De belas mentiras fazem-se os belos contos. De uma bela vida, cálida e possessa dão-se as fantasias inspiradoras.
sexta-feira, agosto 26, 2011
Metástase.
quarta-feira, agosto 24, 2011
Cartas ao nosso anonimato.

18-07-86 - Hospital
Querida,
hoje eu resolvi deixar tudo assim, disperso, incoerente, caótico. Como de fato não vivo dia por dia com intensidade alguma, não importa se o dezesseis está antes do três ou se julho - no meu calendário - antecede maio. As coisas não precisam de uma cronologia adequada; deixa-se ir assim, sem pudor, e dane-se. É, tudo o que eu mais desejo é dizer isso para o mundo. A minha amargura é tamanha que mesmo as palavras simples me doem ao sair: obrigado, perdão e com licença se aposentaram há tempos do meu vocabulário. Me comunico em urros mal-humorados e ai de quem não entender.
Tudo está virado. Logo eu, tão falante, tão seguro! Por enquanto, só a vida em ficção, nosso amor platônico e aquele filme do Coppola que põem pra passar aqui têm me feito completo. Apostei em estrelas de mentira, em sóis distantes demais e perdi. Foi a beleza sedutora que me enganou, não você.
Saiba que não é questão de suicídio, desistência ou falta de vontade. Já não há mais motivos e eu não vejo utilidade nessas fugas permanentes. Ainda mais na idade em que estou, sinto-me em absoluto sono, cansaço e invalidez - não tenho energia para cartas de despedida e tiros no peito como o biruta do Vargas. Poderia ser um cadáver, que não saberia. Poderia ser um defunto e todos me abraçariam, trariam flores e me olhariam como homem digno. E falo isso porque a morte traz dignidade junto das desgraças: "Oh, puxa, André foi um homem e tanto!"; "Ah, que falta nos fará o Papa!" e por aí vai. A morte, por assim dizer, banaliza o coração pulsante e ri de qualquer um que ouse desafiá-la. Mas também traz boas coisas, apesar de meu limite há séculos já ter ido para o espaço e não ter como resgatá-lo dessa órbita inalcançável.
Agora percebo como é fugaz a nossa importância. Um tiro seco em peito aberto que me abriu os olhos para a concretude desconjuntada do mundo. Estar aqui ou deixar meu corpo desfalecer feito quebra-cabeça é uma ambigüidade abusada. Estando presente, já era pura ausência e - preto no branco - minha ausência não era notada. Grande coisa essa morbidez sádica. De toda maneira, tinha de estar lá, sempre postado como bom homem.
Eu realmente não sei o que devo fazer. Era, segundo minha lei, para tudo estar em seu devido lugar, pois, assim, a hesitação de deixar esse espaço e essas verdades não viria à tona. A certeza de criar e destruir é o que move os homens; e me move também. Ter a decência de me fazer como for - quadrado, retângulo ou linha - e, se insatisfeito estiver, botar-me em qualquer saco plástico e recomeçar até que alguém recicle: isso é viver com as chances e os azares. Contudo, essa prática é pouco corrente entre os meus e o fato é que lixo não retorna para a superfície; sedimenta e morre enviesado em seus próprios percalços até sumir; quando some. Mas não dá. Ser finito e irrecuperável é o humano. E eu, sem minha bússola, não sou nada mais que um itinerante. Minha dificuldade, para fins de comprovação, é ser comum e alimentar essa colônia mal sucedida de formiguinhas bem adestradas. Minha indigestão começa ao respirar o produto do trabalho alheio e ter a quem fazer considerações; ter de agradecer de olhos baixos e respeitosos as enfermeiras mal pagas e os cuidadores preguiçosos até que seus egos fartos inflem e me espremam contra as paredes elásticas até que essas se arrebentem.
Pois vá, minha querida Anônima. Trabalhe, ganhe, doe, lute. Seu pó, para sua infelicidade, não terá essas etiquetas, mas asseguro-lhe que – se sair daqui com o sorriso estampado e o termo de alta - isso não a impedirá de ser pó. Um pó de gente, que não fala nem se apresenta. Só descansa. Descansa suas conquistas e revive seus fracassos. Deixa-os borbulhando na memória dos teus e depois de digerido se torna vaguidão. Pois assim, fracasso por fracasso, tudo se molda como deve ser - infértil e fétido até que definha e os vermes da idéia vêm se alimentar. Roem cada camada e adentram pouco a pouco o arcabouço da intimidade. Te ferem e maculam até que não importe a vaidade para você tapar com as mãos o que te enrubesce as bochechas gordas. E assim é a dinâmica polvorosa que passa desapercebida nos nossos dias.
Disse-me um senhor daqui do hospital que o homem não foi feito para derrota. Tsc, quanta petulância. Talvez esse homem que pôs tanto significado numa frase de efeito não tenha enfrentado essas cadeiras dos infernos e a dor dessas agulhas filhas da puta que me picam de segundo em segundo. É assim o dia inteiro, meu bem, remédio atrás de remédio, e analgésicos que não acabam mais.
E é assim também que o dia termina: não há mais nada a se fazer. Eu não me suporto como antes, minha pele está horrível e minha voz já não disfarça as dores contidas. Os olhos marejados começam a gotejar no assoalho e, na minha pouca roupa, já vejo meus ossos cutucando a costura velha a ponto de rasgarem-lhe aos pedaços. E enquanto isso, tenho de ficar de olhos fechados, porque o trem passa rápido e ruidoso acima de nós. Imagino daqui de longe uns meninos olhando maravihados pela janela, uns adultos dormindo um sono perturbado. Sacoleiros, escritores e desempregados disputando um espaço na estação. Roqueiros de bermuda, com camisetas suadas, concorrem a prioridade com grávidas que estão a um passo de explodir em quem estiver por perto. Jornais populistas resumem o fim de semana na segunda-feira de futebol e menininhas vaidosas retocam o batom vermelho em lábios ressecados. Suas unhas, mal feitas; o chão, podre e imundo; e o ar, cianótico feito só, me sufocando e instilando veneno. Todos juntos para me compor estatelado nesse leito fedido. Os hospitais, sem dúvidas, são moradas provisórias daqueles cujo destino é o inferno; como que um aperitivo de toda a podridão e os excessos sulfurosos que lá se encontram. Os bons homens, esses de vida exemplar e conduta impecável, certamente morreram sós em camas aquecidas ou nos braços e afagos das esposas - foram felizes para o ‘céu’.
