quinta-feira, outubro 18, 2018

Sobre lírios inomináveis e covardes fugas.



Um bom guisado de carne, batatas e cenouras cozidas no vapor. Era só o que serviria naquela noite. Era engraçado como o hábito de Carlos de beber enquanto cozinhava o atrapalhava tanto na dinâmica da cozinha. Os legumes estavam já um pouco passados, a carne ainda era uma incerteza e as batatas ainda mais. Era como uma corda bamba para um inexperiente bêbado. Ele sabia que o vinho que comprara bastaria para três ou quatro jantares opulentos, mas o atraso de Giselda o forçara - além de roer as unhas e se lançar no parapeito de sua sacada por algumas dezenas de vezes – a também beber além da conta e esvaziar a humilde adega que seu salário magro podia sustentar. Ele acumulou as recomendações dos entendidos do assunto e foi pouco a pouco se preparando pelos meses que se seguiram até que a jovem aceitasse, enfim, suas ininterruptas e entediantes súplicas. Ao se debruçar na sacada ele aproveitava para sentir o cheiro das ervas recém-regadas que sua mãe, tão solidária, havia levado como presente de aniversário. Eram ervas de toda sorte que ele ainda se atrapalhava para tentar usar em suas empreitadas ao fogão. O bom moço já estava pouco sóbrio, por vezes errando a porta do quarto para checar as horas no velho relógio que reformou - um presente de sua avó. Mas, ainda esperançoso, talvez o efeito do etanol lhe roubando um pouco a capacidade de distinguir certo e errado, provável e improvável, ele se divertia com as novas sensações que o visitavam naquela noite. Esperar era uma excitante e inexplicável infinidade de possíveis roteiros, os quais ele mal se segurava para descobrir. Cada porta cerrada era uma nova história, um fio de lã de um novelo múltiplo e perigoso, teias nas quais ele, voluntário, iria se prender. Livros e contos não lidos, esse era o exercício daquela noite. A descoberta.

Giselda, ao contrário, estava pedindo seu quinto Martini há alguns quilômetros dali, dando o "tempo das moças" para então cair no alçapão que - não podia mentir - lhe causava certos tremores de medo e excitação. Já havia dispensado alguns aventureiros que não se aguentavam em suas frustrações, cadeiras e copos cheios. Tão logo o lobo frontal se despedia dos desmiolados e estúpidos rapazes, eles se animavam para importuná-la. Era curioso como o pingue-pongue que Cortázar tão inocentemente descreveu na novela do cruzeiro sem capitão era terrivelmente mais bobo e fútil no mundo real. Eram vazias interpelações e os discursos só não causavam vômito porque desperdiçar um Martini feito com tanto esmero seria uma lástima. A vantagem de se embebedar no Blues era a boa amizade que mantinha com Jacques, o barman franco-brasileiro que a protegia de qualquer armadilha desse tipo. No entanto, aquele era o pior lugar no qual ela podia se arriscar numa noite densa e provocante. Estava longe da casa de Carlos e talvez os tostões do táxi já tivessem se transmutado paradoxalmente em álcool. Não era alquimia, era vontade de se perder um pouco.

Enquanto, distraída, Giselda dava voltas com a delicada taça nas mãos, evitando revirar a bolsa para constatar seu descuido com a conta, mal sabia que seu par colocava em prática o que havia treinado por toda a semana, testando a receita e aprimorando aquilo em que a boa vida não conseguiu lhe letrar, a culinária. Apesar de todo esse empenho, ela não estava realmente esperando um jantar. A descrença em relação a Carlos se dava principalmente pelo desajeitado modo como ele propôs aquele encontro, um erro de convidar sem convidar, apostando que a mera insinuação seria o bastante para atraí-la ao seu covil. Giselda, apesar de ter se aborrecido com os péssimos modos do homem, já havia passado por coisas piores - mesmo que ela não as classificasse assim. E, de alguma maneira habituada, disse um sim apressado, porém farto em curiosidade por ver que aquela criatura peculiar havia elaborado as circunstâncias perfeitas para que nada escapasse de seus atentos olhos de folha seca.

Colocou-se então de pé; e, consertando a barra do vestido preto de lustrosas e pequeninas contas, reuniu o dinheiro que tinha, dobrou-o sobre o balcão e deu uma piscadela para Jacques que, num movimento charmoso com a cabeça, entendeu logo sua despedida. Após um último e longo murmúrio, a moça deu um passo firme em direção à porta, decidida a terminar o que começara. No caminho até a saída os adornos do vestido acariciavam os ouvidos mais atentos. Era lindo e ao mesmo tempo intrigante aquele caminhar, como que destacado da realidade, flutuante até. Mesmo que munida de muita segurança, a moça ainda se lembrava dos momentos em que teve de se sujeitar a humilhantes esperas em frente a interfones e esquinas frias. Torcia para que não fosse assim. Sua esperança morava na ideia de que Carlos fora o primeiro a evitar o tosco protocolo e pôr as cartas todas na mesa, esquivando-se de uma refeição artificialmente deliciosa e tão maquiada quanto uma gueixa em seu primeiro e triste treinamento. Ela já teve de aturar tudo toscamente posto a mesa, com cores falsas e um conforto que contava uma história previsível. Se começava assim é porque iria se deteriorar em alguns dias e ela voltaria a ser apenas um pedaço de carne, ridicularizada em rodas de conversas e um trofeuzinho estúpido ao lado de alguém semelhante aos aventureiros de bares e festas sem importância que arrastam multidões. Já fora vítima dos jogos de impressionar... Isso a balançava de vez em quando, mas Carlos ainda era um fio de esperança naquela selva em que se propôs a caminhar. Ele havia dito que a esperaria com a mais zelosa pontualidade e que ela não iria se arrepender. E, por mais raro que isso fosse, acreditou, e tomou um táxi até onde o dinheiro dava.

Distantes dali os pensamentos do homem orbitavam o possível desapontamento de sua convidada ao perceber a falta do vinho. A comida, que, na melhor das hipóteses, seria pouco apetitosa, o preocupava na mesma medida. Como um soco o desespero lhe arrebatou e o fez procurar as chaves no bolso da camisa com algumas pancadas no peito. Precisava comprar mais vinho. Cada segundo longe de casa era a chance de Giselda chegar, e de também ir embora caso o interfone, sozinho, não a recebesse como ele gostaria. Via-se numa espécie de indecisão, uma sinuca angustiante e sem saída – teria ele de pagar a conta? O lugar mais próximo onde poderia repor as poucas garrafas da estante ficava a algumas quadras de sua casa, sem qualquer garantia de estar aberto, pois eram dias estranhos esses de crise. Apesar disso, precisava jogar com a roda da fortuna, uma decisão óbvia, já que a mera possibilidade desta noite existir já era uma evidência de que nem sempre tudo estaria sob controle. Era uma jogada de risco, de fato, mas sua vida fora monótona demais até então. Num golpe único reuniu a carteira, as chaves e o chapéu, abrindo a porta com a delicadeza de um gigante, a pressa lhe consumindo a sutileza. Descendo as escadas, – evitava o elevador sempre com defeito e malcheiroso – deparou-se com Ana, a vizinha dos gatos, fazendo estranhos ruídos para atrair um bichano que havia escapado. Um boa noite breve se seguiu sem resposta, e ele já não escutava mais o que se passava em torno de si. Os degraus pareciam mais estreitos, porém antes que fosse possível qualquer acidente ele já estava na calçada, mirando a direção do mercado. Inspirou forte pela última vez, atravessou a monótona rua que levava ao seu apartamento e rumou semi-cambaleante ao seu destino. As vielas e curvas do bairro ainda tinham alguma vida, cães ladravam a noite e outros bêbados os acompanhavam em cantorias tristes. Ele sentia certa vontade de compor o coral, talvez por acreditar que a moça não viria. Contudo sua curiosidade estava mais aguçada que o normal. Seus passos o apressavam a cada metro que cumpria naquela procissão, a embriaguez se despedindo aos poucos, levada pelas lufadas de ventos que irrompiam dos morros que cercavam o bairro de Santana.

Perto dali, Giselda contava as últimas moedas do táxi, agradecendo a gentileza do moço ao dar um desconto amigável. Precisaria caminhar pouco até que finalmente concluísse sua parte no trato. O salto ainda lhe fisgava um pouco os calcanhares, mas o álcool anestesiava ligeiramente o mau jeito das pernas, sobretudo agora que o Martini fazia sua cabeça e brincava com suas ideias. Acelerando o passo, avistou o mercado fechado, em cuja porta uma luz bruxuleante anunciava uma oferta qualquer que ela não podia decifrar. Seria vinho? Salivou um pouco ao lembrar-se do último Malbec que experimentou na companhia de sua amiga Julia, mas sabia que Carlos haveria de escolher algo próximo disso – haja vista que ele logo perguntou o que ela iria tomar. Serpenteou por algumas esquinas e julgou estar próxima da casa de seu anfitrião. Seus pensamentos desorganizados a obrigavam a ligar uma espécie de piloto automático, fato que a removeu parcialmente da realidade. Esse descuido foi o bastante para que numa curva - ou reta, mas ela precisava de uma justificativa para sentir menos culpa – um muro orgânico e não muito robusto a interrompeu na caminhada. Um rosto familiar se abriu na medida em que o chapéu coco descia para uma reverência estranha. A moça despertou do transe martínico e seus olhos pediram uma trégua. Apertou-os com pressa e viu a figura de Carlos, elegante e com uma fala nervosa que ela não compreendeu muito bem. Ele estava alegre, como sempre, um sorriso quase infantil. Ela sentiu certo prazer naquela presença tão familiar e amigável, ele era um abrigo. Conteve-se um pouco, mas os calcanhares cederam ao magnetismo daquela companhia. Sua cabeça acertou em cheio o ombro de Carlos, amortecida pelo delicioso sobretudo italiano do qual ele repetidamente reclamava não poder usar no intolerável inverno dos trópicos. Um tímido oi quebrou a tensão, ao mesmo tempo em que ele lamentava o mercado fechado e a falta de vinho. Giselda, numa espécie de sono e abraço, balbuciou algumas palavras inaudíveis, enquanto ele pedia a ela educadamente a permissão para em seus braços irem para casa, pois o jantar já esfriava e ele ia se sentir extremamente culpado pelo fracasso das duas únicas opções que ele reservou para aquela noite.

