quinta-feira, janeiro 16, 2014

Menino - 12/03/88 †

Dor imensa era de Ana e seus quinhentos pimpolhos. Grudados como coalas em seu vestido bordado de flores e abacaxis, uns choravam alto no bonde, urrando de fome e exibindo os narizes enlameados; outros, nem desmamados, rolavam o chão imundo e aborreciam o sono dos poucos passageiros de Fundo Céu que insistiam em usar a linha Viana para voltar do centro. Ana teimava no bondinho - já às vias de ser desativado e transformado em desimportantes museus. Era mais barato. Assim, poderia aplicar a diferença no leite de vaca com gosto de hipoclorito que ainda reservavam aos fodidos das redondezas nas vendinhas mal cheirosas do bairro do lado. O seu do peito, com sustância invejável quando jovem, já sinalizava escassez quando fora alimentar Giselda, a caçula, e agora temia perder as crianças para a bruaca da assistência social depois da denúncia dos vizinhos bêbados de tanto moralismo e boa conduta. A velha, com rugas marcantes e um humor ácido que amedrontava os pequenos, entregou, só no último mês, três cartas que passavam deslidas e desimportantes pelos olhos da mãe, que não dava parte para aquele teatro todo e tampouco era letrada para decodificar aquelas ordens, desordens e despejos. Claro que não era letrada, pois que trabalhava logo cedo juntando para seu almoço um pouco do lixo e fazendo serviços meio bobos pelos quais os vizinhos pagavam mais por pena que por necessidade. Ana sempre foi bem vista pelos patrões e um bocado alergênica às patroas. Ainda que quisesse acreditar que era bem reconhecida por rastelar bem os quintais a perder de vista e fazer os jardins um brinco nas mansões belíssimas, no fundo ela tinha clara noção que a fidelidade e seu pão vinham, é claro, do bom e velho sexo que aprendera com estradeiros em sua peregrinação até a cidade. Ela saiu com o irmão, já falecido, com seus oito anos, e para o interior nunca mais voltou. Seus pais plantavam na terra seca de deus, mas os rendimentos nem mantinham a cabra que ainda punha leite nas seis bocas da casa. Seu corpo dizia mais dessa história que sua memória pode contar, mas Ana nunca teve que engolir seco e se sujeitar a autopiedade e um choramingo de humilhação e infortúnio. Lá no seu sertãozinho o pai já profetizava a maldade que o mundo lhe imporia e mais uma centena de refúgios e bons pensamentos pra afastar a tristeza e a falta de força - só não lhe contou tudo, pois se despedira cedo: chaguismo do coração.

Como se não bastasse as inúmeras intempéries que arrastava em suas quarenta e oito primaveras, Sandro, o único que não tinha ido com ela ao centro vender muambas que encontrou revirando os rejeitos, - diziam os conhecidos malandros da cidade - estava mancomunado com os garotos da quadrilha e trafegava com uma pistola 45 desembocada na calça que comprara com os vencimentos da erva. Ana já o tomara antes pelo braço e fez o que pôde para tirar da cabeça da criança a fissura pelo dinheiro; mas os tempos difíceis no país compeliam até o mais honesto e reto entre os homens a torrar os putos com qualquer merda analgésica que trouxesse primeiro esperança, umas talagadas de rum e pusesse pão fresco na mesa empoeirada dos barracos - era coisa rentável. O pai de Sandro fugiu quando soube de sua vinda ao mundo, mas não era muito diferente da vida que leva agora seu herdeiro, e ainda ajudava com uns trocados que seguravam volta e meia o vazio do lixo e os tempos de frio. Traficava pesado com uns gringos que vinham pelo turismo até que sua cabeça rolou numa armadilha tão bem montada que rendeu aos policiais envolvidos na operação até medalha de honra ao mérito - e, mérito por mérito, cada um com sua fatia do bolo, ninguém soube de Ana, nem de seus filhotes a exibir as amídalas inchadas, chorosos, famintos e sem pai - nem filho, nem espírito santo. Era um caminho sumarizado esse que o moleque tomaria: o pavor de toda mãe pobre, solteira ou não, era o fato de só o encontro com o fim é que era capaz de libertá-los do que apelidavam de "esquema". E Sandro, nos seus quinze insignificantes anos, desenhara um bom plano, porém fora levado por ele e pela correnteza dos corpos d'água fronteiriços com três ensangüentados rombos na cachola, uma fagulha no peito e um bobo e nervoso sorriso de um lado só: traído por seus iguais a mando de um chefão talvez ameaçado pelo jeito que tinha o moleque para a 'coisa'. Foi achado tempos depois numa cidade vizinha, já transformado em comida de peixe e átomos; e a mesma sapa velha que vinha volta e meia tomar-lhe os pimpolhos veio também trazer a má notícia. 

Se fosse uma tentativa abortada de ser motivo de orgulho para sua quase-família, Ana interpretou como uma preocupação a menos e preferiu não rolar uma lágrima sequer para aquele mulatozinho metido à besta que quase abandonou perto da usina metalúrgica. Sandro seria seu sexto "aborto" e não doía mais essa questão como foi nas primeiras (tanto dor de sangue quanto do arrependimento), mas a imprevisível e humana piedade deixou uma marca, um recado, e ele viveu. Quando a assistente chegou à sua porta e disparou a notícia, Ana teve de fingir uma dor lancinante de uma bala no peito para que seu perfil com a gorda enxerida e imprestável não fosse ainda mais por água abaixo. Ela não queria se comprometer mais com aquele processo que só sabia alimentar frustradas mães que não conseguiam dar um filho sequer a seus maridos e tinham de subornar centros de adoção para roubar de umas e condecorar outras com o pretexto de estarem "salvando vidas". E os maridos, loucos e desnorteados com o tabu mais inquebrantável e vergonhoso da humanidade, saíam à deriva para germiná-los nas barrigas de pobres e fedidas moças que cuidavam dos jardins por pratos de comida e umas moedas. Fora assim com três dos sete animaizinhos esfomeados dos quais cuidava hoje - frutos de uma condição humilhante, mas, afinal, de subsistência, um ato de amor aos antecessores, sucessores e a si mesma. Ana achou que a filha da puta também quisesse "Sandrodefunto" para adoção. Ora bolas, se o jogo era assim tão agressivo, não seria surpresa que uma falsa-mãe o adotasse apenas para chorar no leito, comprando qualquer memória para saber como é. Mas o que ela queria era só os papéis do pirralho, que, para o estado, jamais existira, seja nessas burocracias de cartório, PSIU ou polícia; e foi enterrado com a sepultura de "Menino - 12/03/88 e uma cruz raspada numa pedra fosca e menor que um livro de bolso". Também, mesmo sem saber quando nasceu, alguém iria mesmo visitá-lo e levar aquelas fétidas flores carregadas de culpa, pesar e impotência ? Ana nem mesmo foi até lá... Soubera de um galpão abandonado que com toda a sucata que reservava em seus vazios corredores iria alimentar seus parasitas durante toda a semana. Esqueceu-se de Sandro. Passou.

A história de Sandro terminaria ou começaria numa noite seca e congelante de uma quinta-feira mal chovida. Ana decidira ir a um lado afastado da cidade e acabar com sua sina de parideira e deixar Sandro para apodrecer junto dos rejeitos da mal cheirosa firma de abate; o vento roçava seu ouvido com um gemido alto que só próximo ao mar conseguia-se ouvir; a moça viu e entendeu logo que aquela semente que dormia numa calma questionável para uma criança de poucos dias se misturaria às moelas, olhos e outros caquinhos duros de aproveitar na mesa e fim de papo. Mas, apesar da pouca educação formal, Ana sabia em que se transformavam as peças ossudas e molengas mal vistas nas casas de família e recordou do fato de que embutidos sempre estavam na mesa dos miseráveis pelo preço desprezível que tinham. E a ideia de Sandro virar jantar revirou seu estômago e trouxe uma náusea lancinante que a tombou sobre uma pilha de lixo e lá trouxe um pranto artificial e instintivo que lhe regou as bochechas magras e negativas pela fome. No entanto, aquela serenidade tão incomum do menino em vista dos que o precederam trouxe certo alívio na tola e eufórica mãe. De certa maneira, ela se confortou com a ideia de que o moleque havia congelado no frio cortante e que suas mãos não se sujariam mais - embora estas também estivessem dormentes pela falta de luvas e agasalho. Sandro seria mais uma vítima do tempo ruim, das forças de cima; e, ademais, qual sua importância para o formigueiro que passaria ali a trabalho e lazer ? Sandro combinava tão bem com aqueles sacos plásticos inchados de rejeitos que iria compor um belo cenário em sua manta escura harmonizada com a podridão que a cidade reunia naquele cantinho sem porquê. Camuflado até o dia seguinte, longe das fotografias e das conversas de bar, seria levado pelos fortes punhos dos homens do caminhão de lixo, que passariam recolhendo o que a cidade jamais conseguirá sustentar ou conviver. 