Acontece que aqui é ordem atrás de ordem: "Feche a porta, não tente entrar." Acelere de novo a maca: lá vamos nós. A claridade e as ferragens entrecortando o silêncio fazem a trilha sonora. Isso aqui nunca foi santuário de coisa alguma. E de novo: "Feche a porta; não tente sair, senhor. Na próxima estação tem cabos e fios de alta tensão. Será um instante breve: um choque. Se acabou sua viagem: fique atrás da linha amarela ou dentro do saco preto. Lá atrás."
Dê seu adeus e, se não tiver, dê a partida e lá vamos nós outra vez.
Já me cansei de mandar cartas à prefeitura para desviar a linha férrea que passa aqui atrás da minha ala de internação. Se não chegam até o gabinete do todo-poderoso, terei de ficar reclamando contigo por meio de quinze parágrafos e tal.
Tenho que dormir agora por causa do jejum restrito dos exames de amanhã. Tomara que sirvam aquelas bisnagas na hora do lanche porque suspeito que a sopa esteja estragada desde o final de semana. Se cuida e até sexta-feira.
Com amor, de seu eterno André.
A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog http://porleonardo.blogspot.com/.
domingo, junho 26, 2011
Polígonos.
Tudo foi culpa da Giselda, pra variar, aquela doida. Dessa vez - e não que não seja hábito da moça - surpreendeu-me com um insulto novo e chamou-me "calhorda infantil". A vizinhança inteira de olhos arregalados ouviu; meio óbvio vindo daqueles enxeridos. Acontece que sempre fora do feitio de Giselda perder horas conversando com os burguesões de Fundo Céu para captar aqueles termos chulos e pomposos que só eles entendiam nas festas em que ela ousava comparecer sem convite e com o vestido decotado desviando atenções. Memorizava-os com maestria e guardava-os na ponta da língua para usar deliberadamente com qualquer um. Às vezes, até sem contexto usava-os, porém não fazia muita diferença quando falava comigo, já que não entendia muito bem senão pela agressividade no tom de voz. Mas, voltando a mim, como sempre trazia comigo na bolsa o pai dos burros (e isso eu não escondo ser), assim que ela forçou a porta nos meus pés relutantes em mantê-la sob meus cuidados, resgatei-o do fundo da bolsa daqueles tipos assim e li o tal termo suntuoso na cento e vinte e nove, coluna dois: "Cruzes, Gi, onde andou aprendendo essas coisas grosseiras?"Eu sabia de onde vinha, é claro, perguntei por etiqueta. Havia tempos eu a seguia depois do expediente para testemunhá-la dependurada no pescoço de Pedro Luís, o mulato de sotaque cubano, corpulento e charmoso sobre o qual, vez ou outra, ela criticava e lançava a língua venenosa. Era truque! Ele – centenas de vezes mais jovem e bem aparentado que eu - e seu terno que valia o meu salário a levavam para o esportivo que arranhava o motor para deleitarem da noite mais intensa de amor. Misturariam seus fluidos com a casualidade de uma torrada fria em cima da mesa e depois acabava para os dois e começava pra mim. Ela chorava, eu chorava e o ciclo reiniciaria com Pedro Juán, Vasquez e Andrei.
O infantil que ela pusera eu relevava, mas isso porque era tão comum ela me ver dessa forma, isto é, me ignorar como tal, que já não doía tanto quanto antes. Era tão incoerente aquela mulher que enjoava. Era tão petulante e altiva que desprezaria qualquer "bam-bam-bam" desses que aparecem de vez em sempre na porta dela atrás de você-sabe-o-quê. Era uma chatice descomunal ouvi-la tagarelar sobre os tantos namoricos que duravam três ou quatro dias. Eu fingia de desentendido, mas no fundo sabia que esse era o tempo exato para os idiotas conhecerem o que havia atrás daquele rostinho angelical, dissimulado e aquela boca desejosa. Linda, porém sádica – moralmente sádica! Eu, como bem dizem meus amigos da firma, não tenho lá o direito de relatar essa história. Não participo dela, como vê, ou pelo menos não no começo. Sou um coadjuvante que aspira figurar na mesa ao lado ou num erro irreparável de enquadramento. Sou a estrela dos esquecidos, o Nobel dos esperançosos e o gongo do perdedor. Mas sou alguma coisa, e isso já vale muito no universo de Giselda. Para ser sincero, tampouco sou eu quem está aqui escrevendo esse enxame de palavras difíceis. Para deixar tudo assim assim, chamei o Zé, que é letrado e fala bonito, porque a história que eu conto é coisa de gente mal amada que põe dor onde não tem.
Por fim, eu estava prestes a um desabamento. Minhas estruturas não mais suportavam a volubilidade recordista daquela mulher. Odiava-me na mesma proporção dos beijos que roubava quando me distraía. Lançava-me longe e depois laçava de volta para seu sofá antigo. Trocávamos carícias, deixava-me amá-la e depois arremessava a louça na minha direção, furiosa. No dia em que acertou de verdade e apaguei por um dia inteiro, as lagrimazinhas miúdas que me umedeciam as pestanas foram pouco a pouco me fazendo chorar também com as lágrimas dela. Foi uma graça vê-la pressionando a gaze encharcada contra minha testa que minava sangue: “Pablo, Pablito, meu amorzinho... volta ! E-eu não sei o que faria sem você comigo, benzinho.”
Voltei para ela. Mas desejei daí alguns meses que eu tivesse morrido ali mesmo. Um traumatismo qualquer que ferrasse meus miolos já ajudaria a atenuar o sofrimento que aquela maluca me causava. Perder-me, para ela, era ficar sem mimos; para mim, era a liberdade absoluta que eu negociava com meu coração a juros altíssimos em nossa infinita guerra cambial.
No dia em que tentei fugir, se não me falha a memória, dei com Giselda se enrolando com um garotinho de uns dezessete anos na rua da mamãe. Era um mocinho magro, de pele transparente e, de tão desajeitado, mal sabia o que fazer com aquele corpo interminável e farto. Doeram-me as vísceras quando passei do lado olhando-a gargalhar com os beijos da criança no pescoço. Ah! Isso fez-me lembrar dos tempos da escola secundarista quando a vi naquela multidão curiosa e tivemos nossa primeira conversa: um beijo sem saliva que fez brotar nos meus lábios seu batom arroxeado de menina rebelde. Linda e inadequada como mandava o protocolo. Fora ali meu primeiro passo errado, que decretei minha sentença, que decidi viver na ilicitude do amor moderno. Não preciso dizer que o trago de nostalgia concentrada arrebatou-me na manhã seguinte para seu colo impaciente. Afinal, vinte e dois anos de história não são para qualquer machão ou moleque que se vê em posição de querer alguma coisa com minha soberana. Tolos, todos eles. Merdas, todos eles e eu.