Ao adentrarem o prédio, os chamados de felino de Ana ainda ecoavam pelo hall e pelas escadas. Ela ainda tinha esperança de encontrar o sortudo gatinho que havia descoberto como se livrar daquela prisão – pobre senhora. Giselda estava rendida, o corpinho já mole, guiado pelos braços igualmente fracos de Carlos, que tirava forças do carinho e da sorte de tê-la ali para chegar até seu apartamento. Subindo as tortas escadas do prédio cinquentenário, já se podia sentir o cheiro da receita inundando o terceiro andar. Logo que abriu a porta o relógio badalou onze vezes anunciando o quase fim da noite. Também em onze passos Giselda se guiou pelo sonoro cuco e cambaleou na direção do quarto. Ao passar pela penumbra da cozinha a jovem elogiou de forma brincalhona o cheiro da comida. Passou reto, ignorando o olfato atraído pelo guisado, dando uma gargalhada maldosa que fez Carlos pensar que era o mais puro sarcasmo. Ele estava menos ferido com toda a circunstância. Os floreios do vinho e do jantar eram uma estúpida desculpa para encontrá-la, mas estava orgulhoso de ter conseguido ao mesmo terminar essa etapa. Claro que ele também havia ensaiado algumas coisas pra dizer, mas não sabia se ela ouviria com tanta atenção, dado o estado em que chegou. Antes que ele a espiasse no quarto, foi até as panelas para guarda-las e reunir o jogo de talheres que havia preparado conforme as dicas de sua mãe. Se alguém pudesse fotografar aquele cantinho perderia parcialmente o fôlego, tamanho o capricho e simetria da mesa, a composição dos quadros, livros (tinha muitos livros) e o cheiro doce que partia dos móveis, dos lençóis e da brisa vinda da janela de correr.

Ao passar pela porta do quarto, Carlos viu aquela criatura de pele alva se projetando pelo extenso colchão em um perfeito contraste com a falta de luz ambiente. As contas do vestido entoavam uma suave melodia conforme sua convidada se acomodava e puxava o cobertor para si. Era um momento tão único que ele jamais ousaria interromper para lhe oferecer qualquer ajuda. Fora dali, os chiados de Ana já haviam cessado e ele sabia que a noite terminava nesse instante. Antes de voltar sua atenção a Giselda, ele se perguntou se o pobre gatinho havia retornado ou achado melhor destino. Torcia pela felicidade dos pobres bichinhos que habitavam o prédio. Este devaneio durou pouco, até que teve a ideia de ir até o banheiro da suíte e se olhar no espelho, procurando qualquer fragilidade no tecido dos sonhos. Se de fato fosse, queria permanecer um pouco mais, deliciando-se da presença de sua amada.

Lembrou-se do ruidoso relógio e desligou-o sem pestanejar.  Ao atravessar o quarto, Carlos ia pisando com cautela no piso de tacos, torcendo para não despertar a moça. Chegando na beirada de sua cama, acomodou-se no extremo de seu colchão, evitando roubar de Giselda algum calor que fosse indelicado ou impróprio. O teto da casa parecia sugar a atmosfera, deixando o ar cada vez mais rarefeito, levando dele algum resquício de sobriedade.

Quase fechava os olhos quando Giselda, abruptamente, se virou na sua direção. Como que em um movimento de susto e tensão... Os lábios entreabertos e secos lançavam nele um hálito do que ele logo reconheceu serem as flores aromáticas de um bom dry Martini. Deixou-se levar pela onda inebriante da bebida enquanto se esforçava para separar dela o perfume que se impregnou no sobretudo que esqueceu de tirar. Em outras ocasiões ele se amaldiçoaria por tamanho descuido, mas um involuntário sorriso se abriu na sua face agora em chamas de tanto desejo. Ele sabia que tinha de saborear cada segundo, cada ciclo de respiração de sua companhia. Era claro como o dia que no primeiro raio de sol o lírio que comprara para adornar o quarto estaria já um pouco murcho. Mas seu maior receio era de que a essa altura ela já tivesse feito o bilhete e esquecido propositalmente seu xale sobre a escrivaninha. Um ciclo que iria se repetir, e que ele mal podia esperar pela próxima rodada. E adormeceu em um sono despreocupado.

segunda-feira, outubro 15, 2018

A secura do ar daqui.



Era mais uma daquelas longas viagens que papai adorava fazer para encontrar cachoeiras ao redor da cidade. Em minha cabeça de criança era curioso como aqueles prédios e chaminés que se levantavam a cada dia ainda permitiam que em algum cantinho relicto da metrópole ainda houvesse tímidas quedas d’água para algum divertimento dos tristes operários e moribundos. Enquanto papai acelerava e contava alto como investigou nosso destino, o ronco do motor do carro acusava certo cansaço, uma indisposição para seguir a estrada. Eu, agarrado a toda inocência e total desconhecimento da situação, ignorava qualquer possibilidade das coisas não acabarem bem. De minha parte, confiança absoluta em todo o saber de mecânica que papai exibia em um diploma de curso técnico dependurado na parede da sala. Mesmo que fora da moldura, ficava ali grudado por uma cola de eficácia duvidosa, certamente uma tentativa de roubar a pouca clientela de Vilson, o mecânico oficial do bairro. De toda forma, se ele não se preocupou com os ruídos estranhos, eu jamais me preocuparia também.

Ainda que eu estivesse errado, verdade era que minha mãe creditava pouco ou quase nada as competências de papai com engrenagens e molas. A ela restavam apenas lábios machucados e a típica inquietação das mãos quando andávamos naquele Chevette 73. Para piorar a atmosfera de tensão, ela nutria aversão por esses lugares que papai procurava. Dizia que estávamos nos banhando nos dejetos das indústrias, o que eu, ainda abraçado à ignorância dos meus poucos dias, achava que era particularmente um luxo, talvez por não saber o que a palavra “dejetos” significava e ter uma admiração cega pelas fábricas que se abarrotavam nos subúrbios sujos daqui.

Eu tentava disfarçar para não magoá-la, mas eu não sabia esconder tão bem minha paixão por aventuras naquela caixa de sardinhas desgovernada. Mais do que a chegada, a viagem era o que mais me encantava. Meu gosto era pela aventura de viajar sentindo o cheiro de combustível vindo da saída de ar e ouvir no toca fitas os boleros do casamento de papai e mamãe. E amava ainda mais quando o desenho da pista se transformava numa longa e monótona reta, momento em que eu, imediatamente, esticava o pescoço por entre os bancos da frente e implorava para mamãe que me deixasse pôr a cabeça para o lado de fora. Ela, que sempre fora muito apegada à segurança de sua cria, em poucas oportunidades me deixou fazer este que era meu passatempo favorito em viagens assim tão longas. Mesmo pessimista eu procurava seus olhos de jabuticaba - os mais lindos que eu já vira -, sem dizer palavra, tentando achar um pouco de compaixão, um pouco de solidariedade com a criança mais agitada que já pisou essa terra.

Neste dia, num aceno breve ela assentiu e apontou com o nariz a direção da janela, ainda sem tirar o olho de mim, supervisionando militarmente cada movimento meu. Papai, por sua vez, me mirou com os olhos apertados pelo espelho, olhos que denunciavam que logo abaixo se abria um sorriso largo como só ele era capaz de fazer, talvez já prevendo minha súplica assim que apontou na reta e viu que ela se estendia por alguns quilômetros. Apesar de parecer bobo, nesse passatempo eu provava o melhor dos presentes.

Num movimento único me esgueirei pelos bancos e pousei um beijo nas bochechas pálidas de minha mãe em agradecimento; e, tão logo comecei a girar devagar a velha e emperrada manivela, brotou também a ansiedade pelo momento, a qual nascia na altura do meu estômago e se difundia por cada cantinho do meu ser, como a espera por alguém ou a expectativa de entregar um presente. Meus pensamentos eram tomados pela antecipação de como seria sentir novamente aquela sensação, de como eu poderia repetir cada etapa como se fosse a primeira. Apesar de haver certo prazer nesse lugar, eu não podia perder muito tempo nessas ideias. A estrada não iria me esperar. Nem mesmo papai iria me esperar. Éramos apenas eu e aquele pequeno instante.

Meu corpo magro e frágil mal conseguia girar o mecanismo, me obrigando a urrar timidamente para tirar força de algum lugar e enfim me libertar daquela prisão. Com um olhar de pena e madura paciência, mamãe se solidarizou com minha peleja. Após um longo suspiro que denunciava seu arrependimento, vi seu pálido braço atravessar na minha frente e alcançar a manivela que enfim me libertaria. Cada centímetro que descia do vidro era uma oportunidade para calcular se já seria o bastante para eu passar pelo espaço que se abria como um presente e um laço. Quando julguei possível lançar-me à janela, senti um forte golpe da brisa me acertar em cheio. O vapor e o cheiro de gasolina que antes partiam das entranhas do carro eram agora substituídos pelo cheiro das poucas árvores que cresciam em torno da estrada ou pela inundação das minhas narinas que mal distinguiam odores naquele momento, tamanha a abundância do ar que - ironicamente - me sufocava.

Papai sabia o que fazer nesse momento e acelerou ainda mais, enquanto eu suplicava ao universo para que inseto algum se encontrasse comigo naquele momento, por menor que fosse. Ali começava o melhor dos prazeres, a boca aberta e o ar soprando a umidade das minhas bochechas pouco a pouco, no ritmo em que minha expectativa crescia, até que nada mais sobrasse e a dormência das mucosas secas começasse a fazer formigar e me divertir. Eu sentia o ar correr por mim despretensioso, fazendo seu trabalho pouco a pouco, com esmero e capricho. Aos poucos eu quase adormecia, minha mente inebriada pelo total desprendimento de tempo e lugar.

 Porém, as previsões de mamãe estavam certas desta vez. O motor do carro não mentia e o diploma de papai se fez inválido. Começou pelo céu da boca a umidade retornar, as árvores, que antes passavam rápido e se amalgamavam num verde esmeralda que mais lembravam muros partidos em pedacinhos, agora já deixavam que suas folhas pudessem ser contadas sem pressa por qualquer transeunte.

Despertei de meu transe e fitei discretamente o rosto de mamãe, que me olhava de volta com certa pena do meu entusiasmo, dando breves risadas dos solavancos que eu fazia ao tentar fazer o carro nos dar mais uma chance. O olhar de papai se fez de sorriso a culpa, enquanto entreolhava sua companheira ao som do que devia ser Orlando Dias e aquela triste voz de uma solidão raramente reconhecida – e como doíam na alma essas canções...