E, bem verdade, Sandro era exatamente isso: um fardo pesado e desnecessário para qualquer cidadão carregar. Oh ! Bela metáfora me ocorre: "Que cortem os lastros toscos desse balão e o deixem voar." Mas também o eram sua mãe, seus irmãos e outros que ele nem chegaria a conhecer. Sem testemunhas e escuro demais para intervenções divinas, ela estava na situação perfeita para ter um pouco mais de chance de sobreviver sem uma boca a mais para alimentar, porém seu coração amoleceu num gemido fino e baixinho do seu fruto ao pé do ouvido, e qualquer hesitação nessas horas (ela sabia por anteriores experiências) era suficiente para reprocessar as ideias e voltar pra casa com cabeça baixa, filho no colo e o bucho retorcido. Engraçado que, ao passo em que Ana descia as avenidas e os quarteirões às pressas, com medo do que lhe aguardava e do troco de deus, ela viu na penumbra Antônia, Kátia e Maria se dirigindo ao píer com embrulhos enrolados entre os braços empapados e cara de pavor, bufando aquele vapor sinistro do nervosismo que Ana sabia que também cuspira não uma vez, mas porque queria comer. De fato, era uma loucura voltar, e hoje, já lúcida, nada tira da cabeça de Ana que os passos que se seguiram na vida de Sandro até sua brincadeira de ser gente e tocar em dinheiro alto eram caprichos que, ainda rebento, ele guardou nas vistas e cuidou de tratar quando de mais idade. Ele teimou feito criança - mas para sua felicidade jamais soube que fora um crasso erro.

Sandro estava, apesar de tudo, natimorto. Só brincou de viver.

terça-feira, março 26, 2013

Há sempre um lado que pesa - Parte II



Hoje faz exatos 4 anos desde que André e Custódia tomaram os rumos merecidos que o Deus justo lhes deu. Tirando os quatro cumpridos, eles ainda haverão de passar uns 15 bons anos naquelas celas infestadas das mais cruas moléstias que surgem em São Carlos - a prisão que inventaram na província do sul dedicada a abrigar os mais oprimidos e famintos de nosso país. Não sei você, mas vejo isso talvez como a grande ironia para a situação dos dois. Torço, e me contorço por dentro ansioso, para que o corpo dele - e também o dela, não me importo - já não seja mais um santuário da individualidade e do eu-íntimo que filósofos e psicanalistas sacramentam. André, eu sei, já provou da crueldade dos homens pelo que me disseram os guardas de seu pavilhão aos quais paguei duas cervejas e um torresmo. Desembucharam  cada horror que não cabe aqui nessa confissão, forte demais; e Custódia, ah, essa sim eu fiz questão de visitar - com xale e lenço no rosto pra não me denunciar. Vi que sentiu nos ossos o rancor e o ódio que cada mulher encarcerada esconde por trás de boa pele e voz suave: eram animalescas no baixar do sol.

Não há como me solidarizar com o que eu tanto lutei pra reverter. Apartando, claro, Custódia, com quem jamais troquei palavra, passei uma vida inteira me fazendo espelho, quase gritando pra me fazer ouvir e André refletir minha imagem reta. E não é narcisismo, ora, todos em volta estão ainda vivos para confirmar minha estória. Eu, sim, era como papai nos seus tempos áureos de boa forma e muito trabalho, não ele, como mamãe bateu firme o pé e no peito pra dizer aos mais próximos. Parece até que eu via a família acabar em si desde então; antecipava cada mau momento e deslize de cada um que edificava - ironia bela que encontro agora - nossa própria ruína. Os dias iam frouxos no largo do tempo e minha mãe afundava densa e suave em sua depressão, deixando a inércia da mente ser parte integrante do horror que se tornava a casa: banheiros que se faziam baias de porcos, comida abrigando moscas e insetos inumeráveis visitando nossas roupas e trazendo todo tipo de peste para nosso "lar". A morbidez do lugar parecia estampada em cada centímetro dos móveis, roupas e jardim terroso. Perdíamos batalhas diárias para o álcool, a traição do papai e para o bom moço que aparecia a cada mês para dar um alô e deixar uma maçã daquelas bem vermelhas do mercado do Centro para a senhora amorfa esticada na cama vendo shows de televisão e as pupilas esgarçadas para o nada. Bastava, não é, filho da puta ? Um agrado catado em bons momentos pagava sua dívida com aquela que te deu do peito e pôs o universo pra puta que pariu pra te fazer homem... Que grande homem !

Hoje não tenho tantas notícias da mamãe. Depois que convidei-a, quase suplicando, que viesse comigo para Santana e ela devolveu logo um não seco junto de um tapa no rosto e um "covarde", percebi que André estava tão vivo em sua mente e coração que toda memória ligada a ele será um memória de esperança e ternura tão típicos de brasa e amor quanto pode ser o sentimento materno em sua manifestação mais instintiva... Nada lhe abria os olhos; nem mesmo um crime chulo e repugnante como aquele ao qual meu irmão se propôs por mera afirmação de seus limites. Contaram-me uns velhos conhecidos que ela está de vida nova, ajuntada com um velho da idade que papai teria e que tomou de volta agulha e tecido pra fazer sua renda. Perguntei onde estava a velha e disseram-me que ainda vive no nosso sobrado velho e, pelo que lembro, com um cheiro impossível de hibisco que só ela pra aguentar. Ela já era conhecida no nosso entorno e fazia quase que toda a roupa da vizinhança na época boa, antes de papai desviar. Depois largou. Virou lavadeira, as mãos descascando junto do vigor e meses depois teve de dar seu lugar e ficar de cama. Eu já fazia em torno de 110 palavras na firma, o que me permitia custear os remédios para o pulmão, o humor a base de comprimidos e o básico pra não morrermos de fome. André vinha aos sábados com a maçã quinzenal, para a qual ela exibia um largo sorriso e que praticamente devolvia sua plena saúde. Engraçado isso, é verdade, mas hoje já não fisga o peito como outrora me fez perder as forças.

Santana fica mais perto da cadeia de São Carlos do que Monte Azul, onde morávamos todos antes dos incidentes e que é o extremo norte de nosso grande e pobre estado. Por isso, deduzo hoje que mamãe -  analfabeta desde sempre -  não tem qualquer notícia de seu preferido, justo porque a costura não lhe dá tempo nem rendimentos para viajar pra saber de seu Andrezinho ou lhe retribuir as maçãs que lhe curaram da tristeza indissolúvel que as andanças de papai lhe trouxeram. Dadas as circunstâncias, devo dizer que há males que vêm para o bem, pois sei que ela não suportaria ver seu caçula violado e espancado pelas mais vis criaturas que lá dividem comida, cama e chuveiro com seu protegido. E não aguentaria nem saber que ele estava sujeito à higiene mais inumana que qualquer lugar da Terra consegue igualar. Uma prisão é o ensaio para o inferno, uma preparação leal ao que descreve a bíblia e o vigário, certamente.

Faz mesmo muito tempo desde que deixei nossa casa pra me acomodar longe do sobrado onde tanta lembrança ruim retumba entre garrafas batidas de papai e esquinas desertas. Mas, paradoxo infeliz,  meu sentimento de injustiça e ódio permaneçam os mesmos desde então. E por esses dias me veio um desejo incontido que me arrancou o sono infinitas vezes de dar a mamãe umas belas mentiras de presente de aniversário pra que seu coração repouse tranquilo a cada noite, pois seu travesseiro, tenho certeza, compartilha um medo e uma incerteza que, eu sei, são mais corrosivos que a própria perda... Mas não, decidi enviar a ela a própria reportagem destacada do jornal que guardo até hoje num fundo falso de uma gaveta: a verdade. Um ato vingativo, é claro, mas que destilaria múltiplas vezes toda a minha dor, misturada a ira e confusão que ainda visitam uns sonhos ruins. No dia em que saiu a sentença, Pedro Santo escreveu uma coluna apertada numa página perdida entre os classificados que falava da prisão de meu irmão; sem foto e com a palavra GOLPE bem negritada, pedi que a chamada tivesse a intenção de saltar aos olhos de um leitor distraído para ver do que um vizinho ou irmão é capaz de fazer. Planejei deixar o recorte colado a um papel qualquer, pra me poupar de ter que descrever e redigerir tudo no meu intestino moralmente saturado de todo aquele doloroso enfado: a última carta que eu terei de enviar, eu espero, mas jamais escrever...

Quando deixei a firma de Seu Calixto pra fazer minha vida bem longe daquela terra quente e banhada às formas de julgamento mais avessas da humanidade, o velho me deu de presente a máquina que usei durante o tempo em que lá fiquei, juntando pouco a pouco o que dava pra ir embora ou mesmo pagar um ônibus que me tirasse daquele inferno para algum vilarejo nos arredores. Pus na mala de minha partida apenas o que não me recordasse Monte Azul, mas senti-me impelido a fazer da máquina um amuleto da minha vitória e, enfim, soquei-a entre umas camisas velhas e a botina que usei na roça. Nunca tirei-a da mala. Também, nunca tive necessidade de me corresponder com ninguém nem mesmo agora que estou na minha escrivaninha debruçado sobre um envelope e o jornal do dia 12/04/65; hoje tenho meus filhos e uma vida muito bem arquitetada longe dos meus fantasmas, obrigado. E não era preciso cerimônia; era só colar e despachar para a Rua dos Santos, 118, meu presente mais que especial...