___ Pablo, eu não tenho o dia todo pra ficar acarinhando sua nuca e ouvindo mil soluços de criancinha! É bom crescer e pensar direitinho se vai voltar pra mamãezinha e me deixar nas mãos dos “trogloditas”. – eu os chamava assim mesmo sabendo que ela não sabia o que queria dizer, e me inquietava para poder soltar mais insultos que inauguravam mensalmente na firma. Era ótimo!
Todavia, a essa rotina de novos amantes eu me adaptava e moldava como podia, dava meus jeitos e também não ficava atrás. E foi com Clarice que acabei ressuscitando uma Giselda que julguei e condenei no quinto ano fundamental. Fui até ela numa segunda-feira de 36º tentar receber meu acerto, meus benefícios dos serviços de saúde e um “abono dor de cabeça”. O médico, até onde tinha conhecimento, era o cardiologista, mas fui saber mais tarde que esse era um tipo de doutor que não mexia com esses trambiques de amor, búzios ou voodoo – então me contentei com a aspirina.
Entrei no apartamento do mesmo jeito de sempre, esperando ouvir uma voz masculina seguida de uma risada que escondia as mais perversas intenções. Gargalhadas que sinalizavam todos os desejos secretos, que expunham o impronunciável da mulher: a linguagem do corpo, as inclinações, o golpe do cabelo e a histeria estratégica de fêmea resoluta. Me interpus à porta de correr e vi-a ainda de lingerie rendada passando o lápis de olho que dei de presente com uns trocados do ônibus e divisei um vestido escuro dependurado na cabeceira da cama onde tanto nos amamos, digo, eu a amei.
__ Chéri – ela olhou-me atentamente pelo reflexo do espelho como se já soubesse da seriedade da situação - eu vim dizer ‘tchau’.
Era simples assim o pedido, a concessão, e eu sequer ensaiei antes como praticava nas minhas inúmeras juras de amor que aos trinta ainda me embaraçavam o estômago e faziam suar.
__ Está bem. Pode ir assim como está, Pablo, mando suas coisas para a casa de sua mãe pela manhã. Agora estou atrasada para conversas longas e choramingos insuportáveis. – ela reunia suas coisas com uma velocidade inacreditável e ia empurrando tudo para uma bolsa que devia caber só o batom e os chicletes de menta. Quanta indiferença havia nela! Talvez pensasse ser mais uma das minhas pirraças em que coubesse o adjetivo imaturo ou infantil; que em dois dias ou menos eu voltaria como cão domado; que em instantes eu me entregaria de novo à minha senhora de escravos.
__ Não. Eu não estou indo para a casa da mamãe, Giselda. Estou indo ficar com a Clarice.
A sobrancelha de fera ferida ergueu-se em reação e vi seus olhos analisarem-me centímetro por centímetro, medindo talvez a proporção de verdade por volume de ser. Isso acelerou meu coração, que preparava a isquemia, o edema, o derrame ou o piripaque que minha cachola não soube fazer no dia da panela que ela arremessara em mim. “Vamos, camarada”, eu pensava, “é agora que você pára de funcionar e faz o trabalho sujo.” Nada. Estava lá, batendo num ritmo controlado e intenso. Giselda agora se enfiava no vestido, desajeitada, e arrumava o chapéu enorme no topo da cabeça. Toda de preto, como jamais a vi antes.
__ Haha – uma risada triste e pouco entusiamada foi ouvida – minha mãe se foi, Pablito. Estou sozinha agora.
Meu sorriso amarelo se fez quase que imediatamente. Uma cachoeira de sensações veio me cobrindo a razão e solubilizando a determinação que acumulei antes de deixar minha casa. Mas eu não amava a tal Clarice; era um capricho de macho insatisfeito, enciumado e vingativo. Quiçá uma invenção ! Encontrei-a no bar onde costumava chorar mágoas – o bar do Raul. Lá tocavam uns sambas dos anos 30 que eu gostava de escutar e a cachaça era barata. Vi-a sentada e, frustrado com Giselda, lancei-me na jogatina perigosa. Ela não me trouxe as poucas alegrias que Giselda só em pensamento cuidava de me presentear, e aquele choramingo cinematográfico, sem lágrima ou funguinho, embora fosse o que fosse não deixava de me estremecer a decisão. Sozinha ! Fiz-me sério, arquitetanto na mente o sermão que tanto esperei para externar. “Ora, sua...! Vê como me sinto agora? Sempre do seu lado, sem qualquer reconhecimento ! Sempre como um carrapato, sugando sua energia, sua paciência... Giselda vou me embora já e lhe desejo solidão! Quero que conheça as tantas torturas que ninguém ousou lhe apresentar. Torturas que eu suportei por um amor doentio!”
Não saiu-me nada além de um suspiro. Tudo foi rápido demais. A aba do chapéu imenso acertou minha cabeça e recebi em seguida um beijo no rosto que provavelmente manchou-me as bochechas. O salto alto da minha dona ia marcando os degraus da escada até nada mais se ouvir. A porta do saguão de entrada bateu forte, como esperado, e o ronco do motor de Pedro Juán ecoou em todo o bairro. Era minha rendição. Ela sabia que quando voltasse eu estaria lá, assistindo a um filme qualquer recém comprado, esparramado no sofá seboso com um bilhetinho na mão.
Sempre fora assim, e não tem por que mudar.
sábado, junho 11, 2011
Parcimônia.

Blam ! Abriu a porta do apartamento e logo bateu-a trás de si - dando aquele efeito heróico de saloons dos filmes de faroeste; estava entreaberta. Esperou que as pupilas se acostumassem àquele breu característico dos primeiros andares e inspirou lentamente os odores da sua morada como que querendo detectar o invasor traiçoeiro e parasítico das suas intimidades: farejava Sandro, o homem exalando aquele perfume cetônico nojento que ela mesma dera de presente. Custara pouco, sim, a essência, coisa das lojas de quinze pesos - para menos -, mas que valera o jantar a pão francês, os tocos de vela de citronela e o gás que acabara enquanto pré-aqueciam o forno antes do parabéns.