Papai, resignado, foi levando o carro enfumaçado ao acostamento, planejando sua próxima tarefa, balbuciando alguns termos e procurando em suas memórias de garoto o que estaria acontecendo com o carro. Eu já me afundava no banco de trás, fechando o vidro e tentando organizar a juba quase impossível de pentear. Eu não estava satisfeito, posto que o vento não terminara o trabalho e havia boas milhas de reta para percorrermos. Já estávamos quase parados. E paramos, enfim.
Papai foi o primeiro a descer do carro, com uma pisada forte, um pouco desconsertada, e o cabelo ligeiramente desgrenhado por causa do nervosismo – o que ele mais gostava era de arrancar um sorriso do rosto da mamãe e atacá-la com cócegas em seguida – por isso ele não podia decepcioná-la de novo. Quando levantou o tampo do motor, foi recebido com uma lufada de ar quente e fumaça que o fez recuar. Tudo isso inaudível para mim, dado que os vidros, já fechados, não nos davam pista do que se passava lá fora. Minha mãe já havia deixado seus lábios em paz e agora atacava com certo vigor as unhas da mão esquerda. Ela estava certa... Enquanto eu aceitava que passaríamos algumas horas ali, esquecidos como brinquedos velhos aguardando meu pai desistir de sua teimosia e pedir ajuda, subitamente o vejo dando saltos por entre as bolhas de fumaça escura e fazendo um gesto nos chamando para fora. Sua expressão era tão infantil quanto a minha em meu ritual, e apontava na direção do sol, gritando o nome de minha mãe e arrancando às pressas a calça e desabotoando a camisa, quase que simultaneamente.

Lancei-me na direção da outra janela, procurando ver o que papai vira. De começo achei que ele estivesse sendo atacado por formigas lava-pé, mas ao me esgueirar um pouco mais vi que ele apontava para baixo, enquanto se despia. Alonguei bem meu pescoço para compensar a baixa estatura e, bem longe, abaixo de um longo declive, se estendia um lago límpido, refletindo como um espelho o firmamento. A campina ao redor balançava ao gosto do vento, que intenso soprava como eu tanto desejava antes de nosso naufrágio em terra firme. Lembrava-me os cabelos sedosos de minha mãe, dançando ora à esquerda, ora à direita. As ondículas na água brincando de morrer na borda.

Mas uma coisa me arrebatou de súbito, uma árvore que se erguia à beira do lago, imponente, segura e carregada de frutos que eu não sabia identificar. Era ao mesmo tempo um abrigo, uma sombra fresca e um trampolim para lago. Meus olhos se arregalaram involuntariamente tamanha alegria de saber que eu nadaria no lago ainda que a viagem – minha parte favorita - tivesse sido abreviada.

 Vi papai descer em disparada, como sempre, mas com ele minha mãe que já havia deixado o carro. Sem que eu pudesse perceber, ela apanhou uma cesta de comida, e correndo morro abaixo se equilibrava para não cair na pequena trilha que conduzia ao oásis. Eu me coçava para chegar logo lá, queria compensar o fracasso da viagem e do meu passatempo, mas me perdi na estranha hipnose de ver os dois tão felizes e serenos. O sol iluminava as mãos dadas e sorria para nós, amarelo manga. Permiti-me ficar ali a contemplá-los, sem causar qualquer ruído naqueles corações que se mostravam de novo sintonizados e alegres.  Minha mãe deixara as unhas em paz e suas mãos já repousavam nas de papai. Um batom vermelho devolvera o viço de seus lábios e o rubor das bochechas entregava sua felicidade. Ela cansara da fuga. E uma pequena lágrima rolou de seus olhos, como que libertando uma dor, um senão. 


A imagem foi gentilmente dedicada ao texto por Hermano Zenaide, que publica desenhos e opiniões em sua página no Twitter: https://twitter.com/hermanozenaide

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Menino - 12/03/88 †

Dor imensa era de Ana e seus quinhentos pimpolhos. Grudados como coalas em seu vestido bordado de flores e abacaxis, uns choravam alto no bonde, urrando de fome e exibindo os narizes enlameados; outros, nem desmamados, rolavam o chão imundo e aborreciam o sono dos poucos passageiros de Fundo Céu que insistiam em usar a linha Viana para voltar do centro. Ana teimava no bondinho - já às vias de ser desativado e transformado em desimportantes museus. Era mais barato. Assim, poderia aplicar a diferença no leite de vaca com gosto de hipoclorito que ainda reservavam aos fodidos das redondezas nas vendinhas mal cheirosas do bairro do lado. O seu do peito, com sustância invejável quando jovem, já sinalizava escassez quando fora alimentar Giselda, a caçula, e agora temia perder as crianças para a bruaca da assistência social depois da denúncia dos vizinhos bêbados de tanto moralismo e boa conduta. A velha, com rugas marcantes e um humor ácido que amedrontava os pequenos, entregou, só no último mês, três cartas que passavam deslidas e desimportantes pelos olhos da mãe, que não dava parte para aquele teatro todo e tampouco era letrada para decodificar aquelas ordens, desordens e despejos. Claro que não era letrada, pois que trabalhava logo cedo juntando para seu almoço um pouco do lixo e fazendo serviços meio bobos pelos quais os vizinhos pagavam mais por pena que por necessidade. Ana sempre foi bem vista pelos patrões e um bocado alergênica às patroas. Ainda que quisesse acreditar que era bem reconhecida por rastelar bem os quintais a perder de vista e fazer os jardins um brinco nas mansões belíssimas, no fundo ela tinha clara noção que a fidelidade e seu pão vinham, é claro, do bom e velho sexo que aprendera com estradeiros em sua peregrinação até a cidade. Ela saiu com o irmão, já falecido, com seus oito anos, e para o interior nunca mais voltou. Seus pais plantavam na terra seca de deus, mas os rendimentos nem mantinham a cabra que ainda punha leite nas seis bocas da casa. Seu corpo dizia mais dessa história que sua memória pode contar, mas Ana nunca teve que engolir seco e se sujeitar a autopiedade e um choramingo de humilhação e infortúnio. Lá no seu sertãozinho o pai já profetizava a maldade que o mundo lhe imporia e mais uma centena de refúgios e bons pensamentos pra afastar a tristeza e a falta de força - só não lhe contou tudo, pois se despedira cedo: chaguismo do coração.

Como se não bastasse as inúmeras intempéries que arrastava em suas quarenta e oito primaveras, Sandro, o único que não tinha ido com ela ao centro vender muambas que encontrou revirando os rejeitos, - diziam os conhecidos malandros da cidade - estava mancomunado com os garotos da quadrilha e trafegava com uma pistola 45 desembocada na calça que comprara com os vencimentos da erva. Ana já o tomara antes pelo braço e fez o que pôde para tirar da cabeça da criança a fissura pelo dinheiro; mas os tempos difíceis no país compeliam até o mais honesto e reto entre os homens a torrar os putos com qualquer merda analgésica que trouxesse primeiro esperança, umas talagadas de rum e pusesse pão fresco na mesa empoeirada dos barracos - era coisa rentável. O pai de Sandro fugiu quando soube de sua vinda ao mundo, mas não era muito diferente da vida que leva agora seu herdeiro, e ainda ajudava com uns trocados que seguravam volta e meia o vazio do lixo e os tempos de frio. Traficava pesado com uns gringos que vinham pelo turismo até que sua cabeça rolou numa armadilha tão bem montada que rendeu aos policiais envolvidos na operação até medalha de honra ao mérito - e, mérito por mérito, cada um com sua fatia do bolo, ninguém soube de Ana, nem de seus filhotes a exibir as amídalas inchadas, chorosos, famintos e sem pai - nem filho, nem espírito santo. Era um caminho sumarizado esse que o moleque tomaria: o pavor de toda mãe pobre, solteira ou não, era o fato de só o encontro com o fim é que era capaz de libertá-los do que apelidavam de "esquema". E Sandro, nos seus quinze insignificantes anos, desenhara um bom plano, porém fora levado por ele e pela correnteza dos corpos d'água fronteiriços com três ensangüentados rombos na cachola, uma fagulha no peito e um bobo e nervoso sorriso de um lado só: traído por seus iguais a mando de um chefão talvez ameaçado pelo jeito que tinha o moleque para a 'coisa'. Foi achado tempos depois numa cidade vizinha, já transformado em comida de peixe e átomos; e a mesma sapa velha que vinha volta e meia tomar-lhe os pimpolhos veio também trazer a má notícia. 

Se fosse uma tentativa abortada de ser motivo de orgulho para sua quase-família, Ana interpretou como uma preocupação a menos e preferiu não rolar uma lágrima sequer para aquele mulatozinho metido à besta que quase abandonou perto da usina metalúrgica. Sandro seria seu sexto "aborto" e não doía mais essa questão como foi nas primeiras (tanto dor de sangue quanto do arrependimento), mas a imprevisível e humana piedade deixou uma marca, um recado, e ele viveu. Quando a assistente chegou à sua porta e disparou a notícia, Ana teve de fingir uma dor lancinante de uma bala no peito para que seu perfil com a gorda enxerida e imprestável não fosse ainda mais por água abaixo. Ela não queria se comprometer mais com aquele processo que só sabia alimentar frustradas mães que não conseguiam dar um filho sequer a seus maridos e tinham de subornar centros de adoção para roubar de umas e condecorar outras com o pretexto de estarem "salvando vidas". E os maridos, loucos e desnorteados com o tabu mais inquebrantável e vergonhoso da humanidade, saíam à deriva para germiná-los nas barrigas de pobres e fedidas moças que cuidavam dos jardins por pratos de comida e umas moedas. Fora assim com três dos sete animaizinhos esfomeados dos quais cuidava hoje - frutos de uma condição humilhante, mas, afinal, de subsistência, um ato de amor aos antecessores, sucessores e a si mesma. Ana achou que a filha da puta também quisesse "Sandrodefunto" para adoção. Ora bolas, se o jogo era assim tão agressivo, não seria surpresa que uma falsa-mãe o adotasse apenas para chorar no leito, comprando qualquer memória para saber como é. Mas o que ela queria era só os papéis do pirralho, que, para o estado, jamais existira, seja nessas burocracias de cartório, PSIU ou polícia; e foi enterrado com a sepultura de "Menino - 12/03/88 e uma cruz raspada numa pedra fosca e menor que um livro de bolso". Também, mesmo sem saber quando nasceu, alguém iria mesmo visitá-lo e levar aquelas fétidas flores carregadas de culpa, pesar e impotência ? Ana nem mesmo foi até lá... Soubera de um galpão abandonado que com toda a sucata que reservava em seus vazios corredores iria alimentar seus parasitas durante toda a semana. Esqueceu-se de Sandro. Passou.