 Antes fosse assim tão simples dentro do nosso universo ideal, rio-me. Pois parece que por força maior, puro azar ou provocação do destino não achei a goma na caixa de ferramentas. Sou terrivelmente metódico com a organização das minhas coisas, sobretudo com a caixa de ferramentas que deixo no alto, bem longe dos meninos, na garagem. E, no fundo eu sabia, que não achar significava falta mesmo. Acabou, tem de comprar mais. Fui tomado por um desespero tão quadrado e sufocante que saí disparado pela casa, uma vermelhidão e um calor na face insuportáveis. Perguntei a Ana se tinha visto a porcaria da cola e ela respondeu entre tossidos que não via a cola havia um tempo, que usou pra colar uma foto no álbum mas que voltara com ela pra caixa; corri ao quarto dos meninos, que provavelmente teriam por conta da escola, e nada - era férias de dezembro. Já era tarde também, nada de livraria aberta e eu sabia que amanhã minha coragem berrante agora seria um miado amanhã. Olhei a caneta em repouso na mesa da sala com uma dor nas têmporas que por um instante bloqueou minha audição. Um zunido se seguiu, a cabeça rodopiou e eu voltei meio torpe... Sabia que teria de ser tudo com minhas mãos e palavras, mas me acovardei e fui atrás da máquina; pois ela, sim, iria dizer o que foi dele pra ela pra que entendesse tudo logo e aliviasse a cabeça que certamente não andava bem.

Foi bem custoso retirar o entulho do meu passado. Aquela parafernália tosca e pesada a valer que talvez tivesse sido minha chibata se tivesse nascido preto; talvez a mais tola ideia que já tive na vida, porém segui com a ideia fixa. Minha malícia não reduziu por isso. Fui delineando cada passo do processo que seguiu por longos meses, as teclas em disparada e eu talvez digitando 120 pra mais num êxtase digno de estudo na academia. Não queria só contar da prisão, era pouco demais pro tempo que deixei quarando no sol do rancor e da impunidade aqueles fatos hoje ainda carne fresca na memória. E a cada avanço parecia que eu estava endereçando a carta ao próprio André, exaltando sua desfortuna nas mãos de quem ele jamais fez qualquer mal, e de como isso se parece vingança divina ou mesmo sentença de deus para os pecados que cometeu a tempos idos, ou de seu próprio merecimento... Ana me chamou pra deitar mas eu ainda estava falando da confissão de Custódia e dos olhos baixos de meu irmão frente aos parentes do falecido que babujavam ódio e disparavam olhos fervilhantes para o rebento mais honroso de minha mãe. Pedi pra Ana ir sem mim, que era uma urgência vinda de São Paulo e que amanhã logo cedo tinha de estar resolvida. Ela contrariada foi, não sem me inclinar um beijo na nuca, do qual quase como um reflexo eu desviei para não me atrapalhar na tarefa. Ouvi seu rugido ao fundo e com uma espiadela vi que vestia uma seda que lhe dei de presente num dos nossos aniversários de casamento, talvez mero capricho para me tirar daquele transe nitidamente doentio. Não fez efeito. Fui até o fim, contando da minha visita ao agora mórbido e derrotado André, com a barba por fazer, as costelas gritantes e os braços de graveto... Contei do cheiro da cela, do quão pernicioso era sobreviver por cinco minutos dentro daqueles saguões extensos, largos e ensurdecedores...

Podia dormir tranquilo, enfim. Passara um pouco a minha inquietação e aquela coceira no calcanhar que vem com a ansiedade. Já podia prever mais uma penca de cabelos brancos quando acordasse, mas foda-se pra essas vaidades. Selei o envelope com uma dobradura que aprendi quando jovem e pus as três folhas pautadas delicadamente dobradas no meu origami homicida pra mamãe e passei a chave na porta. Entrei no quarto com um copo d'água à mão, sedento, a boca seca... Não tinha me movido para comer ou beber desde que havia sentado na minha confortável cadeira da saleta que eu chamava de escritório. Vi o ombro descoberto de Ana mas não me veio nenhuma vontade de foder com ela, nem de acordá-la para um beijo de boa noite ou o carinho habituais. Queria o mínimo de distração pra que o dia amanhecesse rápido e eu terminasse o que comecei. Preguei as pálpebras com certa autoridade e comecei com um cochilo calorento até aprofundar num sonho confuso: era meu sucesso. Agora tinha de esperar pelo canto do galo, passar um café, pitar um cigarro e rumar até a casa do Eugênio, o carteiro responsável por encaminhar as correspondências do entorno de Santana. Ia passar logo...

A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog: http://porleonardo.blogspot.com.br/

sábado, outubro 27, 2012

Há sempre um lado que pesa - Parte I


Signo máximo de honestidade, totem inabalável de respeito. Ético, responsável e cordial. 

André era astuto, era seguro, era verdadeiro... André era uma receita de deus com métrica e rimas parnasianas... André era, acima de tudo, poesia para todos os gostos...



Talvez pra mim, e apenas pra mim, André fosse só um reforço da perversão do mundo e um exemplo de sua lógica de segregar alguns aos abomináveis e desiguais privilégios de outros. Sei que dirá, mas nego vigorosamente, pois não tenho por ele qualquer forma de inveja e tampouco razão para isso - você verá. Depois de travar batalha dura com a vida e seus percalços, hoje cultivo feliz minha pequena fortuna, tenho filhos maravilhosos, um fiel perdigueiro um pouco anti-higiênico e uma esposa que, apesar de hoje tuberculosa, dedicava-se ao lar nos seus tempos de saúde com um resígnio memorável. Honestamente, o que me dá é só um vazio, uma fúria de irmão sombreado pelo sucesso e brilhantismo do outro; um sentimento de quando se parte o bolo e oferece a cereja a um gêmeo e ao outro guarda-se o pedaço desornado e ainda assim espera-se o sorriso de recompensa se arquitetar no rosto do injustiçado. Vá lá, é demais !

Nasci às voltas com esse argumento. Ditava-o a qualquer um e em qualquer lugar; na igreja, quem me ouvia era pe. Cícero; na escola, a inspetora Circe; e na mesa, em hora de ceia, todo mundo que se sentasse por perto. Minha mãe, Vera Lúcia, me fazia reprimendas desajeitadas de mãe ausente, e com suas olheiras - que mais pareciam maquiagem - ela via que tais censuras não eram de grande valia, pondo que a expressão da razão, segundo ela mesma, era o silêncio das outras tantas mentiras que se calavam na minha cara amarrada (e os pontapés em direção a André que passavam raspando nas calças novas que ganhara de algum conhecido). E foi ano após ano que eu vi André se bastar em si, crescer sobre o mundo com um sorriso comedido e sua forçosa austeridade que, desconhecia-se, deformava ao misturar-se às mechas de amantes nem tão secretas assim de hoje em dia.


Era um bom garoto até certa altura, ah, isso era ! Alguns anos mais velho que ele e, dadas as condições, uma boa referência ao moleque, logo notei que ele possuía um espírito virtuoso e altruísta de querer ser o bem e fazê-lo a todos com certa neurose, ainda que discreta, que papai nos instruiu a adquirir. André parecia querer se colocar em todas as situações e ser protagonista de todas elas: era um jovem naturalmente invasivo, mas com bondade somada a isso. Depois que papai se foi - coisa de briga de bar, cachaçada, facada no bucho, mulher alheia, sangue pra todo lado, nada de ambulância ou de meu irmão - tudo mudou com uma velocidade incrível. Não fora ao enterro: estava com Elena, uma recém conhecida, fazendo as compras do mês e ajudando-a a abarcar as sacolas na carroça. Encontrei-o voltando pra casa com um andar rápido, serviço cumprido. Eu ainda secava as malditas lágrimas do rosto e ele, com um cinismo que qualquer um ali podia esbarrar, perguntou o que se passava comigo. Dei-lhe um bofetão na bochecha que trazia uma pinta exatamente igual à do papai. Sua face adquiriu um tom de fogo, brasa forte. Cabeça baixa, entrou para o sobrado e logo voltou sorrindo, indiferente, nada de mais: a vida segue. Eu disse filho da puta. Ele desimportou. Seguiu, virou a esquina e sumiu. 


Entrei em casa, estourado de ódio e ouvi mamãe fungando e dizendo que André ao menos era como o pai e que dava orgulho de vê-lo trilhar os passos do velho com tanta dedicação. Meu pai, que deixara a família desamparada por causa de uma mulher que não lhe pertencia.