Fora ali, no santuário desorganizado e de paredes leitosas, que construiu seu mundo, suas lembranças sonoras, sua carga mais torturante de corações partidos e boleros sem par. Prescrutou com os olhos imensos a sombra e a silhueta de seu domínio, deixando o vento vindo da janela sem grades borboletear os cabelos desgrenhados a fim de sustentar sua pose de desleixo caprichado, vaidoso, ou qualquer coisa que as mulheres fazem para ficarem mais bonitas 'sem querer'. Rosa não o vira lá senão seu cheiro pairando feito pequenas plumas, digo, feito pequenas bolhas de sabão no ar. Se saísse para tentar achá-lo, não seria surpresa dar com o moço, a garrafa de cerveja quente e um mundaréu de cigarros apagados em torno e pela metade na escada imunda. Era um contraste de pura desgraça o saco de ossos, o trapo ignóbil que se tornou seu amor de instantes, de quase nada, dos minutos fugazes de inconsciência e tédio. Seu amor luxurioso e sujo, mas amor. Amor que, agora quiescente, lhe fervia os lábios desnudos e ruborizava a face desgostosa com sua podridão de ser. O que antes lhe era uma perfeita terapia, um afago aos dias difíceis pelos quais passava quase que 367 dias ao ano, transmutou em pesadelo e a assombrava com as lamúrias da carteira vazia e dos beijos que não mais recebia. Ela ? Beijar aquela boca porca de botecos sem higiene ? Beijar aquelas putas baratas, infectadas com o terror das ruas frias, com o vírus da besta, com o toque da carne ? Jamais !
Nem sequer lhe lançaria palavra. Só o olhar, que sua mãe ensinara ser mais pesado. Também, dizer-lhe que sentia-se incompleta, decepcionada... quanto eufemismo ! Ao único que sabia da sua condição, um bichano magricela e de educação dubitável, sobrou-lhe um veneno na tigela de atum que o levou para o outro lado do véu em minutos. Morreu agonizando, miando perdão pelos crimes não cometidos; e Rosa, que não se deu sequer ao trabalho de enterrá-lo no terreno baldio ao lado da construção cinquentenária, enrolou-o num jornal qualquer da semana anterior e o lançou com toda a indelicadeza que cuidava esconder na caçamba amarela e enferrujada da rua Tristán. Mal sabia ela que enfrentaria por dias a fio o cheiro da carne putrefata e dos vermes asqueirosos roendo o bichano, transformando-o em mosca, em sapo, em cobra e de novo em verme. O lixeiro só passava às quartas, quando passava; e era manhã de sexta quando o bicho se despediu com o coquetel do kit de química que roubara da dispensa de sua mãe. Isso tudo se somava à fúria de encarar aquele Sandro-quase-cadáver cuja saliva turva escorria débil no canto da boca. Estava lá, naquele pouco resolvido corredor onde a poeira encontrava ambiente propício para se estabelecer, reproduzir e colonizar. Lá, onde os esquecidos e desmoralizados achavam seu refúgio. Lá, onde o homem da sua vida renunciou seu posto para adorar as muitas rainhas que ninguém coroou. Mas ela, que nunca fora aristocrata de coração algum, resistia pouco a pouco, petit a petit, a abrir a boca, ignorar os bons ensinamentos de sua mãe e libertar seus mais petulantes demônios. Vomitaria sua dor inteira ali mesmo, cuspiria sua alma até que contaminasse a última célula de Sandro com o rancor mais sádico que escondia naquele sorriso doente de boa menina adestrada a resignar-se a tudo. Deixaria-o saborear, em seus instantes de lucidez, que eram raros, a dor e seu gosto amargo. Porque as coisas - dizia ela aos desavisados - são rápidas, se desprendem fácil e logo morrem. Renascem da frustração, fecundam o arrependimento e voltam a apodrecer.
Seu peito farto inflou um pouco mais na penumbra e a indisposição do estômago ajudou-a a regurgitar as palavras mais severas que lhe passaram à cabeça:
__ Verme asqueiroso, medíocre, não me apareça mais aqui ou lhe expulso feito cão arruaceiro ! Seu parasita ! Aproveitador ! - o manancial de lágrimas de Rosa já secara há um tempo e, embora quisesse pôr um pouco de sentimento naqueles insultos carregados de sotaque portenho tão suaves, tão previsíveis, o que lhe saiu foi uma voz trêmula que se aproximou de um gaguejo até engraçado.
Sentimento não havia de fato, se quiseres saber. Morrera com o intemperismo, lixiviado pelas lágrimas que não conteve e pelas tantas garrafas baratas de bebidas irreconhecíveis. Se fosse conhaque, tinha gosto de melancolia; se fosse gim, tinha sabor de fracasso; ou os dois. E, dê por onde dê, não era dela o fardo maior - pois superara sua tolice sem saber como ou porquê - mas dele, a quem dedicou seu frasco de melhor perfume, o vestido reservado para a mais aguardada festa de mentira e a maquiagem mais demorada que cansou até mesmo a penteadeira, cuja luz enfrequecera no dito dia. Era dessas lembranças que vinha a reação latente do coração já frágil, que pulsava manso em seu esforço comedido, econômico.
quinta-feira, maio 19, 2011
Berro de cão mudo.

Se movia-me arrastando os lábios, percorrendo e procurando seus braços magros e agudos, testemunhava uma selva de pelinhos erguerem-se atentos para meus próximos passos errantes, junto com arteriazinhas finas que se alongavam, esticavam e dilatavam: era o nascer de seu rubro excitar. Mais um a frente e eu era sua, mais um para trás, era meu - era nosso jogral particular das madrugadas insones. Despropositadamente, tropeçava em sua boca vermelha de tão doce e prendia-me entre seus joelhos que esmagavam-me como que negociando uma violência que pusesse à prova meu desejo; se já não bastassem aqueles bofetões às escuras ou os beliscões sem razão à espera do elevador cujos ruídos faziam hesitar o mais decidido suicida. Nosso ninho era uma absoluta desordem: fluidos, panos úmidos, gravatas (que para nós eram vendas), insegurança, dor e o infinito que populares nomeavam paixão.
Habituada a fazê-lo sempre após nosso ritual, levantei-me vestindo a camisola furta cor que tanto gostava de admirar; depois que senti o frio se apoderar das minhas extremidades e em seguida de todo o corpo, enrolei-me em um roupão de seda-vinho como das novelas nacionais. Mirava de pé a lua minguante pela persiana empoeirada - distraída, com cara e voz de criança - e a fumaça que partia preguiçosa de seu cigarro amentolado enchia o ambiente, criando uma dimensão sombria e de cômico terror barato.
