turva escorria débil no canto da boca. Estava lá, naquele pouco resolvido corredor onde a poeira encontrava ambiente propício para se estabelecer, reproduzir e colonizar. Lá, onde os esquecidos e desmoralizados achavam seu refúgio. Lá, onde o homem da sua vida renunciou seu posto para adorar as muitas rainhas que ninguém coroou. Mas ela, que nunca fora aristocrata de coração algum, resistia pouco a pouco, petit a petit, a abrir a boca, ignorar os bons ensinamentos de sua mãe e libertar seus mais petulantes demônios. Vomitaria sua dor inteira ali mesmo, cuspiria sua alma até que contaminasse a última célula de Sandro com o rancor mais sádico que escondia naquele sorriso doente de boa menina adestrada a resignar-se a tudo. Deixaria-o saborear, em seus instantes de lucidez, que eram raros, a dor e seu gosto amargo. Porque as coisas - dizia ela aos desavisados - são rápidas, se desprendem fácil e logo morrem. Renascem da frustração, fecundam o arrependimento e voltam a apodrecer.
Seu peito farto inflou um pouco mais na penumbra e a indisposição do estômago ajudou-a a regurgitar as palavras mais severas que lhe passaram à cabeça:
__ Verme asqueiroso, medíocre, não me apareça mais aqui ou lhe expulso feito cão arruaceiro ! Seu parasita ! Aproveitador ! - o manancial de lágrimas de Rosa já secara há um tempo e, embora quisesse pôr um pouco de sentimento naqueles insultos carregados de sotaque portenho tão suaves, tão previsíveis, o que lhe saiu foi uma voz trêmula que se aproximou de um gaguejo até engraçado.
Sentimento não havia de fato, se quiseres saber. Morrera com o intemperismo, lixiviado pelas lágrimas que não conteve e pelas tantas garrafas baratas de bebidas irreconhecíveis. Se fosse conhaque, tinha gosto de melancolia; se fosse gim, tinha sabor de fracasso; ou os dois. E, dê por onde dê, não era dela o fardo maior - pois superara sua tolice sem saber como ou porquê - mas dele, a quem dedicou seu frasco de melhor perfume, o vestido reservado para a mais aguardada festa de mentira e a maquiagem mais demorada que cansou até mesmo a penteadeira, cuja luz enfrequecera no dito dia. Era dessas lembranças que vinha a reação latente do coração já frágil, que pulsava manso em seu esforço comedido, econômico.
quinta-feira, maio 19, 2011
Berro de cão mudo.

Se movia-me arrastando os lábios, percorrendo e procurando seus braços magros e agudos, testemunhava uma selva de pelinhos erguerem-se atentos para meus próximos passos errantes, junto com arteriazinhas finas que se alongavam, esticavam e dilatavam: era o nascer de seu rubro excitar. Mais um a frente e eu era sua, mais um para trás, era meu - era nosso jogral particular das madrugadas insones. Despropositadamente, tropeçava em sua boca vermelha de tão doce e prendia-me entre seus joelhos que esmagavam-me como que negociando uma violência que pusesse à prova meu desejo; se já não bastassem aqueles bofetões às escuras ou os beliscões sem razão à espera do elevador cujos ruídos faziam hesitar o mais decidido suicida. Nosso ninho era uma absoluta desordem: fluidos, panos úmidos, gravatas (que para nós eram vendas), insegurança, dor e o infinito que populares nomeavam paixão.
Habituada a fazê-lo sempre após nosso ritual, levantei-me vestindo a camisola furta cor que tanto gostava de admirar; depois que senti o frio se apoderar das minhas extremidades e em seguida de todo o corpo, enrolei-me em um roupão de seda-vinho como das novelas nacionais. Mirava de pé a lua minguante pela persiana empoeirada - distraída, com cara e voz de criança - e a fumaça que partia preguiçosa de seu cigarro amentolado enchia o ambiente, criando uma dimensão sombria e de cômico terror barato.
__ Tsc, você aí deitado está me lembrando o Demétrio com aquelas filmagens indecentes. Está para existir menino mais bobo ! - odiava a minha voz quando ela ressoava por muito tempo sem réplica.
Você sabia bem disso. E era claro que tocar no nome de Demétrio seria torturar-te por mais alguns anos; contudo você manteve a pose de quem supera tabus e soprou a última baforada antes de apagar o filtro, deixando um sorriso escapar pré-maturo no canto da boca.
__ Eu não assisto às besteiras daquele moleque, Gabriela, você sabe. - declarava isso como se me contasse de um escândalo político qualquer que vira no jornal de sábado. - Posso apagar a luz ? Não gosto de me enxergar vulnerável como estou agora.
Você adorava essa palavra, justificava todas as suas angústias fantasiosas. As sobrancelhas arqueadas davam o tom antipático do discurso e eu não conseguia disfarçar a raiva infantil que nutria quando virou-se contra mim exibindo as costas nada musculosas e as costelas fracas que morriam nos quadris pontiagudos. Era sempre assim sua conduta: lembrava uma serpente. Ríspida, objetiva, letal. E dessa víbora que interpretavas, vi acender o abajur de seu criado e um oceano em projeção nascer devagarinho no seu corpo seminu. Hipnotizada, ali fiquei observando os peixinhos sem qualquer outro movimento, eram seus pensamentos mergulhando no universo que era você. Depois vi as estrelas-do-mar, as algas verdes desenhadas com pressa e aquela ciranda que girava cada vez mais rápido, te colorindo de azul, de amarelo, de sono e de verde-limão. Era lindo ao seu jeito, com aquela mansidão felina e ar de despreocupado.
__ Pare de me olhar com essa cara de horror, sua boba, está me dando arrepios.
Uma gargalhada seca seguiu-se e seu peito se encheu com um suspiro longo que o derrubou para o plano dos sonhos - dormira. E eu odiava quando adormecia no meio de uma quase-conversa.
N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem.
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