A história de Sandro terminaria ou começaria numa noite seca e congelante de uma quinta-feira mal chovida. Ana decidira ir a um lado afastado da cidade e acabar com sua sina de parideira e deixar Sandro para apodrecer junto dos rejeitos da mal cheirosa firma de abate; o vento roçava seu ouvido com um gemido alto que só próximo ao mar conseguia-se ouvir; a moça viu e entendeu logo que aquela semente que dormia numa calma questionável para uma criança de poucos dias se misturaria às moelas, olhos e outros caquinhos duros de aproveitar na mesa e fim de papo. Mas, apesar da pouca educação formal, Ana sabia em que se transformavam as peças ossudas e molengas mal vistas nas casas de família e recordou do fato de que embutidos sempre estavam na mesa dos miseráveis pelo preço desprezível que tinham. E a ideia de Sandro virar jantar revirou seu estômago e trouxe uma náusea lancinante que a tombou sobre uma pilha de lixo e lá trouxe um pranto artificial e instintivo que lhe regou as bochechas magras e negativas pela fome. No entanto, aquela serenidade tão incomum do menino em vista dos que o precederam trouxe certo alívio na tola e eufórica mãe. De certa maneira, ela se confortou com a ideia de que o moleque havia congelado no frio cortante e que suas mãos não se sujariam mais - embora estas também estivessem dormentes pela falta de luvas e agasalho. Sandro seria mais uma vítima do tempo ruim, das forças de cima; e, ademais, qual sua importância para o formigueiro que passaria ali a trabalho e lazer ? Sandro combinava tão bem com aqueles sacos plásticos inchados de rejeitos que iria compor um belo cenário em sua manta escura harmonizada com a podridão que a cidade reunia naquele cantinho sem porquê. Camuflado até o dia seguinte, longe das fotografias e das conversas de bar, seria levado pelos fortes punhos dos homens do caminhão de lixo, que passariam recolhendo o que a cidade jamais conseguirá sustentar ou conviver. 

E, bem verdade, Sandro era exatamente isso: um fardo pesado e desnecessário para qualquer cidadão carregar. Oh ! Bela metáfora me ocorre: "Que cortem os lastros toscos desse balão e o deixem voar." Mas também o eram sua mãe, seus irmãos e outros que ele nem chegaria a conhecer. Sem testemunhas e escuro demais para intervenções divinas, ela estava na situação perfeita para ter um pouco mais de chance de sobreviver sem uma boca a mais para alimentar, porém seu coração amoleceu num gemido fino e baixinho do seu fruto ao pé do ouvido, e qualquer hesitação nessas horas (ela sabia por anteriores experiências) era suficiente para reprocessar as ideias e voltar pra casa com cabeça baixa, filho no colo e o bucho retorcido. Engraçado que, ao passo em que Ana descia as avenidas e os quarteirões às pressas, com medo do que lhe aguardava e do troco de deus, ela viu na penumbra Antônia, Kátia e Maria se dirigindo ao píer com embrulhos enrolados entre os braços empapados e cara de pavor, bufando aquele vapor sinistro do nervosismo que Ana sabia que também cuspira não uma vez, mas porque queria comer. De fato, era uma loucura voltar, e hoje, já lúcida, nada tira da cabeça de Ana que os passos que se seguiram na vida de Sandro até sua brincadeira de ser gente e tocar em dinheiro alto eram caprichos que, ainda rebento, ele guardou nas vistas e cuidou de tratar quando de mais idade. Ele teimou feito criança - mas para sua felicidade jamais soube que fora um crasso erro.

Sandro estava, apesar de tudo, natimorto. Só brincou de viver.

terça-feira, março 26, 2013

Há sempre um lado que pesa - Parte II



Hoje faz exatos 4 anos desde que André e Custódia tomaram os rumos merecidos que o Deus justo lhes deu. Tirando os quatro cumpridos, eles ainda haverão de passar uns 15 bons anos naquelas celas infestadas das mais cruas moléstias que surgem em São Carlos - a prisão que inventaram na província do sul dedicada a abrigar os mais oprimidos e famintos de nosso país. Não sei você, mas vejo isso talvez como a grande ironia para a situação dos dois. Torço, e me contorço por dentro ansioso, para que o corpo dele - e também o dela, não me importo - já não seja mais um santuário da individualidade e do eu-íntimo que filósofos e psicanalistas sacramentam. André, eu sei, já provou da crueldade dos homens pelo que me disseram os guardas de seu pavilhão aos quais paguei duas cervejas e um torresmo. Desembucharam  cada horror que não cabe aqui nessa confissão, forte demais; e Custódia, ah, essa sim eu fiz questão de visitar - com xale e lenço no rosto pra não me denunciar. Vi que sentiu nos ossos o rancor e o ódio que cada mulher encarcerada esconde por trás de boa pele e voz suave: eram animalescas no baixar do sol.

Não há como me solidarizar com o que eu tanto lutei pra reverter. Apartando, claro, Custódia, com quem jamais troquei palavra, passei uma vida inteira me fazendo espelho, quase gritando pra me fazer ouvir e André refletir minha imagem reta. E não é narcisismo, ora, todos em volta estão ainda vivos para confirmar minha estória. Eu, sim, era como papai nos seus tempos áureos de boa forma e muito trabalho, não ele, como mamãe bateu firme o pé e no peito pra dizer aos mais próximos. Parece até que eu via a família acabar em si desde então; antecipava cada mau momento e deslize de cada um que edificava - ironia bela que encontro agora - nossa própria ruína. Os dias iam frouxos no largo do tempo e minha mãe afundava densa e suave em sua depressão, deixando a inércia da mente ser parte integrante do horror que se tornava a casa: banheiros que se faziam baias de porcos, comida abrigando moscas e insetos inumeráveis visitando nossas roupas e trazendo todo tipo de peste para nosso "lar". A morbidez do lugar parecia estampada em cada centímetro dos móveis, roupas e jardim terroso. Perdíamos batalhas diárias para o álcool, a traição do papai e para o bom moço que aparecia a cada mês para dar um alô e deixar uma maçã daquelas bem vermelhas do mercado do Centro para a senhora amorfa esticada na cama vendo shows de televisão e as pupilas esgarçadas para o nada. Bastava, não é, filho da puta ? Um agrado catado em bons momentos pagava sua dívida com aquela que te deu do peito e pôs o universo pra puta que pariu pra te fazer homem... Que grande homem !

Hoje não tenho tantas notícias da mamãe. Depois que convidei-a, quase suplicando, que viesse comigo para Santana e ela devolveu logo um não seco junto de um tapa no rosto e um "covarde", percebi que André estava tão vivo em sua mente e coração que toda memória ligada a ele será um memória de esperança e ternura tão típicos de brasa e amor quanto pode ser o sentimento materno em sua manifestação mais instintiva... Nada lhe abria os olhos; nem mesmo um crime chulo e repugnante como aquele ao qual meu irmão se propôs por mera afirmação de seus limites. Contaram-me uns velhos conhecidos que ela está de vida nova, ajuntada com um velho da idade que papai teria e que tomou de volta agulha e tecido pra fazer sua renda. Perguntei onde estava a velha e disseram-me que ainda vive no nosso sobrado velho e, pelo que lembro, com um cheiro impossível de hibisco que só ela pra aguentar. Ela já era conhecida no nosso entorno e fazia quase que toda a roupa da vizinhança na época boa, antes de papai desviar. Depois largou. Virou lavadeira, as mãos descascando junto do vigor e meses depois teve de dar seu lugar e ficar de cama. Eu já fazia em torno de 110 palavras na firma, o que me permitia custear os remédios para o pulmão, o humor a base de comprimidos e o básico pra não morrermos de fome. André vinha aos sábados com a maçã quinzenal, para a qual ela exibia um largo sorriso e que praticamente devolvia sua plena saúde. Engraçado isso, é verdade, mas hoje já não fisga o peito como outrora me fez perder as forças.

Santana fica mais perto da cadeia de São Carlos do que Monte Azul, onde morávamos todos antes dos incidentes e que é o extremo norte de nosso grande e pobre estado. Por isso, deduzo hoje que mamãe -  analfabeta desde sempre -  não tem qualquer notícia de seu preferido, justo porque a costura não lhe dá tempo nem rendimentos para viajar pra saber de seu Andrezinho ou lhe retribuir as maçãs que lhe curaram da tristeza indissolúvel que as andanças de papai lhe trouxeram. Dadas as circunstâncias, devo dizer que há males que vêm para o bem, pois sei que ela não suportaria ver seu caçula violado e espancado pelas mais vis criaturas que lá dividem comida, cama e chuveiro com seu protegido. E não aguentaria nem saber que ele estava sujeito à higiene mais inumana que qualquer lugar da Terra consegue igualar. Uma prisão é o ensaio para o inferno, uma preparação leal ao que descreve a bíblia e o vigário, certamente.

Faz mesmo muito tempo desde que deixei nossa casa pra me acomodar longe do sobrado onde tanta lembrança ruim retumba entre garrafas batidas de papai e esquinas desertas. Mas, paradoxo infeliz,  meu sentimento de injustiça e ódio permaneçam os mesmos desde então. E por esses dias me veio um desejo incontido que me arrancou o sono infinitas vezes de dar a mamãe umas belas mentiras de presente de aniversário pra que seu coração repouse tranquilo a cada noite, pois seu travesseiro, tenho certeza, compartilha um medo e uma incerteza que, eu sei, são mais corrosivos que a própria perda... Mas não, decidi enviar a ela a própria reportagem destacada do jornal que guardo até hoje num fundo falso de uma gaveta: a verdade. Um ato vingativo, é claro, mas que destilaria múltiplas vezes toda a minha dor, misturada a ira e confusão que ainda visitam uns sonhos ruins. No dia em que saiu a sentença, Pedro Santo escreveu uma coluna apertada numa página perdida entre os classificados que falava da prisão de meu irmão; sem foto e com a palavra GOLPE bem negritada, pedi que a chamada tivesse a intenção de saltar aos olhos de um leitor distraído para ver do que um vizinho ou irmão é capaz de fazer. Planejei deixar o recorte colado a um papel qualquer, pra me poupar de ter que descrever e redigerir tudo no meu intestino moralmente saturado de todo aquele doloroso enfado: a última carta que eu terei de enviar, eu espero, mas jamais escrever...