__ Tsc, você aí deitado está me lembrando o Demétrio com aquelas filmagens indecentes. Está para existir menino mais bobo ! - odiava a minha voz quando ela ressoava por muito tempo sem réplica.
Você sabia bem disso. E era claro que tocar no nome de Demétrio seria torturar-te por mais alguns anos; contudo você manteve a pose de quem supera tabus e soprou a última baforada antes de apagar o filtro, deixando um sorriso escapar pré-maturo no canto da boca.
__ Eu não assisto às besteiras daquele moleque, Gabriela, você sabe. - declarava isso como se me contasse de um escândalo político qualquer que vira no jornal de sábado. - Posso apagar a luz ? Não gosto de me enxergar vulnerável como estou agora.
Você adorava essa palavra, justificava todas as suas angústias fantasiosas. As sobrancelhas arqueadas davam o tom antipático do discurso e eu não conseguia disfarçar a raiva infantil que nutria quando virou-se contra mim exibindo as costas nada musculosas e as costelas fracas que morriam nos quadris pontiagudos. Era sempre assim sua conduta: lembrava uma serpente. Ríspida, objetiva, letal. E dessa víbora que interpretavas, vi acender o abajur de seu criado e um oceano em projeção nascer devagarinho no seu corpo seminu. Hipnotizada, ali fiquei observando os peixinhos sem qualquer outro movimento, eram seus pensamentos mergulhando no universo que era você. Depois vi as estrelas-do-mar, as algas verdes desenhadas com pressa e aquela ciranda que girava cada vez mais rápido, te colorindo de azul, de amarelo, de sono e de verde-limão. Era lindo ao seu jeito, com aquela mansidão felina e ar de despreocupado.
__ Pare de me olhar com essa cara de horror, sua boba, está me dando arrepios.
Uma gargalhada seca seguiu-se e seu peito se encheu com um suspiro longo que o derrubou para o plano dos sonhos - dormira. E eu odiava quando adormecia no meio de uma quase-conversa.
N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem.
segunda-feira, abril 25, 2011
O Salto - Parte I
Inclinei a cabeça para meu lado esquerdo com a sensação de estar partindo o pescoço ao meio.
Queria saber de meu antigo rádio-relógio quanto tempo havia desperdiçado adormecido como um vampiro, porém não vi senão seu fio comprido que saía da tomada próxima ao criado e alguns caquinhos plásticos espalhados: "Quebrou, droga". Uma substância amarelada fazia dos meus cílios uma massa única e obstrutiva para a visão, um acúmulo que me enojava absolutamente. O ruído que antes se fazia lá fora iniciara repentinamente uma peregrinação pela casa, passando pela cozinha, sala, e, de acordo com a projeção mental que tinha da chácara, irromperia em segundos o corredor até se chocar contra minha porta. Se Dolores me conhecesse bem, leria o aviso de "Não Perturbe" - presente da loja de departamentos que me forneceu o jogo de cama, mesa e banho - que pendia tosco e engordurado na maçaneta metálica. Leria e se afastaria sem pestanejar, e eliminei logo a possibilidade de ser um animal faminto, pois que a organização e senso rítmico do que supus ser uma colher de pau e minha frigideira húngara confirmava que detrás da porta havia um ser humano com objetivos totalmente desconhecidos. Cessou. Um silêncio, um zunido se seguiu. Estremeci de excitação e suspense, aguardando a identificação do autor da barulheira infernal. A essa altura já havia me contorcido na direção da porta e arrastado metade do manto para o chão, fato que fez meus pés descobrirem-se e uma onda de arrepios percorrer meu corpo nu. Divisei, enfim, um giro moroso na maçaneta - que trazia as engrenagens da armação rangendo como moendas de cana: "Ieeec". Minha porta tinha desenhos curvilíneos randômicos, os quais caracterizavam um movimento colonialista europeu conceitual demais para o meu gosto, e aquele diabo de maçaneta, que prometi substituir por um que combinasse de fato com o monolito de mogno, tornava a peça um horror, embora o aço fosse símbolo indubitável da mais alta nobreza da época. Besteira.
O ângulo que se formava entre a porta e seu molde, a cada pequeno instante, ia tornando-se mais obtuso à medida que uma mão pequena e pálida a pressionava com esforço. Pude até mesmo ouvir o som desajeitado do indivíduo tentando conduzir a frigideira de meu maior apreço até postar-se paralelamente com a parede trás de mim e pousar os objetos no chão delicadamente, isto é, sem querer fazer barulho algum, como se eu não o visse. Era um menino que devia somar lá seus sete ou oito anos, a julgar pela estatura mediana e o rosto infantil intacto. Os cabelos, que me lembravam sorvete de creme, sinalizavam certo descuido, anti-higiene, e as roupas, tingidas pela terra avermelhada do solo interiorano paulista, apresentavam rasgos e furos em toda parte. Sua face ruborizada evidenciava a presença de sardas pequenas, agrupadas nas bochechas magras que desciam em cascata a partir dos malares agudos e regulares. Nas mãos, unhas enormes e imundas de terra me fizeram ensaiar uma careta imediata, porém um outro fato me chamou deveras a atenção: o vazio com que o guri olhava à frente, sem me notar, ignorando a respiração ofegante e meus olhos arregalados. Eram de uma cor de gelo, e também congelados; não orbitavam nem se dirigiam a direção alguma, inertes, meio que mortos. "Cego?" - com a voz branda e baixa questionei. "Não. - ele deixou assim pesar a palavra, a voz fina e estridente - sei que o senhor é um velho, tem cabelos brancos e as bochechas de um beberrão."
Jamais vi crianças com bons olhos, sobretudo aquelas atrevidas e mal criadas, e aquele diabrete deixou-me irado de verdade, pois velho eu não era (isso nunca!). Tinha boa saúde, somava lá meus quarenta anos e havia pouco que Celeste me deixara para compor o outro plano.
Diante do comentário grosseiro do menino, desviei a atenção e vi por trás de sua nuca, ao final do corredor, Dolores com um sorriso de satisfação no rosto. Ela lavava no tanque dúzias de lençóis e panos amarelados das minhas noitadas insensatas, dos quais eu jamais compreendia o uso. Após encerrar essa tarefa, alçou a mão ao varal, - ele servia, anos atrás, para que Ana e Lígia se divertissem nas brincadeiras infantis - e tomou nas mãos minhas vestes recém-lavadas. Sacudiu uma ou duas vezes a camisa branca, colocou-a nos ombros e rumou para meu cômodo com aquele bom humor infinito, intangível, aborrecedor. Sempre considerei mordomia demais a insistência da moça em me trazer o que vestir, principalmente por ser ela quem escolhia o conjunto do dia, dado o hábito de dormir nu que eu preservava desde a meninice. "Bom dia, sr. Borges, posso abrir as cortinas agora ?" - a voz de Dolores ressoava pelo quarto como o badalar do relógio da sala; e sua presença preenchia a escuridão onde eu me acabrunhava diariamente: era luz. "Sim, sim, abra, - respondi - mas cuidado com os cacos do rádio. Ele se espatifou essa noite sem que eu percebesse."