Passados alguns anos, talvez pela boa imagem que sempre cultivou entre os mais velhos, as portas de meu irmão, ao invés de se abrirem quando este fazia menção de passar por elas, mantinham-se abertas à sua plena e facultativa serventia. E era D. Custódia - quarentona e viúva de uma década - quem eu conotava "porteira" de André. Não era mãe, não era tia, e tampouco preta, mas, qual tal, se preciso fosse, punha-se à frente da chibata para poupar o lombo do bom moço. Custódia sacrificava seus domingos sempre que podia para preparar mimos a André. Eram tortas de toda variedade, cartas de elogios e bugigangas de todo tipo. Para piorar, sabia-se que o fazia com as economias deixadas pelo finado - considerado crime moral e usurpação à memória do falecido, que devia torcer o nariz de onde quer que estivesse de tanto ódio e arrependimento de ter feito um testamento tamanho para tal vigaristazinha. Mas, não importava muito. Afinal, era André a quem Custódia se punha a ajudar, e portanto não era tão grave assim: a cidade inteira relevava: "a velha não podia parar de viver". E relevou até mesmo quando ele, tempos depois, começou a ajudá-la como seu enorme cacique de finanças; e daí vieram as tais denúncias, o fato, a fuga e a queda das máscaras, as quais por ora omitirei por conveniência à cronologia dos fatos.



De fato, tudo o que mamãe gastou em suados salários e morreu tentando empreender para me embutir no bom e venerável caminho do trabalho e das boas maneiras, foi abandonando a André, que parecia se orientar por intervenção quase divina e ter sucesso maior e mais convidativo que qualquer peralta de nosso tosco bairro. E enquanto eu me espremia para obter um tímido trabalho de datilógrafo na firma de seu Calixto, meu enobrecido irmão angariava outras muitas Custódias para lhe servir em lonjuras inimagináveis. Tal como uma briga assimétrica deve ser, o pêndulo da fortuna só pendia para o partido do meu rival, dando-lhe tudo o que quisesse de boníssimo grado e longe dos obstacúlos cruéis e da bateria de horrendos testes de caráter e resistência física. À altura de seus vinte e cinco anos, André já colecionava motocicletas e garotas, enquanto eu o fazia com olheiras de infinitas horas extras que me pagavam com o café e o pão de ontem. 


Eu não tinha a pretensão de censurar a boa vida dele ou de querer partilhar de seus sucessos como se me considerasse merecedor da formação daquela índole escarniosa e vil. Ora, também não exigia direitos autorais sobre tal obra - ao contrário, devo dizer ! Agora que estou almejando novas empreitadas na vida urbana e depois dos tantos incidentes envolvendo André, cogito mudar o nome que trago na identidade e omitir mamãe dos registros do governo. Vamos ser os Borges e abandonar os Vargas de uma vez por todas, pois família por aqui é coisa importante e não há progresso sem um passado livre de suspeitas. Mamãe se recusa, diz que é demais, que é desonroso, mas sei que ela acredita no que dizem os jornais sobre seu filho, que não há atalho que se tome que não leva a um colapso.




A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog: http://porleonardo.blogspot.com/.

terça-feira, maio 01, 2012

Torres em desatino.



Deitei só por 56 anos. Qual fosse o meu esforço ou minha dedicação, nem puta, nem dama, nem bicha, nem homem aceitava meu dinheiro. Se ostentasse meus carinhos e meus luxos - que não eram poucos em vista da condição das pessoas da cidade - essas regalias eram moeda morta para os “negócios da vida” e não valia a pena declará-los assim, sem ter uma oferta maior que cobrisse as propriedades materiais de um abonado. Mesmo que apenas minha nítida invalidez de mil rugas e sobras de pele explicasse o insucesso na caça pelo sexo, confesso-lhe que nem quando jovem, à aurora de meus dias, quando era nada mais que um poço de vitalidade e hormônios, fui bem sucedido na odisséia que é acordar sob a luz dos cinematográficos raios de sol perfurando e queimando quatro pernas, quatro braços e duas caras saciadas de prazer e humores. Ah, o hedonismo hollywoodiano ! Quisera eu sentar-me numa daquelas cadeiras de diretor e fazer das mil e uma traquinagens da baixeza cênica uma só obra de arte ! Naquelas colossais telas tudo é tão natural, tão escorregadio e próximo de nós ! Mas aqui no "carne e osso" não, o universo tem de ser maquiado demais para ser apresentado ao público. E compreendo que hoje faz-se isso não para causar espanto ou traumas às nossas frágeis fantasias, mas pelo fato de a menor das concretudes ou o mais sutil aperitivo da realidade serem capazes de arrebatar otimismo e fé do mais resignado e leal apóstolo.


Mas nem tudo são flores. E se pudesse, caro Simão, interromperia aqui minha catarse, pois ao fim desse registro endereçado a ti, que fora por tantos anos o meu único apoio, não desejo que seja dito das minhas palavras nada mais que uma simples anedota sexual de um fracassado amoroso sem esposa, filhos, família ou apego. Saiba, que se submeti teus olhos à humilhação da minha face é porque confio minha degeneração aos teus julgamentos; e que também delego ao teu aclamado e inabalável caráter as sentenças que mereço e você bem sabe. E faço isso porque na multidão dos meus não há esclarecimento ou sensibilidade para entender-me. Aqui sou apenas entulho, e por vezes um entulho comparado a animais da mais repugnante estirpe. Sou porco para as crianças, hiena para os companheiros de trabalho, pombo e gambá aos transeuntes. E os gambás, apesar de tudo, são como eu: injustiçados pela mãe-natureza, que assina suas perversões com o título de obra de arte divina e acha que ninguém vai se incomodar com isso. 


Para ser-lhe sincero, meu amigo, o que busco expondo-me além do que reflete a carne  é uma resposta cabível para aquele que desfruta da solidão como ela realmente gosta de se manifestar; aquela secura profunda das vísceras, o coração alto latejante e o sangue borbulhando sem ter vazão. Aquela que traz à tona os detalhes esquecidos e faz de nós - hiperativos ou controlados - uma só morada para o antagonismo de sensações e alvo para o bombardeio ininterrupto das tv's a cabo. A qualquer momento me verei comprando pilhas e pilhas de aparelhos de musculação, pagando seiscentas prestações e torcendo para que o moço do cartão de crédito não me leve a uma dessas delegacias de devedores compulsivos e me tome até as calças...


É que muito cedo, ainda na inércia de minha identidade mental, acabrunhei-me sem muito notar. Amenizei minha existência como se a tivesse programado a transcorrer de modo econômico, sem exigir de mim energia, paciência ou perícia para guiá-la; pra que não precisasse tomar nas mãos as rédeas do livre arbítrio e ter de dominar feras e acalmar as aflorações que produzem o êxtase e o deslumbramento da vida. Aprendi com a preguiça dos meus dias a idolatrar a simplicidade e a ser feliz com ela; aprendi a lambuzar-me de sabores neutros e me salgar num tempero sem muito gosto; nem azedo, nem salgado, nem ácido, nem abrasivo.


No início era fabuloso. Diferente de meus colegas de classe - conflitantes, filosóficos e errantes - eu não sofria abalos. Era mudo, evitava perspectivas atraentes e pensava pouco além da minha próxima refeição. O objetivo era que minha estada nesse mundico e corpo fátuos não servisse de mártir como as de Petersen e Huxley o fizeram a meia dúzia de gerações. Diferente deles eu não testava meus limites ou a minha natureza; tampouco questionava meus encargos e nunca aguardava um tanto mais dessa chance de aqui estar. Sendo ainda mais prático, minha ambição era como viver descendo uma ladeira, já que “pra baixo todo santo devia ajudar” e comigo não havia de ser diferente; e não era mesmo.


Ironicamente, eu observava a todos um tanto apavorado. Me perturbava imaginar-me divagando como eles sobre meu papel no berço do mundo e todos os anais que a filosofia moderna reservava para a existência de um homem. O que quero dizer é que não me sobrava tempo para compreender a razão, apenas para aceitar e executar, como um funcionário de uma fábrica qualquer daqui do centro da cidade. Se você ousa parar para refletir demais sobre o que está fazendo, três, quatro parafusos se perdem e você prejudica toda a linha de produção - quando não é demitido e vai viver de migalhas nos subúrbios asquerosos de Madalena feito Sandro e Valter que se atracaram por causa de mulher e hoje estão vendendo desentupidor de fogão e cortadores de unha no centro pra pagar o almoço. E é exatamente isso o que não quero que aconteça: só a hipótese de prejudicar os demais com uma egoísta cabeça pensante, que mais parece possuir vida própria, já me faz passar mal e embrulha o estômago.


E quando digo que não entendo tais ilustres masoquistas é porque neles não vejo lógica alguma. Espremem-se e castigam-se feito laranjas para retirar a última gota do caldo que lhes resta. E propositalmente brincam com a dor, dançam sobre a navalha do desconhecido e da sanidade. Se pendem para um lado e caem, não retornam jamais: invalidam-se. E triste é o fim de um pensador; ser de coragem cuja função é degustar, amar e descrever os venenos mais sutis que nem química ou fantasia sabem formular. São viajantes que vagam na completa escuridão e levam na bagagem uma frágil esperança de achar um ligeiro feixe de luz. Encaram feras por esporte e põem suas vidas em risco por um ideal que nem mesmo sabem se existe para obter algum resultado.