Quando deixei a firma de Seu Calixto pra fazer minha vida bem longe daquela terra quente e banhada às formas de julgamento mais avessas da humanidade, o velho me deu de presente a máquina que usei durante o tempo em que lá fiquei, juntando pouco a pouco o que dava pra ir embora ou mesmo pagar um ônibus que me tirasse daquele inferno para algum vilarejo nos arredores. Pus na mala de minha partida apenas o que não me recordasse Monte Azul, mas senti-me impelido a fazer da máquina um amuleto da minha vitória e, enfim, soquei-a entre umas camisas velhas e a botina que usei na roça. Nunca tirei-a da mala. Também, nunca tive necessidade de me corresponder com ninguém nem mesmo agora que estou na minha escrivaninha debruçado sobre um envelope e o jornal do dia 12/04/65; hoje tenho meus filhos e uma vida muito bem arquitetada longe dos meus fantasmas, obrigado. E não era preciso cerimônia; era só colar e despachar para a Rua dos Santos, 118, meu presente mais que especial...

 Antes fosse assim tão simples dentro do nosso universo ideal, rio-me. Pois parece que por força maior, puro azar ou provocação do destino não achei a goma na caixa de ferramentas. Sou terrivelmente metódico com a organização das minhas coisas, sobretudo com a caixa de ferramentas que deixo no alto, bem longe dos meninos, na garagem. E, no fundo eu sabia, que não achar significava falta mesmo. Acabou, tem de comprar mais. Fui tomado por um desespero tão quadrado e sufocante que saí disparado pela casa, uma vermelhidão e um calor na face insuportáveis. Perguntei a Ana se tinha visto a porcaria da cola e ela respondeu entre tossidos que não via a cola havia um tempo, que usou pra colar uma foto no álbum mas que voltara com ela pra caixa; corri ao quarto dos meninos, que provavelmente teriam por conta da escola, e nada - era férias de dezembro. Já era tarde também, nada de livraria aberta e eu sabia que amanhã minha coragem berrante agora seria um miado amanhã. Olhei a caneta em repouso na mesa da sala com uma dor nas têmporas que por um instante bloqueou minha audição. Um zunido se seguiu, a cabeça rodopiou e eu voltei meio torpe... Sabia que teria de ser tudo com minhas mãos e palavras, mas me acovardei e fui atrás da máquina; pois ela, sim, iria dizer o que foi dele pra ela pra que entendesse tudo logo e aliviasse a cabeça que certamente não andava bem.

Foi bem custoso retirar o entulho do meu passado. Aquela parafernália tosca e pesada a valer que talvez tivesse sido minha chibata se tivesse nascido preto; talvez a mais tola ideia que já tive na vida, porém segui com a ideia fixa. Minha malícia não reduziu por isso. Fui delineando cada passo do processo que seguiu por longos meses, as teclas em disparada e eu talvez digitando 120 pra mais num êxtase digno de estudo na academia. Não queria só contar da prisão, era pouco demais pro tempo que deixei quarando no sol do rancor e da impunidade aqueles fatos hoje ainda carne fresca na memória. E a cada avanço parecia que eu estava endereçando a carta ao próprio André, exaltando sua desfortuna nas mãos de quem ele jamais fez qualquer mal, e de como isso se parece vingança divina ou mesmo sentença de deus para os pecados que cometeu a tempos idos, ou de seu próprio merecimento... Ana me chamou pra deitar mas eu ainda estava falando da confissão de Custódia e dos olhos baixos de meu irmão frente aos parentes do falecido que babujavam ódio e disparavam olhos fervilhantes para o rebento mais honroso de minha mãe. Pedi pra Ana ir sem mim, que era uma urgência vinda de São Paulo e que amanhã logo cedo tinha de estar resolvida. Ela contrariada foi, não sem me inclinar um beijo na nuca, do qual quase como um reflexo eu desviei para não me atrapalhar na tarefa. Ouvi seu rugido ao fundo e com uma espiadela vi que vestia uma seda que lhe dei de presente num dos nossos aniversários de casamento, talvez mero capricho para me tirar daquele transe nitidamente doentio. Não fez efeito. Fui até o fim, contando da minha visita ao agora mórbido e derrotado André, com a barba por fazer, as costelas gritantes e os braços de graveto... Contei do cheiro da cela, do quão pernicioso era sobreviver por cinco minutos dentro daqueles saguões extensos, largos e ensurdecedores...

Podia dormir tranquilo, enfim. Passara um pouco a minha inquietação e aquela coceira no calcanhar que vem com a ansiedade. Já podia prever mais uma penca de cabelos brancos quando acordasse, mas foda-se pra essas vaidades. Selei o envelope com uma dobradura que aprendi quando jovem e pus as três folhas pautadas delicadamente dobradas no meu origami homicida pra mamãe e passei a chave na porta. Entrei no quarto com um copo d'água à mão, sedento, a boca seca... Não tinha me movido para comer ou beber desde que havia sentado na minha confortável cadeira da saleta que eu chamava de escritório. Vi o ombro descoberto de Ana mas não me veio nenhuma vontade de foder com ela, nem de acordá-la para um beijo de boa noite ou o carinho habituais. Queria o mínimo de distração pra que o dia amanhecesse rápido e eu terminasse o que comecei. Preguei as pálpebras com certa autoridade e comecei com um cochilo calorento até aprofundar num sonho confuso: era meu sucesso. Agora tinha de esperar pelo canto do galo, passar um café, pitar um cigarro e rumar até a casa do Eugênio, o carteiro responsável por encaminhar as correspondências do entorno de Santana. Ia passar logo...

A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog: http://porleonardo.blogspot.com.br/

sábado, outubro 27, 2012

Há sempre um lado que pesa - Parte I


Signo máximo de honestidade, totem inabalável de respeito. Ético, responsável e cordial. 

André era astuto, era seguro, era verdadeiro... André era uma receita de deus com métrica e rimas parnasianas... André era, acima de tudo, poesia para todos os gostos...



Talvez pra mim, e apenas pra mim, André fosse só um reforço da perversão do mundo e um exemplo de sua lógica de segregar alguns aos abomináveis e desiguais privilégios de outros. Sei que dirá, mas nego vigorosamente, pois não tenho por ele qualquer forma de inveja e tampouco razão para isso - você verá. Depois de travar batalha dura com a vida e seus percalços, hoje cultivo feliz minha pequena fortuna, tenho filhos maravilhosos, um fiel perdigueiro um pouco anti-higiênico e uma esposa que, apesar de hoje tuberculosa, dedicava-se ao lar nos seus tempos de saúde com um resígnio memorável. Honestamente, o que me dá é só um vazio, uma fúria de irmão sombreado pelo sucesso e brilhantismo do outro; um sentimento de quando se parte o bolo e oferece a cereja a um gêmeo e ao outro guarda-se o pedaço desornado e ainda assim espera-se o sorriso de recompensa se arquitetar no rosto do injustiçado. Vá lá, é demais !

Nasci às voltas com esse argumento. Ditava-o a qualquer um e em qualquer lugar; na igreja, quem me ouvia era pe. Cícero; na escola, a inspetora Circe; e na mesa, em hora de ceia, todo mundo que se sentasse por perto. Minha mãe, Vera Lúcia, me fazia reprimendas desajeitadas de mãe ausente, e com suas olheiras - que mais pareciam maquiagem - ela via que tais censuras não eram de grande valia, pondo que a expressão da razão, segundo ela mesma, era o silêncio das outras tantas mentiras que se calavam na minha cara amarrada (e os pontapés em direção a André que passavam raspando nas calças novas que ganhara de algum conhecido). E foi ano após ano que eu vi André se bastar em si, crescer sobre o mundo com um sorriso comedido e sua forçosa austeridade que, desconhecia-se, deformava ao misturar-se às mechas de amantes nem tão secretas assim de hoje em dia.


Era um bom garoto até certa altura, ah, isso era ! Alguns anos mais velho que ele e, dadas as condições, uma boa referência ao moleque, logo notei que ele possuía um espírito virtuoso e altruísta de querer ser o bem e fazê-lo a todos com certa neurose, ainda que discreta, que papai nos instruiu a adquirir. André parecia querer se colocar em todas as situações e ser protagonista de todas elas: era um jovem naturalmente invasivo, mas com bondade somada a isso. Depois que papai se foi - coisa de briga de bar, cachaçada, facada no bucho, mulher alheia, sangue pra todo lado, nada de ambulância ou de meu irmão - tudo mudou com uma velocidade incrível. Não fora ao enterro: estava com Elena, uma recém conhecida, fazendo as compras do mês e ajudando-a a abarcar as sacolas na carroça. Encontrei-o voltando pra casa com um andar rápido, serviço cumprido. Eu ainda secava as malditas lágrimas do rosto e ele, com um cinismo que qualquer um ali podia esbarrar, perguntou o que se passava comigo. Dei-lhe um bofetão na bochecha que trazia uma pinta exatamente igual à do papai. Sua face adquiriu um tom de fogo, brasa forte. Cabeça baixa, entrou para o sobrado e logo voltou sorrindo, indiferente, nada de mais: a vida segue. Eu disse filho da puta. Ele desimportou. Seguiu, virou a esquina e sumiu. 


Entrei em casa, estourado de ódio e ouvi mamãe fungando e dizendo que André ao menos era como o pai e que dava orgulho de vê-lo trilhar os passos do velho com tanta dedicação. Meu pai, que deixara a família desamparada por causa de uma mulher que não lhe pertencia.