Antes de abaixar-se a fim de colher os fragmentos da minha "obra de arte" - como diria mamãe sobre um mal feito -, Dolores tomou a mão do menino e analisou-a com os olhos de rapina. Deixou-os perscrutarem toda a extensão daquela imundície - que não era exagerada - e lá ficou resignada, procurando no âmago do instinto alguma razão para advertir o moleque. De imediato, o que consegui ver no meu estado de pós embriaguez e torpor foi o semblante doce e maternal da servente transmutar-se, oculto pela densidade da penumbra verde-ácida, em rugas e sulcos faciais que jamais percebi estarem ali. A harpia em que ela havia se tornado colocou-se em postura de ataque e liberou numa descarga de fúria as garras mais afiadas na frágil prole que reagiu com um ganido risível e um galope que fez cantarem as tábuas bicentenárias de meu avô bicentenário. Das mãos do garoto, um carnaval de papéis manchados de suor e caneta azul foram vacilando no pesado ar até caírem acompanhados da minha atenção e de uma Dolores estática, que voltou como que de um transe ao trabalho de catar a sujeira que fiz e de recolher a frigideira que virara tambor.
"O que é isso, Dolores?" - minha curiosidade fulminante pareceu atingi-la em cheio. "Nada, nada, ele é só um moleque perturbado, 'seu Borges', vai entender" - o tom de voz choroso e hesitante denunciou as intenções da senhora de braços flácidos e volumosos que agora mostravam-se mais claros que a pele acre e os dedos gordos sem anéis.
"Estou falando do que estava na mão do menino, ora !" - quando me vi, estava gritando raivoso e a empregada compenetrada na tarefa doméstica se encolhia como se açoitada por alguém ou por algo.
"Não é nada com que se preocupar. É coisa da mama; quer dizer, coisa minha."
Depois de dizer isso, suspirou alto, esfregou os olhos com o antebraço e exclamou: "Sandro ! Venha aqui agora, diabo !". Deixou o quarto passando pelo corredor e arrastou-se para a área de serviços a fim de apoiar o ventre volumoso no tanque velho e imundo. Pra variar.
A saída da senhora me deixou num verdadeiro impasse. Minha voz não a alcançava e tampouco teria fôlego para gritar. Dolores esqueceu-se de me trocar e agora não posso ir à cozinha pegar minhas torradas com canela e beber minha xícara de café forte. É preferível voltar a dormir até que ela dê por minha ausência. Culpa do maldito moleque atrevido. E daquele papel picado nojento.
terça-feira, abril 12, 2011
Tabuada do sete.
Foi de um jeito veloz e inesperado, também, num abandono da ociosa e bem vivida infância, que comecei a frequentar uma escolinha no centro do município interiorano; não me recordo nitidamente da localização dela, se na rua da igreja ou atrás do bar, contudo um muro decorado com pinturas de alunos antigos circundava o lugar e tentava criar um ambiente harmônico sem muito sucesso, pois que a arquitetura de tijolos alaranjados e cheios de musgos passava uma imagem de descuido, de esquecimento, de horror. Não que eu detestasse absolutamente o lugar, ao contrário, todavia criticava aborrecido com minha mãe do porquê de não colocarem musgos também no muro, para ficar uniforme - ah, meu gosto por uniformidade !
Num dado período, seguindo um sistema confuso do magistério, as professoras titulares cediam lugar para substitutas estagiárias: era a oportunidade perfeita para que as formandas em pedagogia, voluntariamente, decretassem uma sentença perpétua de sofrimento, frustração e descontentamento. Eu, na última carteira ao fundo, ficava observando a tudo isso sem muito entender, porém era necessário recebermos a nova mestra com certa cortesia, isto é, sorrisos amarelos e arqueados ao máximo, embora os meus fossem defeituosos pela troca da dentição. Eu sorri, mas meus lábios tão logo desobedeceram e murcharam para não mais flexionarem. Satisfeita com a efusão generalizada, a moça alta e sardenta cumpria o roteiro a ela designado:
__ Classe, bom dia! Eu sou a Tia Michele e vim ocupar o lugar da Tia Antônia, porque ela vai descansar um pouquinho em casa mas volta no fim do bimestre com toda a certeza do mundo, tá ? - essa tal Tia Michele parecia lidar com um grupo de deficientes auditivos, pois que falou tão alta e pausadamente que parte da mensagem se perdeu quando uma outra era transmitida.
A turma, não muito empolgada com a nova integrante, se intimidou inicialmente, porém logo estava enviando maçãs, bilhetes, e se dedicando com afinco ao que era proposto em sala - bobos. Michele projetava seus dentes superiores à frente dos lábios e tentava uma dissonante, inocente e cativante gargalhada por longos quinze minutos; lá atrás eu me contorcia de pavor ao ver aquelas fendas entredentes mal escovadas...
__ Poemas ! Poesias ! Versinhos e mais versinhos ! Alguém aqui sabe o que são versinhos ? Douglas ? Rita ? - ela meneava entre os dois primeiros alunos meio delirante, extasiada; parecia dominada por algo de insano e apaixonado, como quando se traduz o prazer pela arte e inquieta-se por idéia promissora que quer esvair-se da memória - Ninguém, classe ? - e fez os olhos rebeldes saírem da órbita.
Eu conhecia os versos de minha mãe. Ela guardava muitos deles na estante do meu quarto; lia-os com suspense cinematográfico e remontava minhas caretas para reagir ao que Pessoa e Bandeira ousavam me revelar. Não tenho a pretensão de me vangloriar por isso; ora, eu nada entendia daquele linguajar adulto que, apesar de legível, era só uma nova maneira de comunistas trocarem informações secretas e garantir que o próximo ataque tivesse sucesso. Disso eu sabia, eu acho.