A cada reflexão, um motivo a menos para ficar vivo lhes é apresentado. A cada novo postulado, uma aproximação do acaso da luz e do azar da boa saúde. Ah, se me pertencessem as horas de ócio desses intelectualóides ! Eu investiria melhor em festas e sonos pesados que os envergonharia por terem desperdiçado tanta vida em um labirinto sabidamente sem saída. Hoje, depois de tanto tempo, eu creio que tais criaturas se dispõem a entrar nele apenas pelo desafio que reside nessa cretinice, porque buscar saber de si e das tuas faculdades só culmina numa morte lenta e dolorosa: em sofrimento.


Mas em meio a essa jogatina de azar que é a vida dessas pessoas, vi, que sem qualquer exceção, todos têm amor absoluto. Não falo de amor com letra maiúscula e aquela interpretação rica de parábolas e boas intenções dos livros infantis e da bíblia sagrada (que eles me perdoem). Quero dizer que a mesma paixão que sustentava antes a problemática vida daqueles metidos da metafísica, palestrantes de auto-exploração estratégica, seminários de filosofia socrática, hermenêutica e poética se modificou em uma paixão fulminante pelo próprio ser. Que a mesma paixão com que buscavam suas mais escabrosas justificativas e enfrentavam seus monstros mais temíveis tornou-se uma necessidade de completude refletida em seu semelhante. O "outro" era, então, a manifestação, a resposta objetiva dos questionamentos de um. E a partilha desse outro era a forma mais tenaz de gerar sua resolução.


E aí se entregavam às putas, às damas, às bichas e aos homens, que de braços abertos recebiam com candura os desvairados para acertar-lhes as idéias e sorver deles um pouco dos desatinos e se embebedar das virtudes da confusão e da loucura que jamais haviam experimentado. Descubro, depois de velho, que esse era o maior dos luxos. Esse era o começo da minha compreensão da crueza das existências; que não bastava acumular e não se entregar à correnteza nobre do deslumbramento, mas precisava me municiar de desequilíbrios e perambular pelas mentes e pelos corpos.


Eu agora deixo de ser um Torres e passo a ser Ana, Valentina, Samuel e Jasmim.  Agora eu passo a ser muitos num mesmo percurso, buscando reencontrar-me com o prazer da vida e do amor próprio para receber o que hoje me completará nas mal vistas noites de Quito e das casas de Madame Desiré. Agora me declaro um cidadão do mundo, despossado de meu auto-controle. Nu.

sábado, fevereiro 25, 2012

Bilhete para Amália

Não nutro por ti qualquer desejo. Quando a vi com meus olhos pouco simpáticos, não palpitou o coração, não dilataram as pupilas e nem minhas mãos tremeram de pavor ou de excitação. Nada fiz.
Honestamente, sequer te olhei com olhos de malícia ou sorri esperando despertar-te paixões ou fantasias naquela atmosfera perigosa que é a família e seu ambiente intrincado e tenso que faz-nos suar como se a qualquer momento fôssemos pisar num espinho ou numa ferida aberta de outrem.
Nunca mirei tua pele e tampouco desejei, consciente ou em sonho, tocar tuas arestas ou teus cabelos procurando ceder ao impulso magno do descontrole. Portanto, não esconda-os nem tampe-os com milhões de fitas e mãos como se de mim brotasse um espírito torto. Hoje, sabe-se lá por qual motivo, gostei de saber que é alva como pluma a sua tez e tens os cabelos serenos como nuvens, apesar de nunca tê-los tomado às mechas e as revolvido nos meus lábios frígidos.
Saiba que jamais admirei tuas virtudes e jamais o farei. Em respeito a tudo o que se arquiteta com alguma razão no universo, proíbo-me de inclinar-me à curiosidade de teu colo ou ensaiar imaginar como seriam tuas carícias e teus olhos em repouso. Pois, lá dentro de cada um, reside a certeza de que você jamais será amada na proporção certa. E que para descrédito da humanidade não há um de nós que sacie o desejo que emudece tosco na tua carne. Para ti, eu transcorro como os carros de um sábado à tarde – lento, vazio, desimportante.
Proíbo-me de dormir meu sono e preocupar-me com o teu. Proíbo-me de viver meus dias tentando encontrar-me com os teus. Proíbo-me de caminhar meus passos intencionando caminhar com os teus. Proíbo-me de viver minha vida desejando secretamente que ela fosse também a tua.


A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog - http://porleonardo.blogspot.com/.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Ira.




Hoje o homem precisava ter asas. Não digo isso para que ele as bata vigorosamente e exiba-as à liberdade que têm os anjos no céu e nas telas barrocas, mas para urrar como aves onde o som pouco se escuta e a raiva permanece acalmada pelo que há de imaterial e etéreo no hiato do mundo real: que é senão o vácuo da atmosfera ou o parágrafo secreto dos rabiscos de Caminha.

Eu, mais que nunca, orava a um ser qualquer, minimamente superior, que me desse a atenção dada aos políticos em seus protestos ou a uma personalidade com cem dólares na carteira e um rosto bonito, ou mesmo a que deram a Davi, quando este ergueu-se alto nos braços de desconhecidos e foi coroado rei sem muito porquê. Desejei, pela primeira vez em anos, que ao meu redor não houvesse o limite da minha natureza humana: essa criatura tão vangloriada em meus próprios discursos pela universidade, que a tantos infligiu bocejos e caras feias de desgosto e discordância. Naquele instante, sozinho e subjugado ao esquecimento de causa pobre e plural, venderia-me a um estranho se me surgissem - tal qual a Hermes - pés alados que me tirassem do caos quando me conviesse. Asas que ao menos me colocassem entre a beleza da arte do homem e o tédio mudo dos deuses: que fosse no Éden ou no limbo, que fosse na clareira de qualquer coisa, ou no próprio nada.

Na bolsa, nem mesmo uma caneta trazia comigo para desenhar às pressas minhas penas juvenis. Mas a tal divindade, "o espírito do nada", "o santo do invisível", enviou-me solidário, prontamente ao surgimento do meu falso pranto de ira, um cego precavido que usava um borsalino bege e uma camisa lilás. Cedeu-me seu lápis de ponta gasta e mal feita quando sacou-o do paletó ainda meio desconfiado, provavelmente ao sentir minha inquietação dentro do antigo ônibus de Santa Matilde. "Tome aqui, criança, vai te fazer bem." Uma porcaria de lápis - que o diabo me entregou como um afago de mãe, achando que eu fosse um moleque de seis anos entediado com a viagem. Mas, como acompanhado de um sorriso e uma expressão de curiosidade que minha prática em braile não conseguirá sanar nem dali a dois mil e trinta e três anos, aceitei calado, sem agradecer nem pedir licença.

Dê cá. Nunca gostei muito de cegos, nem mesmo quando eram meras personagens fugazes das tardes em que minha mãe me arrastava ao centro da cidade para estudar arte moderna. Para ser sincero, minha intenção era esquecê-lo lá e tomar-lhe o lápis aos meus propósitos. De fato, eu necessitava, como um remédio do coração ao cardíaco, borrar umas setecentas páginas com uma crônica do drama da minha vida, mesmo que isso custasse a confiança do velho desalumiado e ingênuo: o cego. Queria delinear a olhos vistos, sim, toda minha história, a qual agora, apesar de apossada, fazia-se feroz e traiçoeira, como se indomada por escolha própria, isto é, insubordinada feito órfã inserida numa família desacreditada pela infertilidade e despreparada pelos fracassos da vida, ou vice e versa. Mas não a culpo desse destino, foi o mundo - escultor de gerações - que a moldou assim.

Talvez fosse essa a explicação, penso aqui. Não é difícil acreditar que minha trajetória se sustentou por sorte. Sinto-a desacolhida desde sua discreta aurora, a qual nem mesmo com algumas centenas de vocábulos consigo resumir. E não uso da desculpa de que é complexa demais ou que de tão confusa seria perda de tempo narrá-la, isso nunca. Se me desse uns dez minutos de prosa, faria de ti, do desconhecido, do anônimo, do zé ninguém, os meus melhores e mais honrados amigos. Minha voz é sem pudor algum uma fonte de profecias e meus lábios, a raiz de muitas verdades; porém, sempre recordo de que me distancio do narcisismo - que de fato é mera insegurança - de dizer que sou deus de mim ou de ti. E prova dessa discussão é eu ter concluído depois de um sonho perturbado que minha mente conspira e conspirará contra minha tranqüilidade e o casamento entre uma alma de luz e um mistério-milagre que fez o que sou enfim.

Poderia assustá-lo com essa premissa, sem dúvida, e limitar-me a essa declaração. No entanto, preferi guardar a memória de minha dor um tanto mais fundo que uma lembrança ou um berro nas alturas da troposfera podem alcançar. Eu quis, e só dessa vez, ser ouvido, lido, recordado e discutido nas mesas de bar... porém, antes da glória, da romântica importância que nem sei se virão, precisava receber minha catarse de mãos beijadas.