Passados alguns anos, talvez pela boa imagem que sempre cultivou entre os mais velhos, as portas de meu irmão, ao invés de se abrirem quando este fazia menção de passar por elas, mantinham-se abertas à sua plena e facultativa serventia. E era D. Custódia - quarentona e viúva de uma década - quem eu conotava "porteira" de André. Não era mãe, não era tia, e tampouco preta, mas, qual tal, se preciso fosse, punha-se à frente da chibata para poupar o lombo do bom moço. Custódia sacrificava seus domingos sempre que podia para preparar mimos a André. Eram tortas de toda variedade, cartas de elogios e bugigangas de todo tipo. Para piorar, sabia-se que o fazia com as economias deixadas pelo finado - considerado crime moral e usurpação à memória do falecido, que devia torcer o nariz de onde quer que estivesse de tanto ódio e arrependimento de ter feito um testamento tamanho para tal vigaristazinha. Mas, não importava muito. Afinal, era André a quem Custódia se punha a ajudar, e portanto não era tão grave assim: a cidade inteira relevava: "a velha não podia parar de viver". E relevou até mesmo quando ele, tempos depois, começou a ajudá-la como seu enorme cacique de finanças; e daí vieram as tais denúncias, o fato, a fuga e a queda das máscaras, as quais por ora omitirei por conveniência à cronologia dos fatos.



De fato, tudo o que mamãe gastou em suados salários e morreu tentando empreender para me embutir no bom e venerável caminho do trabalho e das boas maneiras, foi abandonando a André, que parecia se orientar por intervenção quase divina e ter sucesso maior e mais convidativo que qualquer peralta de nosso tosco bairro. E enquanto eu me espremia para obter um tímido trabalho de datilógrafo na firma de seu Calixto, meu enobrecido irmão angariava outras muitas Custódias para lhe servir em lonjuras inimagináveis. Tal como uma briga assimétrica deve ser, o pêndulo da fortuna só pendia para o partido do meu rival, dando-lhe tudo o que quisesse de boníssimo grado e longe dos obstacúlos cruéis e da bateria de horrendos testes de caráter e resistência física. À altura de seus vinte e cinco anos, André já colecionava motocicletas e garotas, enquanto eu o fazia com olheiras de infinitas horas extras que me pagavam com o café e o pão de ontem. 


Eu não tinha a pretensão de censurar a boa vida dele ou de querer partilhar de seus sucessos como se me considerasse merecedor da formação daquela índole escarniosa e vil. Ora, também não exigia direitos autorais sobre tal obra - ao contrário, devo dizer ! Agora que estou almejando novas empreitadas na vida urbana e depois dos tantos incidentes envolvendo André, cogito mudar o nome que trago na identidade e omitir mamãe dos registros do governo. Vamos ser os Borges e abandonar os Vargas de uma vez por todas, pois família por aqui é coisa importante e não há progresso sem um passado livre de suspeitas. Mamãe se recusa, diz que é demais, que é desonroso, mas sei que ela acredita no que dizem os jornais sobre seu filho, que não há atalho que se tome que não leva a um colapso.




A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog: http://porleonardo.blogspot.com/.

terça-feira, maio 01, 2012

Torres em desatino.



Deitei só por 56 anos. Qual fosse o meu esforço ou minha dedicação, nem puta, nem dama, nem bicha, nem homem aceitava meu dinheiro. Se ostentasse meus carinhos e meus luxos - que não eram poucos em vista da condição das pessoas da cidade - essas regalias eram moeda morta para os “negócios da vida” e não valia a pena declará-los assim, sem ter uma oferta maior que cobrisse as propriedades materiais de um abonado. Mesmo que apenas minha nítida invalidez de mil rugas e sobras de pele explicasse o insucesso na caça pelo sexo, confesso-lhe que nem quando jovem, à aurora de meus dias, quando era nada mais que um poço de vitalidade e hormônios, fui bem sucedido na odisséia que é acordar sob a luz dos cinematográficos raios de sol perfurando e queimando quatro pernas, quatro braços e duas caras saciadas de prazer e humores. Ah, o hedonismo hollywoodiano ! Quisera eu sentar-me numa daquelas cadeiras de diretor e fazer das mil e uma traquinagens da baixeza cênica uma só obra de arte ! Naquelas colossais telas tudo é tão natural, tão escorregadio e próximo de nós ! Mas aqui no "carne e osso" não, o universo tem de ser maquiado demais para ser apresentado ao público. E compreendo que hoje faz-se isso não para causar espanto ou traumas às nossas frágeis fantasias, mas pelo fato de a menor das concretudes ou o mais sutil aperitivo da realidade serem capazes de arrebatar otimismo e fé do mais resignado e leal apóstolo.


Mas nem tudo são flores. E se pudesse, caro Simão, interromperia aqui minha catarse, pois ao fim desse registro endereçado a ti, que fora por tantos anos o meu único apoio, não desejo que seja dito das minhas palavras nada mais que uma simples anedota sexual de um fracassado amoroso sem esposa, filhos, família ou apego. Saiba, que se submeti teus olhos à humilhação da minha face é porque confio minha degeneração aos teus julgamentos; e que também delego ao teu aclamado e inabalável caráter as sentenças que mereço e você bem sabe. E faço isso porque na multidão dos meus não há esclarecimento ou sensibilidade para entender-me. Aqui sou apenas entulho, e por vezes um entulho comparado a animais da mais repugnante estirpe. Sou porco para as crianças, hiena para os companheiros de trabalho, pombo e gambá aos transeuntes. E os gambás, apesar de tudo, são como eu: injustiçados pela mãe-natureza, que assina suas perversões com o título de obra de arte divina e acha que ninguém vai se incomodar com isso. 


Para ser-lhe sincero, meu amigo, o que busco expondo-me além do que reflete a carne  é uma resposta cabível para aquele que desfruta da solidão como ela realmente gosta de se manifestar; aquela secura profunda das vísceras, o coração alto latejante e o sangue borbulhando sem ter vazão. Aquela que traz à tona os detalhes esquecidos e faz de nós - hiperativos ou controlados - uma só morada para o antagonismo de sensações e alvo para o bombardeio ininterrupto das tv's a cabo. A qualquer momento me verei comprando pilhas e pilhas de aparelhos de musculação, pagando seiscentas prestações e torcendo para que o moço do cartão de crédito não me leve a uma dessas delegacias de devedores compulsivos e me tome até as calças...


É que muito cedo, ainda na inércia de minha identidade mental, acabrunhei-me sem muito notar. Amenizei minha existência como se a tivesse programado a transcorrer de modo econômico, sem exigir de mim energia, paciência ou perícia para guiá-la; pra que não precisasse tomar nas mãos as rédeas do livre arbítrio e ter de dominar feras e acalmar as aflorações que produzem o êxtase e o deslumbramento da vida. Aprendi com a preguiça dos meus dias a idolatrar a simplicidade e a ser feliz com ela; aprendi a lambuzar-me de sabores neutros e me salgar num tempero sem muito gosto; nem azedo, nem salgado, nem ácido, nem abrasivo.


No início era fabuloso. Diferente de meus colegas de classe - conflitantes, filosóficos e errantes - eu não sofria abalos. Era mudo, evitava perspectivas atraentes e pensava pouco além da minha próxima refeição. O objetivo era que minha estada nesse mundico e corpo fátuos não servisse de mártir como as de Petersen e Huxley o fizeram a meia dúzia de gerações. Diferente deles eu não testava meus limites ou a minha natureza; tampouco questionava meus encargos e nunca aguardava um tanto mais dessa chance de aqui estar. Sendo ainda mais prático, minha ambição era como viver descendo uma ladeira, já que “pra baixo todo santo devia ajudar” e comigo não havia de ser diferente; e não era mesmo.


Ironicamente, eu observava a todos um tanto apavorado. Me perturbava imaginar-me divagando como eles sobre meu papel no berço do mundo e todos os anais que a filosofia moderna reservava para a existência de um homem. O que quero dizer é que não me sobrava tempo para compreender a razão, apenas para aceitar e executar, como um funcionário de uma fábrica qualquer daqui do centro da cidade. Se você ousa parar para refletir demais sobre o que está fazendo, três, quatro parafusos se perdem e você prejudica toda a linha de produção - quando não é demitido e vai viver de migalhas nos subúrbios asquerosos de Madalena feito Sandro e Valter que se atracaram por causa de mulher e hoje estão vendendo desentupidor de fogão e cortadores de unha no centro pra pagar o almoço. E é exatamente isso o que não quero que aconteça: só a hipótese de prejudicar os demais com uma egoísta cabeça pensante, que mais parece possuir vida própria, já me faz passar mal e embrulha o estômago.


E quando digo que não entendo tais ilustres masoquistas é porque neles não vejo lógica alguma. Espremem-se e castigam-se feito laranjas para retirar a última gota do caldo que lhes resta. E propositalmente brincam com a dor, dançam sobre a navalha do desconhecido e da sanidade. Se pendem para um lado e caem, não retornam jamais: invalidam-se. E triste é o fim de um pensador; ser de coragem cuja função é degustar, amar e descrever os venenos mais sutis que nem química ou fantasia sabem formular. São viajantes que vagam na completa escuridão e levam na bagagem uma frágil esperança de achar um ligeiro feixe de luz. Encaram feras por esporte e põem suas vidas em risco por um ideal que nem mesmo sabem se existe para obter algum resultado.


A cada reflexão, um motivo a menos para ficar vivo lhes é apresentado. A cada novo postulado, uma aproximação do acaso da luz e do azar da boa saúde. Ah, se me pertencessem as horas de ócio desses intelectualóides ! Eu investiria melhor em festas e sonos pesados que os envergonharia por terem desperdiçado tanta vida em um labirinto sabidamente sem saída. Hoje, depois de tanto tempo, eu creio que tais criaturas se dispõem a entrar nele apenas pelo desafio que reside nessa cretinice, porque buscar saber de si e das tuas faculdades só culmina numa morte lenta e dolorosa: em sofrimento.


Mas em meio a essa jogatina de azar que é a vida dessas pessoas, vi, que sem qualquer exceção, todos têm amor absoluto. Não falo de amor com letra maiúscula e aquela interpretação rica de parábolas e boas intenções dos livros infantis e da bíblia sagrada (que eles me perdoem). Quero dizer que a mesma paixão que sustentava antes a problemática vida daqueles metidos da metafísica, palestrantes de auto-exploração estratégica, seminários de filosofia socrática, hermenêutica e poética se modificou em uma paixão fulminante pelo próprio ser. Que a mesma paixão com que buscavam suas mais escabrosas justificativas e enfrentavam seus monstros mais temíveis tornou-se uma necessidade de completude refletida em seu semelhante. O "outro" era, então, a manifestação, a resposta objetiva dos questionamentos de um. E a partilha desse outro era a forma mais tenaz de gerar sua resolução.