Meu desinteresse pelo discurso da senhorita era tamanho, que ergui, no prumo dos ombros de um magricela que me sucedia na fila, a recém comprada tabuada do sete. Apesar de impressa no verso de um papel fantasia cuja estampa parecia ter vindo do biquini da mamãe, me valeria o teste do bimestre e evitaria as tão ameaçadoras semanas sem gangorra. E foi aí que descobri o quão ruim era minha dramatização (e minhas intenções):
__ André, isso que você tem na mão são versinhos ? Leia para turma, vamos ! - Via os olhos dos coleguinhas se espremerem nas frestas, se metendo entre um e outro aluno inquieto para observarem a vermelhidão e o incêndio em minhas bochechas; também testemunhavam agitados a expectativa da professorinha se estender sobre mim como alguém numa espreguiçadeira em dias de verão.
Entre culpado e renitente, enchi o peito para acatar as ordens que de toda forma resultariam num berro de advertência:
__Sete vezes um é igual a sete, sete vezes dois é igual a quatorze, sete vezes vezes três é igual a vinte e um, sete vezes quatro é igual a vinte e oito... Sete vezes oito é igual a cinquenta e seis, sete vezes nove é igual a sessenta e três. Acabou.
Meu fôlego infantil era definitivamente limitado - eu bufava como um animal cansado - mas algo em mim alertava que o silêncio que se seguiu do fim traria, dali em diante, palmas de orgulho sincero, ovações e gritos emocionados. Eu estava quase certo. Quase.
Os pés da "Tia Michele" se fizeram pedra em segundos sobre o piso oco e carcomido pelos insetos; o sapateado na minha direção (ploc, ploc ploc), os olhos de terror desfocados, a saliência doentia das gengivas escurecidas, tudo isso me convencia de que eu não receberia as tão desejadas palmas para meu sucesso na memorização dos cálculos de nível 'difícil'. Um puxão, na verdade, dois ergueram-me violentamente da cadeira de madeirite - há muito moradia dos simpáticos cupins - e eu inspirei, inconsequentemente desarmado, o feromônio romano dos meus coleguinhas desejosos por ver meu castigo ali mesmo, na frente de todos, numa improvisada praça pública. Contudo, relembrando das minhas lições com a velha, digo, noiva cadáver, digo, excêntrica, digo, dona Zilene da Rua de Baixo e de um soneto que deixei repousar na manhã anterior sob da cigarreira da Mamãe, balbuciei, atropelando distraído o primeiro quarteto, a minha mais notável produção - inteiramente revisada por minha professorinha biruta e graciosamente umedecida pelas respeitosas lágrimas de progenitora orgulhosa. da Mamãe. Eu - cá entre nós - achava toda aquela parafernália uma breguice só: horrível. Porém vi-me livre quase que imediamente das mãos ossudas da 'substituta' nos três primeiros versos. Olhava-me perplexa, numa alternância indefinível de fúria e confusão que transmutou sua face deformada num risinho com um hálito insano e uma imagem bestial. Meu corpo vibrou com calafrios hiperativos e fez ranger a carteira onde ela me lançou sem muita violência. E lá fiquei, terminando o último terceto, com os olhos apertados, esperando o bofetão.
__ Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá !!! - abri os olhos meio desconfiado da cena que seguiria e vi, com descrença absoluta, Zilene com uma grinalda turquesa de quase três metros socando a mesa da Mariana e apoiando-se com a bengala no vão livre de onde seria instalada a porta do "Ciclo A Inicial". Usava um vestido de noiva num tom claro de bege com dezenas de penduricalhos de plástico em forma de gota; no seu rosto enrugado e triste, uma maquiagem magenta ou púrpura (eu não sei exatamente) reluzia impiedosa e fazia doer meus olhos e os de todos os presentes. Respirou fundo, fazendo um barulho que julguei ser o gemido do ar passando por milhares de obstáculos em função dos milhares de cigarros que consumia diariamente, como se concentrasse uma reflexão ensaiada a horas:
__ A entonação do último verso está completamente errada. Não é "Lírios e damas da noite para, enfim, lhe adornar" como se estivesse com constipação. - e interrompeu a fala, esperando de mim uma repetição.
A sala toda, como se aguardasse o momento a séculos, entoou uma gargalhada alta , infinita e ressonante, que ecoou por todo o bairro e me afugentou para o colo da minha heroína. O perfume barato de acetona e álcool que ela borrifava na roupa fazia-me espirrar , lacrimejar , e Zilene botou me no colo, descendo as perigosas escadas do colégio feito criança e espantando as pombas que pareciam zombar de nós com os arrulhos graves e incessantes. Eu chorava como nunca; e ela, quando olhei para o alto, botava um nariz de palhaço e sorria para a multidão que eu não conseguia ver com aquela imaginação limitada. Pedia para que ela me colocasse de volta no chão e Zilene abria meus braços para fazer-me avião, motoqueiro, dragão chinês e libélula.
Contudo ela não escondia a maquiagem que agora escoava para sua boca lamacenta e seguia o curso da lágrima mais triste e ao mesmo tempo mais feliz que alguém já se permitiu chorar. Zilene viu-se pela primeira vez; e eu a via também, linda e mais delicada que qualquer cisne ou lírio, que qualquer perfeição ou "belo".
sexta-feira, abril 01, 2011
Porcos em um tempo sem escala.

Olhando assim, de longe (de perto), a tira de tecido raro que circundava irregular os quadris só alimentava a atmosfera de pureza que emanava das amarras, das medidas, dos "cliques", do suspensório desatado e dos elásticos tensionados. Meus dentes rangiam - era toda ela uma unidade de segredos, e eu, ali, numa diagonal tímida feito Pinóquio que, não por mentir estória alguma, mas por fingir compor o infinito de bonecos de Gepeto, descrevia-a e projetava-a por capricho anônimo; e sentia espiar, fantasiar e silenciar.
O vestido despia nas costas constelações de milhões de pintinhas róseas, das quais eu inventava serem centenas de diferentes conformações. Elas remetiam despudoradas a Sagitário, Cruzeiro do Sul e Ursa Maior, mas, invariavelmente, viravam Três Marias que, fugazes, desapareciam no zíper discreto da saia e eu imaginava brincarem sapecas lá onde meus olhos não tangiam. Eram sem dúvidas as costas mais lindas que eu já vira antes. Eram espelhos sem imagem; eram confusão e caos; e ao mesmo tempo paz; e ao mesmo tempo horror; e ao mesmo tempo meus pesadelos - que não eram poucos.
Na boca, rápido e preciso, o bastão vermelho e feroz corria de um lado a outro. Meneava e marcava alegre os lábios miúdos, entreriscando os dentes alvíssimos, e me manchando de alvo e maçã, para que sua misericordiosa e delgada flecha atravessasse, indolor, feito Cupido e feito acaso, e me fizesse escravo.