Conversando com amigos, descobri que ofereciam-na a preços altíssimos em consultórios, divãs e o diabo a quatro. E tudo isso a exatos três quarteirões da minha casa. Eu compreendo, resignado, sério, sem sarcasmo, - te juro! - que custa caro saber das dores do outro. Decorei das reflexões de minha mãe os argumentos que apontam a responsabilidade que é vender diretrizes teóricas e duvidosíssimas com o objetivo de fazer alguém pouco mais feliz da vida. Sei do charlatanismo embutido nos remédios de etiqueta preta e na entidade misteriosa que nomeiam 'Academia'. Sei do quão perigoso é ir longe demais, atrás de uma dica que atalhe uma vida de angústias. Sei de tudo o que perpassa o universo medíocre dos intelectuais, da razão e dos que acham que a detêm.

Meu veneno, portanto, foi saber que eles tinham minhas respostas prontas; mas que, antagonicamente, se fortaleciam por dominar um idioma, uma escrita, uma sintaxe que, embora exatamente iguais às que eu e meus problemas praticávamos entre nós no jogo de tentar desembolar o fio do telefone, soa artificial, estrangeira, ininteligível... E não duvido também que esse seja, por fim, o propósito desses vendedores de solução. Talvez só assim, vestindo essas roupas de brechó com cheiro de guardado, usando tais óculos com setecentos graus acima e adorando deterministas, existencialistas e lavadeiras, eles se alimentem das próprias gargalhadas e dos descontroles alheios.

Eles sabiam que lá no meu verbalismo, onde nenhuma ressonância consegue enxergar, jazia minha doença. Ela penetrava bem fundo na minha covardia, minha fraqueza, e punha em evidência a vulgaridade "daquelas lá" comprimida num sorriso falso; espelhava sem medo suas caras imaculadas e projetava a gritos inauditos e duplicados sua revolta contra meu desejo por sua dualidade, de mantê-las sob meus cuidados num ato egoísta e irracional. Eu tinha as chaves para libertá-las, mas sabia que minha consciência - adoradora da posse - preferia mantê-las embrulhadas numa concepção miniaturizada do mundo. Onde pudesse cuidar e manter em sigilo por mais tempo até que o tempo soprasse-as para longe.

E meu pai, ao fundo, profetiza orgulhoso de si aquela experiência enxerida de velho sábio e coisa e tal. Talvez ele guarde suas reflexões não verbalizadas no bolso da camisa que nunca usou, como se não sentisse vontade alguma de encontrar e resolver sua existência. E, no verso da história, vejo-me na época certa de perdoar o mundo dos males impostos a todos fortuitamente. Mas nunca fui muito de perdoar, nunca fui muito de muita coisa, para ser franco... nem de viver como meu pai, assim desse jeito, sem muito pensar no seu "Eu".

Enfim, para chegar em casa, depois de descer exausto e com chuva do Santa Matilde, disputei a marquise dos tais consultórios com seis ou sete alunas do Padre José sob forte chuva. Tinha de fugir dali, óbvio, então apertei o passo para atravessar os três quarteirões. E ainda assim, balançando as chaves do apartamento, cruzei as ruas agarrado à minha quase finada coragem, como se a sensação de estar me aproximando do meu ninho remediasse a pressão do medo de falhar, de entregar-me por doze mil a alguém que se senta atrás de mim, sem fitar meus olhos, e me diz algumas "verdades absolutas" anotadas por um viciado num domingo perdido no tempo.

De frente à porta de casa, esperei que ela reconhecesse meus passos contra o assoalho. Sempre subia o único lance de escadas reproduzindo a 5ª de Beethoven, tsc. Nada de resposta. Agitei novamente as chaves e só assim vi o número 12 sumir da minha frente e aquela criatura assustadora e ao mesmo tempo doce me saudar com uma cara de sono e sua outra metade me ler dos pés à cabeça. Essa cena sempre será um "mudo" na minha história, como se eu não tivesse como entender tal estranha mecânica.

Como se previsse meu coma lúcido, ela me passou o telefone sem fio e uma outra voz me ditou o número, que disquei sem muito pensar. Antes, num ato de desespero, tentei encontrar naquela penumbra uma caneta para esboçar minha expectativa de resolver tudo ao voar alto e expulsar minha perturbação somente com um grito de ira. Tinha tempo e legítima esperança de que funcionaria. Mas do outro lado da linha alguém com uma voz anasalada e impaciente saudava-me com um "alô". Sem o mínimo controle, pus-me a tagarelar para o outro lado:

___ Dra. Rosali ? - por um momento eu duvidei que estava falando com um humano - Qual o melhor horário para consulta ? Amanhã ? Ótimo. Sei onde estão, moro a três quadras do edifício. Passar bem.




A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu bloghttp://porleonardo.blogspot.com/.

terça-feira, novembro 22, 2011

Meu Lema.



Estava muito claro que aqueles resmungos indiretos eram todos para mim. Giselda balbuciava uns trocentos maldizeres e lançava aquele olhar torto na minha direção para ver como eu reagia à sua cerimônia de querer me inclinar às suas vontades. Usava de todas as estratégias juvenis – e enquanto ateava fogo no quarto, rolava também a calçada e se jogava nua do vigésimo andar: um verdadeiro festival de falsas ameaças. Eu, macaco velho que sou, por mais compaixão que mentisse com olhos protraídos de atenção e vida, não fazia valer as pirraças daquela quase-dama projetada para carnavais nos quais talvez nem vivo estarei. Não, não, comigo o buraco é mais embaixo, e esse tal partido de feminismo por conveniência não se acolhe bem na minha consciência; em verdade, nunca se acolheu, nem mesmo quando era uma criança subordinada e desacreditada dos motivos que a televisão a cores tinha pra nós.


Meu pai, que era bom exemplo dessa máxima, sustentou até seu último suspiro aquela mania boba de ordenar que minha mãe “fizesse isso” ou “arrumasse aquilo”; e era só pelo prazer descartável de tê-la nas rédeas, presa à sua corte, que seu ego gerava natimorta qualquer esperança de que algum dia gestos de amor fossem dominantes no nosso sobrado na desperdiçada Alameda das Acácias, número 3. Tudo isso para manter viva, como sempre fora com meus avós, bisavós e outros vós, a tradição do patriarca absoluto – palavra que para eles era sinônimo de monarca e que por vezes esbarrava nos ofícios de tal.


E foi nesse reinado de Luís não sei das quantas que passou tempo suficiente para que o respeito de toda a família recaísse sobre sua pouco expressiva existência e se diluísse no partir de Sebastião de Sant’anna, no dia 15 de fevereiro de 94: sem chuva, sem flores, sem música e sem qualquer significância de dia póstumo - nada. De fato, concordo que não existem bons dias para morrer, ou sequer um dia certo para abandonar tudo e entregar-se para o Divino, mas o pilar da integridade familiar que antes era teso e inabalável tombou e foi enterrado junto de papai no gélido granito da marmoraria do Lucinho, e de lá, até os dias de hoje, não saiu mais.


Minha irmã, engajada daqui e de lá com uns intelectuais desvairados, enviesou para as tônicas da arte e da preguiça e perdeu-se com ela mesma num apartamento do subúrbio de um subúrbio brasileiro; Clarisse, minha esposa, reatou um amor duvidoso com a capital e refez as malas para Lima; e Sandra, a governanta que me trocou as fraldas e serviu-me o jantar do casamento, se mandou para os confins da terra com meu cunhado Oswaldo, de casamento marcado com Ana Beatriz; um grande filho da puta.


Sei o que dirá, mas só sei porque por aqui não há quem não diga. É um familiazinha medíocre os Sant’anna, gentinha que não vale a merda que põe no prato, um bando de sem vergonhas aninhados na mesma casa... Vá, eu compreendo, ora ! Essa mesma franqueza de falar o que dá na bucha é que faz as boas maneiras das donzelas de Fundo Céu - é o normal nessas bandas de cá ! E Giselda estava lá, quimérica, tentando fazer da história dos meus antepassados um registro superficial e transponível. Até que eu explicasse a carga que repousava nos meus ombros e os olhos do meu pai lá no infinito projetando memórias de minha infância, decerto ela me deixaria para recorrer aos seus outros. E eu sabia, desde muito tempo, que não eram poucos.


Cá pra nós, uns até me acompanhavam como amigos no bilhar, críquete e golfe australiano, e de tanto relatarem suas más criações ao lado da tal ‘moça do Santiago’ – pai bebum e já finado da minha moçinha – relacionei logo a Giselda e matei a charada que discordava da minha inocência quase adolescente de pureza ia até os dezenove.

___ Vamos, Ricardo, vamos de uma vez ! Se aceitar meu pedido prometo não lhe pedir mais nada que ataque seu bolso ou sua dignidade. Não sei se você me entendeu bem: eu disse Caribe !