E aí se entregavam às putas, às damas, às bichas e aos homens, que de braços abertos recebiam com candura os desvairados para acertar-lhes as idéias e sorver deles um pouco dos desatinos e se embebedar das virtudes da confusão e da loucura que jamais haviam experimentado. Descubro, depois de velho, que esse era o maior dos luxos. Esse era o começo da minha compreensão da crueza das existências; que não bastava acumular e não se entregar à correnteza nobre do deslumbramento, mas precisava me municiar de desequilíbrios e perambular pelas mentes e pelos corpos.


Eu agora deixo de ser um Torres e passo a ser Ana, Valentina, Samuel e Jasmim.  Agora eu passo a ser muitos num mesmo percurso, buscando reencontrar-me com o prazer da vida e do amor próprio para receber o que hoje me completará nas mal vistas noites de Quito e das casas de Madame Desiré. Agora me declaro um cidadão do mundo, despossado de meu auto-controle. Nu.

sábado, fevereiro 25, 2012

Bilhete para Amália

Não nutro por ti qualquer desejo. Quando a vi com meus olhos pouco simpáticos, não palpitou o coração, não dilataram as pupilas e nem minhas mãos tremeram de pavor ou de excitação. Nada fiz.
Honestamente, sequer te olhei com olhos de malícia ou sorri esperando despertar-te paixões ou fantasias naquela atmosfera perigosa que é a família e seu ambiente intrincado e tenso que faz-nos suar como se a qualquer momento fôssemos pisar num espinho ou numa ferida aberta de outrem.
Nunca mirei tua pele e tampouco desejei, consciente ou em sonho, tocar tuas arestas ou teus cabelos procurando ceder ao impulso magno do descontrole. Portanto, não esconda-os nem tampe-os com milhões de fitas e mãos como se de mim brotasse um espírito torto. Hoje, sabe-se lá por qual motivo, gostei de saber que é alva como pluma a sua tez e tens os cabelos serenos como nuvens, apesar de nunca tê-los tomado às mechas e as revolvido nos meus lábios frígidos.
Saiba que jamais admirei tuas virtudes e jamais o farei. Em respeito a tudo o que se arquiteta com alguma razão no universo, proíbo-me de inclinar-me à curiosidade de teu colo ou ensaiar imaginar como seriam tuas carícias e teus olhos em repouso. Pois, lá dentro de cada um, reside a certeza de que você jamais será amada na proporção certa. E que para descrédito da humanidade não há um de nós que sacie o desejo que emudece tosco na tua carne. Para ti, eu transcorro como os carros de um sábado à tarde – lento, vazio, desimportante.
Então proíbo-me de dormir meu sono e preocupar-me com o teu. Proíbo-me de viver meus dias tentando encontrar-me com os teus. Proíbo-me de caminhar meus passos intencionando caminhar com os teus. Proíbo-me de viver minha vida desejando secretamente que ela fosse também a tua.


A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu blog - http://porleonardo.blogspot.com/.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Ira.




Hoje o homem precisava ter asas. Não digo isso para que ele as bata vigorosamente e exiba-as à liberdade que têm os anjos no céu e nas telas barrocas, mas para urrar como aves onde o som pouco se escuta e a raiva permanece acalmada pelo que há de imaterial e etéreo no hiato do mundo real: que é senão o vácuo da atmosfera ou o parágrafo secreto dos rabiscos de Caminha.

Eu, mais que nunca, orava a um ser qualquer, minimamente superior, que me desse a atenção dada aos políticos em seus protestos ou a uma personalidade com cem dólares na carteira e um rosto bonito, ou mesmo a que deram a Davi, quando este ergueu-se alto nos braços de desconhecidos e foi coroado rei sem muito porquê. Desejei, pela primeira vez em anos, que ao meu redor não houvesse o limite da minha natureza humana: essa criatura tão vangloriada em meus próprios discursos pela universidade, que a tantos infligiu bocejos e caras feias de desgosto e discordância. Naquele instante, sozinho e subjugado ao esquecimento de causa pobre e plural, venderia-me a um estranho se me surgissem - tal qual a Hermes - pés alados que me tirassem do caos quando me conviesse. Asas que ao menos me colocassem entre a beleza da arte do homem e o tédio mudo dos deuses: que fosse no Éden ou no limbo, que fosse na clareira de qualquer coisa, ou no próprio nada.

Na bolsa, nem mesmo uma caneta trazia comigo para desenhar às pressas minhas penas juvenis. Mas a tal divindade, "o espírito do nada", "o santo do invisível", enviou-me solidário, prontamente ao surgimento do meu falso pranto de ira, um cego precavido que usava um borsalino bege e uma camisa lilás. Cedeu-me seu lápis de ponta gasta e mal feita quando sacou-o do paletó ainda meio desconfiado, provavelmente ao sentir minha inquietação dentro do antigo ônibus de Santa Matilde. "Tome aqui, criança, vai te fazer bem." Uma porcaria de lápis - que o diabo me entregou como um afago de mãe, achando que eu fosse um moleque de seis anos entediado com a viagem. Mas, como acompanhado de um sorriso e uma expressão de curiosidade que minha prática em braile não conseguirá sanar nem dali a dois mil e trinta e três anos, aceitei calado, sem agradecer nem pedir licença.

Dê cá. Nunca gostei muito de cegos, nem mesmo quando eram meras personagens fugazes das tardes em que minha mãe me arrastava ao centro da cidade para estudar arte moderna. Para ser sincero, minha intenção era esquecê-lo lá e tomar-lhe o lápis aos meus propósitos. De fato, eu necessitava, como um remédio do coração ao cardíaco, borrar umas setecentas páginas com uma crônica do drama da minha vida, mesmo que isso custasse a confiança do velho desalumiado e ingênuo: o cego. Queria delinear a olhos vistos, sim, toda minha história, a qual agora, apesar de apossada, fazia-se feroz e traiçoeira, como se indomada por escolha própria, isto é, insubordinada feito órfã inserida numa família desacreditada pela infertilidade e despreparada pelos fracassos da vida, ou vice e versa. Mas não a culpo desse destino, foi o mundo - escultor de gerações - que a moldou assim.

Talvez fosse essa a explicação, penso aqui. Não é difícil acreditar que minha trajetória se sustentou por sorte. Sinto-a desacolhida desde sua discreta aurora, a qual nem mesmo com algumas centenas de vocábulos consigo resumir. E não uso da desculpa de que é complexa demais ou que de tão confusa seria perda de tempo narrá-la, isso nunca. Se me desse uns dez minutos de prosa, faria de ti, do desconhecido, do anônimo, do zé ninguém, os meus melhores e mais honrados amigos. Minha voz é sem pudor algum uma fonte de profecias e meus lábios, a raiz de muitas verdades; porém, sempre recordo de que me distancio do narcisismo - que de fato é mera insegurança - de dizer que sou deus de mim ou de ti. E prova dessa discussão é eu ter concluído depois de um sonho perturbado que minha mente conspira e conspirará contra minha tranqüilidade e o casamento entre uma alma de luz e um mistério-milagre que fez o que sou enfim.

Poderia assustá-lo com essa premissa, sem dúvida, e limitar-me a essa declaração. No entanto, preferi guardar a memória de minha dor um tanto mais fundo que uma lembrança ou um berro nas alturas da troposfera podem alcançar. Eu quis, e só dessa vez, ser ouvido, lido, recordado e discutido nas mesas de bar... porém, antes da glória, da romântica importância que nem sei se virão, precisava receber minha catarse de mãos beijadas.

Conversando com amigos, descobri que ofereciam-na a preços altíssimos em consultórios, divãs e o diabo a quatro. E tudo isso a exatos três quarteirões da minha casa. Eu compreendo, resignado, sério, sem sarcasmo, - te juro! - que custa caro saber das dores do outro. Decorei das reflexões de minha mãe os argumentos que apontam a responsabilidade que é vender diretrizes teóricas e duvidosíssimas com o objetivo de fazer alguém pouco mais feliz da vida. Sei do charlatanismo embutido nos remédios de etiqueta preta e na entidade misteriosa que nomeiam 'Academia'. Sei do quão perigoso é ir longe demais, atrás de uma dica que atalhe uma vida de angústias. Sei de tudo o que perpassa o universo medíocre dos intelectuais, da razão e dos que acham que a detêm.

Meu veneno, portanto, foi saber que eles tinham minhas respostas prontas; mas que, antagonicamente, se fortaleciam por dominar um idioma, uma escrita, uma sintaxe que, embora exatamente iguais às que eu e meus problemas praticávamos entre nós no jogo de tentar desembolar o fio do telefone, soa artificial, estrangeira, ininteligível... E não duvido também que esse seja, por fim, o propósito desses vendedores de solução. Talvez só assim, vestindo essas roupas de brechó com cheiro de guardado, usando tais óculos com setecentos graus acima e adorando deterministas, existencialistas e lavadeiras, eles se alimentem das próprias gargalhadas e dos descontroles alheios.

Eles sabiam que lá no meu verbalismo, onde nenhuma ressonância consegue enxergar, jazia minha doença. Ela penetrava bem fundo na minha covardia, minha fraqueza, e punha em evidência a vulgaridade "daquelas lá" comprimida num sorriso falso; espelhava sem medo suas caras imaculadas e projetava a gritos inauditos e duplicados sua revolta contra meu desejo por sua dualidade, de mantê-las sob meus cuidados num ato egoísta e irracional. Eu tinha as chaves para libertá-las, mas sabia que minha consciência - adoradora da posse - preferia mantê-las embrulhadas numa concepção miniaturizada do mundo. Onde pudesse cuidar e manter em sigilo por mais tempo até que o tempo soprasse-as para longe.

E meu pai, ao fundo, profetiza orgulhoso de si aquela experiência enxerida de velho sábio e coisa e tal. Talvez ele guarde suas reflexões não verbalizadas no bolso da camisa que nunca usou, como se não sentisse vontade alguma de encontrar e resolver sua existência. E, no verso da história, vejo-me na época certa de perdoar o mundo dos males impostos a todos fortuitamente. Mas nunca fui muito de perdoar, nunca fui muito de muita coisa, para ser franco... nem de viver como meu pai, assim desse jeito, sem muito pensar no seu "Eu".