Para ela, a moça do cotidiano, não que não houvesse fotografia e holofotes, pois havia de sobra lentes para olhar e olhar seus tenros seios, os dedos dos pés, os ângulos da face e a boca rubi - para os quais meus pensamentos orbitavam regular e diariamente como mosquitos à lamparina; contudo sua voz eu não capturava: era inaudível. Quando ruído breve lhe saía para agradecer a um idoso uma gentileza ou pedir licença a um transeunte de maxilar mais grosseiro que o meu, ouvia-se tudo: lamentações, suspiros, gritos, gemidos, seus chorinhos,minhas fortunas, e até os flertes bobos e inacabados que memorizava. Porque a moça do cotidiano era toda essa crise, toda essa ebulição dos astros do café da esquina, da escola primária e do sinal fechado. A moça do cotidiano era rainha do intelecto, do best-seller interminável de cinco tostões furados e o que há por trás dos temíveis óculos escuros. É meu ego, o meu clamor. É, sem dúvidas, a moça mais bela e mais horrenda que eu já vira antes; pois não existe e porque a inventei na mais fria e desimportante noite de março ou abril.
N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem.
domingo, dezembro 05, 2010
O átimo da palavra.

domingo, outubro 10, 2010
Havana - Parte II
É bem verdade que eu a conhecia desde muito tempo, sim, inclusive sua personalidade era tão previsível que as brigas tornaram-se raríssimas, quase inexistentes, uma vez que eu as evitava com o intuito de não perder o teto que ela me cedera com tanta generosidade. Eu não a via fazia muito tempo, pois, desde que sua família deixou a cidade em que morávamos para trabalhar em Havana, Beatriz deixou também a escola, local onde nos falamos pela primeira vez. Coincidentemente, quando fui para a universidade estudar Direito, encontrei-me com ela nas vias do laboratório de Farmácia. Conversamos brevemente e aproveitei para marcar um almoço após as aulas do turno da manhã - foi aí que me livrei daquela república repleta de malucos e ideários, todavia esse é um assunto sobre o qual evito falar.
Nossa amizade, contudo, jamais fora das mais estáveis, confesso. Lembro-me de um caso específico em que eu preparava o café e ela chegou de mansinho, meio que choramingando. Interpelei-a imediatamente para saber que diabos a fazia chorar, mas mais que isso: o que a fazia chegar às seis da manhã em casa. O sol perpassava as persianas, como sempre fazia a essa altura e distribuía o amanhecer a começar pelo quarto que eu ocupava. O cheiro forte de meu café sem açúcar poluía o ambiente e mergulhava numa nostalgia sem igual minhas recordações da meninice. Quando dei por mim, não mais dava-lhe atenção, mas, distraída e tagarela, Beatriz não notou minha desatenção.
A polícia não tolerava em hipótese alguma pessoas perambulando às madrugadas nas ruas escuras de Havana, e, na melhor das hipóteses, ela poderia ser presa por um gentil vigia. Bia deu inúmeras voltas para se explicar e não atingiu ponto algum que esclarecesse sua empreitada noturna, mas vi em seus olhos a culpa e a apreensão passiva de me encarar nos olhos. Eu, reduto de justiça e retidão e ela, quebrantável como os porcelanatos indianos.
"Não mais acontecerá, Andrei, fui descuidada, sim, porém estava segura na casa de Ana María." - escorados na guarnição da janela da fachada, seus quadris serviam de base para seu hábito de balançar a ponto de cair na calçada - meu drama diário e infinito. Eu não conhecia a mencionada Ana María, mas quando Beatriz fugiu para o quarto com o pretexto de tomar um banho que durasse horas tomei nas mãos sua bolsa para encontrar algum vestígio que identificasse seu paradeiro.
Quando deslizei o zíper incolor da bolsa esverdeada e contemplei seu conteúdo, uma vertigem colossal me subiu à cabeça. Vi o quarto escurecer, o teto surgir à minha frente com a lâmpada tremeluzente, além das tantas coisas que caíram da mesa vindas da bolsa. Uma arma, uma arma de fogo com aspecto rústico e raspagens na cabo pesou na tábua corrida do rol de entrada; a típica parafernália feminina de embelezamento trepidou e papéis, muitos papéis, os quais o ângulo em que eu estava não permitia ver, chocaram-se num embaralhamento agressivo. Desviei espantado o olhar para o portal de onde possivelmente Beatriz viria, contudo, para minha tamanha infelicidade, seus dedinhos dos pés, úmidos e inquietos, já testemunhavam a consequência de minha curiosidade. Ainda enrolada numa toalha carcomida pelos insetos do armário, ela adiantou-se para pegar os papéis, sem me fitar um só momento. Reuniu-os sem muito critério e os colocou na gaveta dos talheres, fato que me causou enorme confusão.
Ainda sob os efeitos da queda, consegui acompanhá-la reunindo o que havia caído ao chão e iniciando um monólogo desconexo sobre segredos e perigo iminente. Bia ergueu-me com enorme esforço pelas axilas e me sentou na cadeira encostada entre o balcão da cozinha e a divisória da parte social do apartamento. Empunhou a arma com voz infantil e brincou, apontando e sacundido na minha direção: "Bang, bang, bang, caubói". Torpe, sorri, e ela, já vestida, pergunto-me como e com que facilidade, bradou longe lá do quarto - "Tenho coisas a fazer agora. Retorno ao final da tarde. Cuida-te!" - Faltou-me tempo para me opôr à sua saída, pois as chaves, cerradas na fechadura, dobravam anunciando que ela já terminava o primeiro lance de escadas.
Meio recuperado, meio lerdo, corri à gaveta que guardava os talheres de cabo plástico e abri-a. Fotos e anotações, mais fotos e anotações. Eram homens de face conhecida e as fotografias, tiradas sem qualidade e cuidado alguns. Minha memória não cuidava de reconhecê-los. Eram... eram... eram políticos ! Mas que diabos aquelas coisas faziam na bolsa de Beatriz ? Logo ela, tão alheia a essas questões, e, droga, que maldita arma era aquela ?
Quando fui até a balaustrada em que ela gostava de se balançar, não a vi mais. Agora, tinha de esperar seu retorno.
Fui à mesa para ler o jornal, liguei o toca-discos com um bolero datado da adolescência de minha mãe e deixei minhas pestanas praticarem o tradicional ósculo.