Entusiasmada com seu próprio ar de locutora, ela sabia que jogava bem. Essas promessas que unem “nunca” ou “sempre” a uma concessão qualquer são sem dúvidas as mais vantajosas; e essa, apesar dos pesares, mexeu com minhas estribeiras. E, não sei como, ela sabia das minhas finanças. Sabia tintim por tintim de cada trambique, seja com os vendedores de coca na fronteira ou com a validação dos cassinos; o baralho, os impostos e meus negócios caribenhos pendentes: absolutamente tudo. E, não satisfeita, chantageava com maldade para me arrancar toda espécie de regalia. Sapatos caros, máquinas fotográficas, jóias, brinquinhos de ouro e uns outros cacarecos moderninhos que eu não sabia bem pra quê. Também, não ousava jogar a culpa em ninguém que não em mim. Cada espirro, cada palavra, cada gesto, por menor formalismo que parecessem conter, foram minhas criações, tinha meu dedo ali de um jeito ou de outro. E Giselda, minha criatura esculpida num exemplo de mundo perverso, tinha a quem puxar. Ela era o retrato mais fiel, a ilustração mais exata do que havia de verdadeiro nos recheios humanos – era a verdade em ferida aberta simplesmente.


___ Eu já disse que isso não dará em nada, Giselda. Além do quê, nesse período não há quase turista algum ! Meu bem, os tempos mudaram ! Mudaram pra valer. – eu tentei ser cordial, fiz minhas caras de coitado, ofereci uma dose de whisky e tentei um cafuné que ela pouco apreciou empurrando meu punho com uma raiva dissimulada ou uma esquiva. Foi fatal.


___ Pois fique então com tuas putas, Ricardo! Leve-as com você para conhecer o mundo, gaste tudo com aquelas sanguessugas e depois pague-as para largarem-no como um coitado num hotel asqueroso com uma xícara de café e sem um tostão furado no bolso. Se é a elas que você demonstra gratidão, deixe como está.


Vi essa cena como encarei Lígia nos olhos em sua adolescência difícil. Foi, das minhas filhas, a mais hermética e sentimental, a que mais intensamente marcou-me na pele. Era vulgar, melindrosa e decidida demais para estar no tempo e na posição em que estava. E partiu só, como tinha de ser. Dela, não tive mais notícias; talvez tivesse trocado seu nome, pintado o cabelo ou feito um rosto novo. E eu senti naquele dia, que de todos os seres humanos eu era o mais impotente; que para permanecer sozinho eu só precisei amar o indivíduo ao qual dei parte da vida. Ou melhor: de quem cuidei, a quem protegi eu só recebi silêncio e indiferença.


E vi essa cena reproduzir-se tal qual na fatídica noite de setembro. Minha moçinha fazia o papel de Lígia, e eu, um tanto menos grisalho que agora, assistia a tudo meio apavorado na noite em que por fim decretaram minha solidão - sem minha assinatura, meu consentimento, meu aval.


Giselda, em cima do mesmo banquinho de madeira em que minha mãe nos punha todos de castigo, colhia do armário todos os vestidos que comprei, todos os colares, todos os livros, todas as cartas e presentinhos... Colocava-os um a um numa mala maior que ela própria, sem o menor sinal de pressa - arrumando com esmero suas coisinhas - como que fazendo-me remoer sua partida lentamente. Parecia apreciar o veneno penetrando aos poucos, célula a célula: ácido, corrosivo, torturante.


Eu fingia desconhecer, mas estava claro que era a sensação de estar só encharcando-me mais uma vez. Em verdade, eu dava à luz o remorso de uma geração inteira. Sentia pesar em mim o monstro infinito que é o cárcere de si próprio sobre a consciência. Assistia inerte a vida transitar nas memórias e no semblante decepcionado de meu pai, que por sua vez azedava por desgosto ao ver-me retirar do paletó dois bilhetes com o logotipo da empresa de táxi aéreo. Naquele instante, eu desperdiçava todos os esforços de seis mil homens por uma coisa simples: medo. E entregava definitivamente as rédeas àquele projeto de mulher. Mas mal sabia ela que lá nas "ilhas bonitas" eu não era tão querido assim como pensava.


___ Faça suas malas, meu amor. Partimos pela manhã.


domingo, outubro 23, 2011

Modernismo.


Para Giselda.



Você precisava ter visto a minha cara e meus lábios roídos quando os apelidinhos foram trocados para ganhar meus ouvidos. Uma intimidade tão oleosa que passou por todos nós lubrificada sem precedentes com aquele disfarce de carinho sóbrio que pôs meu formalismo metido à besta à forra.

Apelidinhos tão sutilmente arquitetados que interpor-me como macho dominante figuraria patético para qualquer teórico de psicologia conjugal de doutrina conservadora ou machista. Apelidinhos que eu esmagava entre os dedos e levava à boca para mastigar com o canto dos dentes pra não deixar ninguém ver; pois eram lá palavras grandes e se me escapassem dos lábios poderia dar na vista e me entregar aos juízes do jogo - seus pais. Eu, de fato, era um vocabulofágico enrustido, se é que essa porra existe.

Mas fiz-me, então, sério na sua vista. Dobrei as rugas, desfiz o mau humor e guardei-o fundo em meu semblante dissimulado. Esse era o procedimento padrão de quem tem suas muitas amantes. Era assim que eu lhe contava mentiras; era assim que eu a enlevava nos meus nós cegos e boas lorotas de "estou cansado", "reunião com os executivos", "é o perfume da Inácia, a pegajosa esposa do Corrêa que não me larga" etc., etc. Disse estar tudo bem com aquilo, que não tinha nada demais em acariciar mentalmente outro que não eu. Afinal, de relacionamentos modernos eu era uma verdadeira fartura, e dar motivo para esse falatório de futuro prodigioso e votos de castidade no palco da igreja vai acabar em hipocrisia - ah, verdade, hipo-crisia, sei lá, foda-se.

Tudo era deveras rápido, e eu já me acostumara com o ritmo. Beijava-se agora numa razão e quando se falava em proporção já o casal ofegava com cara de demente nos travesseiros alugados de um quarto calorento com os fluidos esbranquiçados melando os lençóis e pentelhos. Tinha-se que dominar o pique para não ficar só. Trocando em miúdos, moderno é sinônimo de simples, de resumido, encurtado, amputado, direto. Moderno é suscinto, específico, viável e pontual. E o que não é moderno agrada alguns poucos inseguros e despreparados; agrada uns desvalidos e incapacitados. Agrada os fanhos, os gagos, os descontínuos e os médiuns; agrada os crentes, os eunucos e os velhos impotentes. Agradava a mim, que não era nada disso, mas só agora percebo que esqueci de incluir os apaixonados e dependentes químicos. Esqueci de citar os homicidas passionais, os maridos violentos e as almas corrompidas; esqueci dos grisalhos abonados, dos bê-eme-dablios da vida, os depressivos, os escrivães e papais de primeira viagem. Esqueci de incluir-me dando uma surra nos cães sedentos, querendo te possuir com as línguas ensebadas de cerveja barata e torresminho. Esqueci de incluir esses putos e tarados, loucos para trepar com sua pele serena, alva e intocada de dar dó; pele que, um dia, e foi só, eriçou com meus beijos inexperientes e virginais. Esqueci de citar os apelidinhos maldosos e sua cumplicidade inviolável, em cuja brincadeira eu jamais hei de ser integrante - que, de pensar, tem efeito purgante, embrulha o estômago, faz passar mal. Esqueci de citar que os meus são todos importados dos amores que eu julgo belos, que é pra trazer sorte e não ter erro na hora do "vamo vê". Esqueci de citar que como capitão eu declaro essa guerra perdida. Ou você, por meus temores, dividida.

Mas, pensando bem, agora é certo que o que não é moderno agrada uns muitos frouxos. Uns frouxos de meia tigela que mal conseguem competir com eles mesmos. Perdem em tempo, em força, em masculinidade, e vivem se encontrando com desculpas de que "sou mais feliz assim", "vivo de forma mais serena e próxima da justiça e da moral" e por aí se estende. Ah, porra nenhuma, o que vocês querem são uns bons analgésicos para a cabeça, um whisky doze anos para levantar o astral e botar pra quebrar com umas vadias. Usar desses dotes que o dinheiro permite e chantagear umas bocetas de mente fraca, levá-las para o quarto e dar de presente uma pernoite num motel de luxo à beira da estrada. Vocês só não querem acreditar que o mundo é mau e nem elas querem crer que um dia já houve alguém a pensar num ser humano ideal.Vocês deveriam ter vergonha disso, ou ao menos desistir de tentar salvar o mundo da luxúria. É uma verdadeira disputa de ideais. De um lado eu quero a fantasia e do outro eu quero a concretude.

Pra mim, você é exatamente o que eu reprimo, Giselda, uma mente fraca, uma porcaria de mente fraca. Vendida e talhada para ser nos meus olhos só um amontoado de "pecados" silenciados pela dissimulação e pelo desejo que nutro pela tua carne. Pra mim, você é minha dualidade, meu conflito, minha indecisão.

Um seco adeus,

Vasquez.


N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem. Ele publica suas obras em seu blog http://alissonaffonso.blogspot.com/

sábado, outubro 22, 2011

Ser eles.