Enfim, para chegar em casa, depois de descer exausto e com chuva do Santa Matilde, disputei a marquise dos tais consultórios com seis ou sete alunas do Padre José sob forte chuva. Tinha de fugir dali, óbvio, então apertei o passo para atravessar os três quarteirões. E ainda assim, balançando as chaves do apartamento, cruzei as ruas agarrado à minha quase finada coragem, como se a sensação de estar me aproximando do meu ninho remediasse a pressão do medo de falhar, de entregar-me por doze mil a alguém que se senta atrás de mim, sem fitar meus olhos, e me diz algumas "verdades absolutas" anotadas por um viciado num domingo perdido no tempo.

De frente à porta de casa, esperei que ela reconhecesse meus passos contra o assoalho. Sempre subia o único lance de escadas reproduzindo a 5ª de Beethoven, tsc. Nada de resposta. Agitei novamente as chaves e só assim vi o número 12 sumir da minha frente e aquela criatura assustadora e ao mesmo tempo doce me saudar com uma cara de sono e sua outra metade me ler dos pés à cabeça. Essa cena sempre será um "mudo" na minha história, como se eu não tivesse como entender tal estranha mecânica.

Como se previsse meu coma lúcido, ela me passou o telefone sem fio e uma outra voz me ditou o número, que disquei sem muito pensar. Antes, num ato de desespero, tentei encontrar naquela penumbra uma caneta para esboçar minha expectativa de resolver tudo ao voar alto e expulsar minha perturbação somente com um grito de ira. Tinha tempo e legítima esperança de que funcionaria. Mas do outro lado da linha alguém com uma voz anasalada e impaciente saudava-me com um "alô". Sem o mínimo controle, pus-me a tagarelar para o outro lado:

___ Dra. Rosali ? - por um momento eu duvidei que estava falando com um humano - Qual o melhor horário para consulta ? Amanhã ? Ótimo. Sei onde estão, moro a três quadras do edifício. Passar bem.




A imagem foi gentilmente dedicada ao texto pelo artista Leonardo Vieira, que publica suas obras no seu bloghttp://porleonardo.blogspot.com/.

terça-feira, novembro 22, 2011

Meu Lema.



Estava muito claro que aqueles resmungos indiretos eram todos para mim. Giselda balbuciava uns trocentos maldizeres e lançava aquele olhar torto na minha direção para ver como eu reagia à sua cerimônia de querer me inclinar às suas vontades. Usava de todas as estratégias juvenis – e enquanto ateava fogo no quarto, rolava também a calçada e se jogava nua do vigésimo andar: um verdadeiro festival de falsas ameaças. Eu, macaco velho que sou, por mais compaixão que mentisse com olhos protraídos de atenção e vida, não fazia valer as pirraças daquela quase-dama projetada para carnavais nos quais talvez nem vivo estarei. Não, não, comigo o buraco é mais embaixo, e esse tal partido de feminismo por conveniência não se acolhe bem na minha consciência; em verdade, nunca se acolheu, nem mesmo quando era uma criança subordinada e desacreditada dos motivos que a televisão a cores tinha pra nós.


Meu pai, que era bom exemplo dessa máxima, sustentou até seu último suspiro aquela mania boba de ordenar que minha mãe “fizesse isso” ou “arrumasse aquilo”; e era só pelo prazer descartável de tê-la nas rédeas, presa à sua corte, que seu ego gerava natimorta qualquer esperança de que algum dia gestos de amor fossem dominantes no nosso sobrado na desperdiçada Alameda das Acácias, número 3. Tudo isso para manter viva, como sempre fora com meus avós, bisavós e outros vós, a tradição do patriarca absoluto – palavra que para eles era sinônimo de monarca e que por vezes esbarrava nos ofícios de tal.


E foi nesse reinado de Luís não sei das quantas que passou tempo suficiente para que o respeito de toda a família recaísse sobre sua pouco expressiva existência e se diluísse no partir de Sebastião de Sant’anna, no dia 15 de fevereiro de 94: sem chuva, sem flores, sem música e sem qualquer significância de dia póstumo - nada. De fato, concordo que não existem bons dias para morrer, ou sequer um dia certo para abandonar tudo e entregar-se para o Divino, mas o pilar da integridade familiar que antes era teso e inabalável tombou e foi enterrado junto de papai no gélido granito da marmoraria do Lucinho, e de lá, até os dias de hoje, não saiu mais.


Minha irmã, engajada daqui e de lá com uns intelectuais desvairados, enviesou para as tônicas da arte e da preguiça e perdeu-se com ela mesma num apartamento do subúrbio de um subúrbio brasileiro; Clarisse, minha esposa, reatou um amor duvidoso com a capital e refez as malas para Lima; e Sandra, a governanta que me trocou as fraldas e serviu-me o jantar do casamento, se mandou para os confins da terra com meu cunhado Oswaldo, de casamento marcado com Ana Beatriz; um grande filho da puta.


Sei o que dirá, mas só sei porque por aqui não há quem não diga. É um familiazinha medíocre os Sant’anna, gentinha que não vale a merda que põe no prato, um bando de sem vergonhas aninhados na mesma casa... Vá, eu compreendo, ora ! Essa mesma franqueza de falar o que dá na bucha é que faz as boas maneiras das donzelas de Fundo Céu - é o normal nessas bandas de cá ! E Giselda estava lá, quimérica, tentando fazer da história dos meus antepassados um registro superficial e transponível. Até que eu explicasse a carga que repousava nos meus ombros e os olhos do meu pai lá no infinito projetando memórias de minha infância, decerto ela me deixaria para recorrer aos seus outros. E eu sabia, desde muito tempo, que não eram poucos.


Cá pra nós, uns até me acompanhavam como amigos no bilhar, críquete e golfe australiano, e de tanto relatarem suas más criações ao lado da tal ‘moça do Santiago’ – pai bebum e já finado da minha moçinha – relacionei logo a Giselda e matei a charada que discordava da minha inocência quase adolescente de pureza ia até os dezenove.

___ Vamos, Ricardo, vamos de uma vez ! Se aceitar meu pedido prometo não lhe pedir mais nada que ataque seu bolso ou sua dignidade. Não sei se você me entendeu bem: eu disse Caribe !


Entusiasmada com seu próprio ar de locutora, ela sabia que jogava bem. Essas promessas que unem “nunca” ou “sempre” a uma concessão qualquer são sem dúvidas as mais vantajosas; e essa, apesar dos pesares, mexeu com minhas estribeiras. E, não sei como, ela sabia das minhas finanças. Sabia tintim por tintim de cada trambique, seja com os vendedores de coca na fronteira ou com a validação dos cassinos; o baralho, os impostos e meus negócios caribenhos pendentes: absolutamente tudo. E, não satisfeita, chantageava com maldade para me arrancar toda espécie de regalia. Sapatos caros, máquinas fotográficas, jóias, brinquinhos de ouro e uns outros cacarecos moderninhos que eu não sabia bem pra quê. Também, não ousava jogar a culpa em ninguém que não em mim. Cada espirro, cada palavra, cada gesto, por menor formalismo que parecessem conter, foram minhas criações, tinha meu dedo ali de um jeito ou de outro. E Giselda, minha criatura esculpida num exemplo de mundo perverso, tinha a quem puxar. Ela era o retrato mais fiel, a ilustração mais exata do que havia de verdadeiro nos recheios humanos – era a verdade em ferida aberta simplesmente.


___ Eu já disse que isso não dará em nada, Giselda. Além do quê, nesse período não há quase turista algum ! Meu bem, os tempos mudaram ! Mudaram pra valer. – eu tentei ser cordial, fiz minhas caras de coitado, ofereci uma dose de whisky e tentei um cafuné que ela pouco apreciou empurrando meu punho com uma raiva dissimulada ou uma esquiva. Foi fatal.


___ Pois fique então com tuas putas, Ricardo! Leve-as com você para conhecer o mundo, gaste tudo com aquelas sanguessugas e depois pague-as para largarem-no como um coitado num hotel asqueroso com uma xícara de café e sem um tostão furado no bolso. Se é a elas que você demonstra gratidão, deixe como está.


Vi essa cena como encarei Lígia nos olhos em sua adolescência difícil. Foi, das minhas filhas, a mais hermética e sentimental, a que mais intensamente marcou-me na pele. Era vulgar, melindrosa e decidida demais para estar no tempo e na posição em que estava. E partiu só, como tinha de ser. Dela, não tive mais notícias; talvez tivesse trocado seu nome, pintado o cabelo ou feito um rosto novo. E eu senti naquele dia, que de todos os seres humanos eu era o mais impotente; que para permanecer sozinho eu só precisei amar o indivíduo ao qual dei parte da vida. Ou melhor: de quem cuidei, a quem protegi eu só recebi silêncio e indiferença.


E vi essa cena reproduzir-se tal qual na fatídica noite de setembro. Minha moçinha fazia o papel de Lígia, e eu, um tanto menos grisalho que agora, assistia a tudo meio apavorado na noite em que por fim decretaram minha solidão - sem minha assinatura, meu consentimento, meu aval.


Giselda, em cima do mesmo banquinho de madeira em que minha mãe nos punha todos de castigo, colhia do armário todos os vestidos que comprei, todos os colares, todos os livros, todas as cartas e presentinhos... Colocava-os um a um numa mala maior que ela própria, sem o menor sinal de pressa - arrumando com esmero suas coisinhas - como que fazendo-me remoer sua partida lentamente. Parecia apreciar o veneno penetrando aos poucos, célula a célula: ácido, corrosivo, torturante.


Eu fingia desconhecer, mas estava claro que era a sensação de estar só encharcando-me mais uma vez. Em verdade, eu dava à luz o remorso de uma geração inteira. Sentia pesar em mim o monstro infinito que é o cárcere de si próprio sobre a consciência. Assistia inerte a vida transitar nas memórias e no semblante decepcionado de meu pai, que por sua vez azedava por desgosto ao ver-me retirar do paletó dois bilhetes com o logotipo da empresa de táxi aéreo. Naquele instante, eu desperdiçava todos os esforços de seis mil homens por uma coisa simples: medo. E entregava definitivamente as rédeas àquele projeto de mulher. Mas mal sabia ela que lá nas "ilhas bonitas" eu não era tão querido assim como pensava.


___ Faça suas malas, meu amor. Partimos pela manhã.