Era como que um sentimento de não caber em mim. Uma necessidade de expandir minha existência aos níveis mais críticos e poder extrapolar a individualidade que deus nos impôs sabe-se lá com que propósito. A bem da verdade, eu não era suficiente para aqueles braços finos, o corpo esguio e a tez falsamente perolada. Eu era um desperdício naqueles traços repetitivos, sólidos e imutáveis. Eu desejava outras faces, outra formas, outras fortunas.

Minha vontade maior era prescrutar o íntimo das mentes, perversas ou serenas, e provar da fonte os segredos mais intempestivos de cada ser humano. Fazer-me saber dos temores, dos pudores e dos limites; controlar os passos e mudar destinos; fazer, por assim dizer, a vida à minha semelhança e deleitar do desespero que é perder-se na inconsequência de outro alguém.

Minha vontade era aproximar-me do sexualismo dos familiares, poder ouvir suas preces inauditas e as maldições infundadas que a inveja traz. Queria guardar de cada um seu amor próprio, suas carícias de frente ao espelho e a admiração a olhos vivos das geometrias dos corpos desnudos. Eu anseava provar dos toques, inventar paixões e alavancar adultérios. Pôr as damas nos cabarés e as putas em minha casa; ora jantar com cães, ora passear encoleirado a eles numa travessa movimentada de Buenos Aires.

Eu queria mesmo era ter tempo para ser o mundo; mudar de país, mudar os papéis, ser um escultor falido, médico e bombeiro; ter uma doença crônica, uma identidade nova, uma conta gorda nas Bahamas e pilotar um iate nos fins de semana. Queria viver às migalhas, abraçar um bom litro de cachaça e queimar a garganta com um alívio tão instintivo quanto pode ser o sono. Queria pisar descalço as grandes avenidas, viver de agricultura ou vender bugigangas a quem houvesse de achar ali qualquer importância.

Minha vontade era de amar todos os idiomas, misturá-los ao acaso e com eles fazer discursos de aniversário ininteligíveis. Eu queria poder amar muitos, quiçá todos, pois assim por todos seria também amado e no mundo não faltaria sentimento à mais baixa, suja e demente das criaturas. Queria ser aquele a pedir desculpas, mas também o orgulhoso, pedante e inculto. Queria trazer de volta aos meus dias a infância, e tão logo ela me aborrecesse, experimentaria a velhice que tanto me contém hoje. E ai do hipócrita que erguer-se num púlpito para condenar-me bruxo, pois já estive em sua mente e dela sei que saem impulsos luxuriosos e a fera acorrentada do ser humano temperado à mais falsa civilidade.

Eu queria que nossa existência fosse uma permuta constante, que nos permitisse experiências novas a cada manhã; que nos colocasse a mesa do café em uma casa nova, com um patriarca autoritário e uma irmã viciada; o jantar com um cineasta russo mal humorado e o desjejum ao lado de um filósofo contemporâneo surdo.

Eu queria poder ter uma arma, um pote de cocaína e um fundo de ajuda e caridade.

Eu queria ser eles. E só isso me bastaria as ideias.

Eu queria ser. E só. Mas as leis que regem nossa humilde existência nos limitam a um único caminho; e o meu despontou no fim, lá longe onde deus descansa.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Metástase.



Que eu fosse então seu brinquedo de estar, sua criança subordinada ou seu velho escravo sexagenário. Porque talvez só assim, mulher, na intrínseca dependência, eu aceite, enfim, calado, seus desvios e indiferenças, seus sadismos e perversões de fêmea adúltera. Sei que és a minha pequena incongruência de lados opostos que um dia se tocam no infinito e voltam a se desencontrar, mas é preciso aninhar isso, fazer algum sentido.

Sabe, chéri, você não é tão boa dona como se diz em noites regadas de álcool e infâmias; para tanto, vi que botou para os pobres o vestido carmim que comprei nas medidas erradas e por causa desse desnecessário capricho burguês - forjado a duras penas em Fundo Céu de uns tempos pra cá - desceu ao ralo meu suor disciplinado do posto-à-mesa e mesmerizou impúbere as juras secas do meu amor prosaico. E se ainda sorri imisciva exibindo essas indeléveis formas de alguém para quem o tempo decidiu não passar, se pra você é glorificante manter os grisalhos detrás do recorte das orelhas, ponha-se aqui em meu lugar que essa eu quero ver!


Realmente não sei o que é pior, Giselda, mas assumo que te olhar daqui da cama, cuspindo na pia e fazendo gargarejos enquanto ri, dói-me mais na alma que na vista; e cobrir-me a cabeça com o cobertor não resolve em nada, porque te conheço na mente ao desejo e te remonto quando convém; despida ou adornada com o bolerinho da mamãe, não importa. Conheço-te a cada centímetro de pele-neve, pele-atrevida ou em disfarces mil.

Bem capaz de eu ainda te deixar, mas enquanto o dia não vem e as palavras do discurso me fugirem aos lábios, vou enternecendo-a em amor barato e outras formas de chispar contigo para Samoa, Paris ou Viena, que é o que sonho - você bem sabe - desde a aula de geografia fatídica em que você me melou os panos. Balançava-se entre as minhas canetas parecendo inocente, criativa, contudo pronunciava já menina os caninos safados que transmutavam o anjo em cão e o cão em moça. Por mim, casávamos ali mesmo. O Mestre, como já caía bem em uma túnica, faria os votos e as bençãos. Você, entraria com a Vera dependurada nos ombros e eu colheria os feijõezinhos nos copos com algodão para montar seu bouquet. É bem verdade que os pimpolhos ficariam como araras num protesto, mas na escola secundária nunca foi hábito cultivarem nem mesmo os vaidosos lírios das literaturas aclamadas - por isso eles tinham de entender e fazer bonito no coro nupcial !

Eu sei que dirá que é insolúvel, oblíquo demais para válvulas de escape ou outras Clarices para comportar minhas expectativas. Também não tiro-lhe razão! Tanto já lhe provei que macho mesmo homem nenhum pode ser, e que hora ou outra uma mulher chega para tomar-lhe o que resta: e você chegou para mim. É sempre assim e o alazão está domado, embobece, morre. Todos morrem.

E tais cenas, assim logo de manhã, de você se emperequetando toda, já me furtam a força do trabalho para que eu a recupere só à noite - horário de suas abluções para encontrar Pedro Juán. Soube que ele tirou sorte grande no cassino Alvorada e você junto dele posando para jornais e revistas de estrelas. Por aqui, eu e meu rum amargoso comemoramos felizes a promoção de ajudante de almoxarifado, que renderá uns tostões a mais para os cigarros e as diálises.

Se eu bem quisesse desgraçar tudo para minha felicidade e vingança, denunciava-o por conta das sonegações que você me noticia e metia-lhe uns cem anos num cubículo fedido - com ratos e baratas disputando o almoço. Mas não, subtrair seus sorrisos é um crime insustentável para meu cotidiano e eu não seria capaz de conviver com a culpa que é seu pranto. Se bem que agora, com sua mãe defunta e as contas por pagar, tenho certeza de que viria correndo quando se visse desamparada e sem dinheiro para vestidos caros e noites de luxo nos "plazas" e "pallaces" da vida. É a luta pela sobrevivência, meu amor, e não tiro-lhe razão!

Se bem que há muitos meios de continuar respirando que fogem dessa perspectiva darwinista de que o egoísmo é mais afiado e venenoso que as presas da víbora mais assassina. Se bem que há outros meios de conduzir a vida que fogem dessa perspectiva neandertal de comer, foder e "comprar". Mas você faz pouco caso - acha que é tolice, que estou caducando - e me põe aqui a te esperar com o abajour queimado e uma pizza velha crescendo fungos na geladeira.

Ah, meu amor, onde foi que você começou a se perder mesmo ? Volto dia por dia para desvendar o mistério que é sua liberdade e nada faz sentido algum. Quanto mais me amou, Giselda, mais intensamente privou meus mimos e se desfez em flor; despetalando e involuindo sutilmente até minguar. Dói-me assim no peito. Finca, macera, roça e espeta, mas sigo esperando que você retorne às dezoito como outrora, trazendo meus biscoitos de polvilho e o café amargo da mercearia do seu primo Tristán; esperando que você desperte desse coma lúcido, peça desculpas por qualquer motivo e me embriague com aqueles beijos chorosos e soluçantes que só você sabe. Talvez seja mesmo uma utopia sem fundamento, mas aquele professor de geografia, com seu bigode seboso e barba por fazer, nos disse que os grandes fatos memoráveis nasceram de sonhos, embora tenha deixado os exemplos para a aula seguinte e tirado licença para não mais voltar. De toda forma ele devia ter alguma noção do que nos dissera - eu espero. Também não estou querendo aqui me justificar usando palavras de outros alguéns, portanto não me censure nessa exibição de sentimento senil e tampouco me obrigue a pedir o Zé para redigir essas coisas.

Aqui na firma estamos sempre muito ocupados com as metas e nos pedem favores o tempo todo. E se nos pegam debruçados sobre esse caderninho contando histórias de amores fracassados, ai, seremos mandados para a rua e terei de viver com as migalhas de papai. Deus me livre.





N.A.: o desenho pertence ao artista Alisson Affonso que, indiretamente, cedeu a imagem